   Frutos do pecado

                Lynsey Stevens

                           "Ryan's return"



Quando Ryan foi embora, oito anos atrs, a vida perdeu o sentido para Liv. Anestesiada pela dor, ela no sentia nada. Nem a vida que comeava a se desenvolver em
seu ventre, fruto daquele amor que quase a levou  loucura. E no foi fcil acordar para a realidade, organizar a vida sem Ryan, cuidar sozinha dos gmeos, que agora
enchiam sua alma de ternura. No foi fcil, mas ela conseguiu. E, por mais que seus joelhos tremessem ao ver Ryan de novo, por mais que sua pele se arrepiasse s
de sentir o cheiro msculo dele, Liv no ia nem pensar em aceita-lo outra vez.







CAPTULO I

Flexionando os msculos doloridos, Liv sentou-se e sorriu com satisfao, olhando para o delicado vaso de porcelana que tinha acabado de pintar. Depois, com um floreio,
colocou a sua assinatura na parte de baixo: Liv Denison. Agora ele estava pronto para ir para o forno. Mais tarde ela o embalaria junto com as outras peas que j
havia decorado e mandaria tudo para uma loja de presentes em Airlie Beach, onde seus trabalhos costumavam ser rapidamente vendidos.
Mesmo depois de cinco anos, Liv ainda achava difcil acreditar que fazia tanto sucesso com as suas pinturas. Tudo tinha comeado quando conseguiu o emprego de balconista
numa lojinha local de souvenires; foi ai que seu patro viu dois quadros a leo que ela tinha feito, retratando cenas marinhas. Impressionado, ele pediu para exp-los
na vitrine e ela concordou. Para sua surpresa, os dois Foram vendidos quase imediatamente, e dai em diante Liv passou a ganhar a vida com as suas pinturas. Elas
lhe davam um bom dinheiro, principalmente durante a temporada de turismo.
Agora, um dos trs quartos de seu bangal tinha sido transformado em estdio, e abrigava toda a parafernlia de que ela precisava para trabalhar. Por toda  parte
viam-se telas, algumas j prontas para serem emolduradas, outras ainda em branco. Sobre uma mesa estavam espalhados inmeros tubos de tinta e algumas palhetas, alem
de vrios pincis.
Liv acabou de limpar o material que havia usado para pintar o vaso e guardou-o na estante reservada para esse fim. Depois deu uma rpida olhada no relgio de pulso
e saiu correndo para tomar um banho. Vinte minutos mais tarde j estava na cozinha, com um avental amarrado por cima do vestido azul-claro que tinha posto.  Os gmeos
deviam chegar dentro de mela hora, e Joel, a qualquer momento.
Colocou os pratos frios que havia preparado para o jantar daquela noite sobre a mesa e cobriu-os com uma toalha limpa. Em seguida, guardou na geladeira a salada
de alface e palmito.
- Oi, Liv! A sua baba chegou! - uma voz animada berrou da sala no momento em que Liv estava lavando as mos.
- Entre, Joel eu estou na cozinha - Liv respondeu, sorrindo para o cunhado que se aproximava com largas passadas. - Est se sentindo forte o suficiente para agentar
os gmeos durante algumas horas?
- Eu estava torcendo para esta noite chegar logo. Os dois no do trabalho, Liv, e eu adoro tomar conta deles. Voc sabe disso - o rapaz respondeu sorrindo.
Aos vinte e nove anos, Joel Denison era considerado um dos melhores partidos da cidade. E Liv no entendia como ainda podia estar solteiro. Alm de bonito, ele era
um dos homens mais bondosos e agradveis que ela j conhecera. Para os gmeos, ento, Joel era um tio maravilhoso!
- Eu faria qualquer coisa para sair de casa esta noite - ele continuou. - Tomaria conta de at vinte garotos de sete anos de idade!
- Oh! O que foi que aconteceu? - Ela estendeu uma xcara de ch para ele e os dois se sentaram a mesa da cozinha bebericando
- D.J. O que mais poderia ser? - Joel explicou, fazendo uma careta. - Sabe ns dois somos totalmente diferentes!   s vezes eu fico imaginando como e que um homem
como ele pode ter um filho como eu!
- No h dvida de que ele teve sorte. - Os olhos azuis de Liv brilhavam, quando ela brincou; - Talvez voc tenha sido trocado na maternidade.
- Pode ser que sim - Joel concordou, rindo com ela.
- Mas o que foi que D.J. fez, desta vez? - Por experincia prpria, Liv sabia o quanto o sogro podia ser mando.
- Por incrvel que parea, desta vez, no se trata do que D.J. andou fazendo, mas do que a Sra. Craven fez!
- A Sra. Craven? Aquela senhora idosa que mora na ilha Craven? - Liv olhou incrdula para o cunhado. - No me diga que ela finalmente vendeu a ilha. Depois de tantos
anos recusando todas as ofertas de seu pai!
- Pois foi o que aconteceu!
- Mas ela jurou que nunca venderia a ilha Craven! Ela costumava dizer que a ilha pertencia  famlia h trs geraes e que nada a faria se desfazer dela!
- Pois agora ela mudou de idia.  E no s vendeu a ilha. Como tambm o lote de terra que fica naquela colina que da para o porto. Sabe qual?
- Deus do cu! No  de admirar que D.J. esteja doente de raiva. - Liv podia muito bem imaginar a zanga do sogro. Todos na cidade sabiam que ele desejava comprar
as duas propriedades h anos, e que a velha senhora sempre se recusara a vende-las. - Voc sabe quem as comprou?
- Esse  o problema, Liv. Ningum sabe. D.J. fez tudo o que podia para descobrir, mas no teve sucesso. A minha opinio  de que no foi ningum daqui. Quem nesta
cidade teria dinheiro para pagar o preo o que a Sra. Craven deve ter pedido, alm do meu pai? D.J. botou na cabea que ela vendeu para um sindicato e que mais cedo
ou mais tarde o governo do Estado vai mudar de poltica e deixar que construam um cassino na ilha, ou no alto da colina.
- Oh. Joel!No pode ser! Eles no fariam uma coisa dessas.
- Ser? Na verdade eu no consigo imaginar a Sra. Craven vendendo as duas propriedades para um sindicato, mas voc sabe como D.J. .
- Mas deve haver algum que saiba a respeito da venda. Ela deve ter contratado um advogado para tomar conta da parte legal da transao. No era o Sr. Willis quem
tomava conta de todos os negcios dela?
- Se o Sr. Willis sabe de alguma coisa a respeito dessa venda, esta sendo muito discreto. Ele foi a primeira pessoa que D.J. procurou. Voc sabe que, para o meu
pai, a palavra "segredo profissional" no tem nenhum valor. Mas no adiantou nada! - Joel riu. - Meu Deus, ele ficou louco da vida! Pensei at que fosse ter um ataque!
Ele telefonou para a Sra. Craven e disse um bando de desaforos. - O rapaz sacudiu a cabea. Eu no via D.J. to zangado desde... - Ele se interrompeu, corando de
leve.   Depois, terminou rapidamente: - Bem, h muito tempo.
Um silncio pesado caiu entre eles durante alguns minutos. Sem se olharem os dois pensavam a mesma coisa: que D.J. no ficava to bravo desde o que tinha acontecido
com Liv e Ryan.
- A que horas os gmeos vo chegar? - Joel mudou de assunto e aos poucos o momento desagradvel passou.
Liv deu uma olhada para o relgio pendurado na parede da cozinha.
- Eles j devem estar chegando.  Maria Costello pegou os dois na escola, na hora do almoo, e levou-os para passar a tarde brincando com Dino e Sophy. Ela disse
que os traria para casa mais ou menos s cinco horas.
- Se eu tiver um pouco de sorte, os dois vo estar to cansados de correr a tarde inteira, que vou conseguir que concordem em brincar de coisas mais calmas e menos
cansativas, tais como rastejar pela casa ou ver quem consegue subir primeiro a escada, pulando num p s. Da ltima vez que tomei conta deles, jogamos tanto futebol
que pensei que fosse morrer de cansao! O que me salvou foi que ficou escuro demais no quintal para continuarmos. Isso mostra em que boas condies fsicas eu estou
- Joel terminou, sorrindo.
- Voc precisa tratar os dois com mais firmeza, Joel - Liv comentou, rindo. - Voc  muito mole com eles!
- Bem, mas quem  que precisa de um bicho papo para tio? Os dois so uns amores, Liv.
- Eu sei que so. Ah, e falando nos meus diabinhos, parecem que eles esto chegando.
Liv atravessou o hall e chegou  porta ainda em tempo de acenar para Maria Costello, antes que os gmeos se jogassem em seus braos.
- Oi mame! O que temos para jantar, hoje? - Luke jogou a bolsa escolar em cima da mesinha que ficava ao lado do sof. - Estou morrendo de fome!
- O tio Joel j chegou? - Melly colocou a bolsa junto  do irmo, com mais delicadeza.
- Ele est na cozinha. Por que vocs dois no vo conversar com ele, enquanto acabo de me vestir? E nada de comer bolachas agora. Luke. No quero que estrague o
seu apetite. - ela gritou para o filho, que j corria para a cozinha, seguido mais vagarosamente pela irm.
Em seu quarto, Liv aplicou uma maquilagem leve no rosto e depois soltou os longos cabelos pretos, escovando-os at brilharem. Ia prend-los de novo no estilo severo
que costumava usar quando, num impulso, os deixou carem em volta do rosto.  Virando-se ligeiramente, contemplou os fios negros que lhe chegavam at a cintura, e
que  luz artificial pareciam veludo lquido. Fazia quatro anos que decidira: no os cortava mais, permitindo que ultrapassassem os ombros. Antes, usava-os curtos,
por serem mais fceis de tratar.
Com um gesto impaciente, Liv prendeu os cabelos novamente. No estou em meu estado normal esta noite, pensou examinando sua imagem refletida no espelho. Dois grandes
olhos azuis, num rosto razoavelmente atraente, retriburam seu olhar. Sorriu para si mesma, sabendo que podia no ser nenhuma maravilha, mas no estava mal para
uma mulher que tinha dois filhos de sete anos. Seu corpo, de seios arredondados, cintura fina e quadris bem-feitos, ainda estava em forma.
Os risos que vinham da cozinha chamaram a ateno de Liv. Era sempre assim, quando Joel estava por perto! O rapaz era realmente uma pessoa maravilhosa, e ela sentia
um grande afeto por ele. Joel sempre estivera pronto a ajuda-la, mesmo no comeo de tudo, quando as atitudes dela tinham ferido tanto no s a ele, como a todas
as pessoas ligadas a Ryan.
Ryan! Por que estava se lembrando dele naquela noite? No pensava nele h sculos, e agora... Com passos decididos, Liv dirigiu-se para a porta, decidida a tirar
o marido da cabea. Martin chegaria a qualquer momento, para irem jantar fora. Depois, iriam a uma reunio da Associao de Pais e Mestres da escola que os gmeos
freqentavam.
- Alm dos pratos que esto em cima da mesa, eu preparei uma torta de frango para o jantar de vocs - ela disse, entrando na cozinha. - Est no forno. Voc se importa
de dar banho nos gmeos, para mim?
- Claro que no. Afinal, foi pensando nisso que eu trouxe o meu mai - ele respondeu, piscando um olho para os gmeos, o que fez os dois terem um novo acesso de
riso - Pare de se preocupar, Liv!  V passear e divirta-se. Voc merece.
- Ns vamos ser muito bonzinhos, mame - Melly prometeu solenemente, abraando a cintura da me - Hum, voc est com um cheiro delicioso!
Liv afastou os cabelos loiros da testa da filha, olhando para os olhos profundamente azuis da menina. Como sempre, sentiu um aperto no corao ao ver quanto Melly
se parecia fisicamente com o pai, apesar de ter uma personalidade totalmente diferente. A garotinha era meiga e delicada, ao contrrio de Ryan, que dava a impresso
de ser feito de ao.
- Eu tambm vou me comportar - Luke declarou, batendo no peitinho com o polegar e olhando para a me com os seus inocentes olhos azuis. Ele havia puxado Liv, e era
to moreno quanto  irm era loira, to extrovertido quanto Melly era tmida e reservada.
Eles eram to diferentes quanto o dia da noite, e Liv sentiu uma onda de amor invadi-la. Pela centsima vez, ela se perguntou como uma coisa to linda como os seus
filhos podiam ter resultado de algo to baixo e srdido.
- A est o seu amigo - Joel fez um gesto com a cabea em direo  porta, quando ouviu a campainha tocar. -Exatamente na hora! Eu gostaria que voc estivesse saindo
para uma coisa mais excitante que um jantar e uma reunio da Associao de Pais e Mestres. Acho que vou ter uma conversinha com Martim Wilson.
- Bem... Eu no vou demorar Joel.
- Pode ficar fora at de madrugada, se quiser, Liv. E divirta-se. Isso  uma coisa que o "Dr." Joel Denison insiste. - Ele a empurrou delicadamente na direo da
porta, soltando um suspiro exagerado.
- Se voc no for abrir a porta logo, vai ter que ficar e jantar conosco - ameaou, brincando.
Liv entrou no carro de Martin. Partiram para Airlie Beach. - Espero que voc goste do jantar. Olvia. Eu no tive tempo de ir at l, antes, e no conheo a comida
deles ainda. - Martin Wilson lanou uma olhadela para o rosto plido de Liv.
-- Tenho certeza de que vou gostar, Martin. At agora, s ouvi elogios a esse restaurante -- ela respondeu, esforando-se para parecer animada. Foi com alivio que
viu o rosto dele se desanuviar; a ultima coisa que queria, naquela noite, era ter de responder a perguntas embaraosas.
Martin dava aulas na escola que os gmeos freqentavam, e ela o conhecera numa reunio da Associao de Pais e Mestres, logo depois de ele ter sido transferido para
l. A amizade entre eles tinha se desenvolvido aos poucos, pois nenhum dos dois queria entrar apressadamente num tipo de relacionamento mais srio, principalmente
Liv. Na verdade, ela ainda no estava certa de querer se envolver seriamente com homem nenhum.
O fato de Martin ter sugerido esse jantar a deixara um pouco surpresa. Ele no tinha o costume de convida-la para sair, preferindo v-la nas reunies da escola,
o que Liv achava timo.
Martin no  realmente do tipo que toma decises apressadas. Tudo em sua vida era cuidadosamente planejado, e aos trinta anos ele havia adquirido uma slida reputao
de homem de bem na cidade. Seus cabelos escuros estavam diminuindo bastante e, apesar de ele no ser bonito, sua personalidade sria e autoconfiante o transformava
em uma boa companhia, se bem que nem um pouco excitante.
Os dois passaram horas agradveis no restaurante e na reunio da Associao de Pais e Mestres, antes de voltarem para a casa de Liv pela estrada que contornava a
praia. Por alguma razo que ela no conseguia definir. No se sentira inteiramente  vontade naquela noite; varias vezes teve que fazer fora para se concentrar
no que Martin dizia. Mas, por sorte, ele adorava falar e no notou nada de diferente no comportamento dela.
Observando o modo como Martin dirigia o carro pela estrada da praia obedecendo religiosamente o limite de velocidade assinalado pelas placas. Liv sentiu uma onda
de irritao invadi-la. Com a rapidez de um raio, sua mente voltou-se para uma outra noite em que tinha passado por aquela mesma estrada agarrada numa mistura de
pavor e xtase ao estofamento de couro macio do banco de um Jaguar, enquanto um par de mos fortes fazia o carro contornar as curvas fechadas, quebrando todas as
regras e regulamentos e desafiando a gravidade.
O rosto bronzeado, de dentes muito brancos, surgiu na frente dela, to real em seus detalhes que Liv quase gritou, apertando as mos com fora no colo. O queixo
firme e quadrado, com uma leve reentrncia no centro, os lbios bem-feitos e sensuais, o nariz reto e aristocrtico, as rugas que se formavam em cada face, quando
ele ria... E os incrveis olhos azul-escuros, emoldurados por clios longos e negros. Olhos de expresso to intensa, que ela costumava se sentir perdida em suas
profundezas. Os cabelos de Ryan estavam sempre ligeiramente despenteados, com uma mecha rebelde caindo sobre a testa, o que lhe dava um ar atraente de pirata...
Liv voltou ao presente com um sobressalto, ao ouvir Martin mencionar o nome de Luke.
- Desculpe, Martin... O que foi que voc, disse?
- S que fiquei sabendo que Luke tinha se metido em encrenca de novo - de repetiu.
- Luke? Ele no me disse nada! O que foi que ele fez?
- Eu no estou a par da histria toda, mas, pelo que ouvi dizer, ele e o garoto dos Costello andaram brigando na escola.
- Ah, isso! - Liv suspirou, aliviada. - J soube de tudo. Na verdade Luke tentou impedir a briga. O outro garoto era muito mais velho e maior que Dino Costello.
- Sabe, Olvia, um menino precisa de mo firme, de um pai para guia-lo.
- Pensa que eu no sei disso, Martin? - Ela sentiu que estava ficando irritada novamente. - Amo os meus filhos e estou tentando educa-los do melhor modo possvel.
- Desculpe, Olvia, mas eu no gostaria que voc encarasse o meu comentrio como uma critica. Eu sei muito bem dos problemas que voc tem de enfrentar. - Martin
fez uma pequena pausa, antes de continuar: - voc nunca pensou em pedir divorcio?
- Pedir divorcio? - Liv repetiu as palavras, como se no estivesse entendendo o que ele dizia. - no - respondeu baixinho. E depois, um pouco mais alto: - no, Martin,
nunca pensei.
- E o seu marido? Ele nunca falou nisso?
- No. - Por alguma razo inexplicvel, Liv sentiu o corao se apertar a essa idia. - Ns no nos correspondemos - explicou com franqueza.
- Nunca?
- Nunca.
O silncio caiu entre eles, enquanto continuavam na direo do bangal de Liv. Pouco antes de chegarem, passaram por um carro estacionado no acostamento e ela viu
a ponta de um cigarro aceso brilhar l dentro. Na certa era um casal de namorados, procurando o isolamento. Uma vez ela e Ryan tinha feito a mesma coisa, naquela
mesma praia...
- Eu nunca lhe perguntei antes, mas o que foi que aconteceu entre voc e seu marido? Vocs no ficaram muito tempo junto, ficaram?
Liv quase se sentiu aliviada quando Martin interrompeu o seu pensa-mento. O passado parecia no lhe sair da cabea naquela noite, to doloroso quanto antes. Olhando
para o colo, surpreendeu-se ao ver o modo como suas mos estavam agarradas uma a outra, e forou-se a relaxa-las.
Como poderia responder a pergunta de Martin? O que poderia dizer? Nada. Nada tinha acontecido entre Ryan e ela, porque na verdade nunca existira nada entre eles,
a no ser um breve momento em que... Nada! Simplesmente nada!
- Se fica aborrecida por tocar nesse assunto, no precisa me dizer nada. Mas eu pensei que fossemos amigos... Bons amigos. - Martin estacionou o carro atrs do de
Joel, em frente ao bangal de Liv, e desligou o motor. Ento, virou-se para ela e pegou-lhe a mo. - Eu gostaria de conversar um pouco com voc, Olvia, antes que
entre voc sabe que agora eu atingi um ponto estvel na minha carreira, no sabe? Alem disso, j tenho uma boa renda e algumas economias. Estive pensando e achei
que... Bem, eu estou precisando de uma esposa, e achei que voc e eu poderamos ser felizes, juntos.
Liv sentiu-se invadir pelo pnico no estava preparada para esse tipo de envolvimento, nem com Martin nem com qualquer outro homem.
-- Martin, eu nunca pensei em nos dois nesses termos... Eu... Sei eu...
- Eu sei que no escolhi a melhor hora para falar de um assunto delicado como esse, mas gostaria que voc pensasse no que lhe disse. No estou querendo fazer presso
sobre voc, s estou lhe pedindo para pensar nisso. - Com delicadeza, ele beijou uma das mos dela. - Vai atender ao meu pedido?
- Est bem, Martin. - Liv concordaria com qualquer coisa, para por fim aquela noite. Quase tinha arrancado a mo das dele, quando Martin a beijou. O que havia de
errado com ela? Tudo parecia irrita-la e estava to tensa que s conseguia pensar em fugir, em escapar de tudo, voltando ao mundo em que no tinha que tomar decises,
ao mundo em que no precisava pensar em nada daquilo.
- timo!  - Martin sorriu feliz, sem perceber a tenso de Liv. Animado, ele desceu do carro e deu a volta para abrir a porta e ajuda-la a descer, acompanhando-a
depois at a varanda.
Antes que Liv pudesse pegar a chave na bolsa, Joel abriu a porta. Ao ver o rosto sorridente do cunhado, ela se sentiu um pouco mais calma.
- Oi! Divertiram-se? Chegaram exatamente a tempo para o caf --
Ele disse, sorrindo abertamente.
- Ns tivemos uma noite muito agradvel, sim, obrigado -- Martin respondeu, cheio de formalidade.
- Os gmeos esto dormindo? Espero que eles no tenham lhe dado muito trabalho. - Liv entrou na sala atrs de Joel, jogando o casaco que havia levado nas costas
de uma cadeira.
- Eles se comportaram maravilhosamente bem, e agora esto dormindo como dois anjinhos. - O rapaz serviu mais duas xcaras de caf e acabou de tomar a dele, dizendo
em seguida: - Bem, preciso ir. Amanh vou ter um dia cheio. - Levantou uma sobrancelha, olhando significativamente para Liv. - no se esquea do jantar l em casa
amanh  noite. D.J. me pediu para lembr-la. Eu passo para peg-los s sete horas, como de costume. Est bem?
- Est timo Joel. Vejo voc amanh  noite, ento. - Foi s com muito esforo que Liv se impediu de implorar a ele para ficar. No queria passar mais tempo sozinha
com Martin naquela noite, e pouco se importava com o fato de estar sendo covarde.
- No se levante, Liv. No h necessidade de voc me acompanhar at a porta. - Rapidamente, Joel dirigiu-se para a porta. - At outro dia, Martin. - Saiu, fechando
a porta atrs de si.
- Denison sempre toma conta das crianas para voc? - Martin perguntou, com um leve tom de crtica na voz.
- Sim, no que eu precise de algum para tomar conta deles com freqncia, mas Joel vem toda vez que eu no deixo os gmeos com Mike e Maria Costello. Por que?
- Oh, por nada. - Ele passou a xcara de uma mo para a outra, observando o lquido escuro em seu interior. - Eu estava pensando que deve ser horrvel para voc
continuar a conviver com os Denison, depois de ter se separado do seu marido.
- O que aconteceu no teve nada a ver com Joel, Martin - Liv retrucou com aspereza.
- Eu no estava dizendo que teve. - Martin levantou uma das mos, num gesto que pedia para ela ter calma. -  claro que voc sabe o que deve e o que no deve fazer.
E ele parece ser um bom sujeito.
- Ele ,  muito. Se existissem no mundo mais Joel Denison, seria bem mais fcil e agradvel viver.
- E o velho Sr. Denison deve gostar de ver os netos de vez em quando.
Sorrindo, ele se levantou e caminhou para a porta. Na varanda, parou e puxou-a para junto de si, com uma firmeza que no era caracterstica dele.
- Obrigado por ter sado comigo, Olvia.
- Eu e que agradeo, Martin, por ter me convidado. - As palavras saram sem nenhuma expresso e ela tentou forar seu corpo tenso a relaxar, mas sem muito sucesso.
Sentindo-se estranhamente inquieta, como se estivesse sendo observada por olhos estranhos, Liv estremeceu.
Martin soltou-a na mesma hora.
- Voc esta com frio. Esta brisa que vem do mar e gelada, mesmo.
 Liv esfregou os braos com as mos.- , est bem frio. Acho melhor eu entrar.
Ele se inclinou para frente e ela desviou ligeiramente o rosto, de modo que o beijo dele tocou-lhe a face.
- Boa noite, ento. Telefono para voc na semana que vem, se no a vir antes na escola. Voc vai pensar no que eu lhe disse, no vai?
Liv continuou parada onde estava, at as lanternas traseiras do carro de Martin sumirem na estrada. O carro de cor clara, pelo qual tinham passado na vinda, ainda
estava estacionado no mesmo lugar. Estremecendo, ela virou-se e entrou, trancando a porta atrs de si.
Passando pelo quarto do filho, Liv entrou para ver como ele estava. O menino soltou um profundo suspiro quando ela ajeitou seu corpinho numa posio mais confortvel,
antes de cobri-lo com o lenol que ele havia jogado para um lado. Em seguida, foi para o quarto que dividia com a filha e tomando todo o cuidado para no acord-la,
tirou a roupa e vestiu uma camisola curta, de algodo. Sentando-se em frente  penteadeira, soltou os cabelos e comeou a escova-los distraidamente, tentando afastar
da cabea os pensamentos que a perseguiam.
Mas no teve sucesso nenhum, e nem conseguiu dormir. Por isso, levantou-se e foi novamente para a cozinha, lavar as xcaras que haviam usado para tomar caf. Engraado,
j fazia tanto tempo que no pensava no que tinha acontecido entre ela e Ryan! O que ser que a fizera lembrar-se dele, logo naquela noite?
A luz da cozinha iluminava o ptio l fora, pela porta entreaberta, e Liv resolveu sair um pouquinho. Sorriu quando a brisa levantou-lhe os cabelos, refrescando
seu corpo coberto apenas pela fina camisola de algodo. Apoiando os cotovelos no murinho que rodeava o bangal, inalou com vontade o ar fresco que vinha do mar.
O bangal ficava a mais ou menus trinta metros da praia, e as ondas mansas quebravam-se de encontro s areias brancas, que brilhavam sob a luz do luar. O cu estava
repleto de estrelas e os nicos sinais visveis de que aquela parte da terra tinha outros habitantes eram as luzes distantes das casas que ficavam do lado oposto
da baa, a mais de um quilometro.
Suspirando ante a beleza da paisagem. Liv endireitou o corpo. Ela adorava aquele lugar, amava a sua paz e tranqilidade, a beleza das guas claras, das areias brancas
e da vegetao costeira.
Seus pensamentos voltaram-se para a notcia que Joel lhe dera: sobre a venda das propriedades da Sra. Craven. S a simples idia de que um grande complexo turstico
ou um cassino pudessem ser construdos naquela rea deixava-a deprimida. Na opinio de Liv, a maior atrao de Whitsunday era a sua beleza natural.
Surpreendentemente esta era a nica coisa sobre a qual o velho DJ. Denison e o pai dela concordavam! Ambos achavam que era preciso lutar contra a construo de grandes
arranha-cus e complexos tursticos no local. Charles Jansen tinha sido um pescador orgulhoso de sua origem humilde e o fato de D.J. Denison ser um homem rico o
enchia de desconfiana.
No que D.J. no tivesse trabalhado duro para chegar onde estava. Ele se orgulhava de poder dizer que tinha se feito sozinho construindo o seu imprio a partir de
uma simples balsa, at chegar a ser dono de uma frota de barcos, que transportavam passageiros de um ponto para outro das ilhas Whitsunday.  claro, D.J. queria
que Ryan se tornasse dono de uma parte desse imprio, para que pudesse assumir o comando de tudo quando ele se aposentasse.
Liv apertou os lbios. Mas isso no era suficiente para Ryan. Para lhe fazer justia, ele havia se diplomado em engenharia na Universidade de Queensland, com honras.
Alm de ter feito vrios cursos sobre administrao de empresas. No entanto, nada disso parecia satisfaze-lo e ele dava a impresso de estar sempre procurando por
algo que lhe faltava. Ryan tinha trabalhado com o pai por mais de um ano at o dia em que o mundo parecera explodir em torno deles.
Quem podia precisar exatamente quando tudo tinha comeado. O momento exato em que suas vidas haviam tomado o rumo que os levaria ao casamento?
Com um suspiro Liv caminhou at a porta da cozinha e sentou-se nos degraus que levavam ao ptio, abraando o joelho. Era intil tentar afastar as lembranas daquela
poca. Estava lutando contra o inevitvel e talvez, se parasse de querer sufoca-las, elas logo a deixassem em paz. Alem disso, oito anos eram um longo tempo, e se
no conseguisse encarar o que tinha acontecido com lgica, agora, nunca mais conseguiria.
Liv ainda se lembrava to bem da primeira vez que vira Ryan Denison, que parecia ter sido no dia anterior. Aqueles momentos estavam profundamente gravados em sua
memria, e agora que ela deixara de tentar sufoca-las, as lembranas tomavam conta de seus pensamentos. Via-se de novo naquela tarde de vero, ha quase dezenove
anos.
Liv estava com seis anos ento, e fazia trs dias que ia e vinha da escola em sua nova bicicleta. Sentindo-se muito crescida e importante. Naquela tarde, voltava
para casa quando quatro garotos pularam na sua frente, fazendo com que perdesse o equilibrio e casse na calada.
Os garotos comearam a correr em volta dela, rindo, caoando e empurrando-a, o que a fez romper no choro. Para uma garota de seis anos de idade, aqueles meninos
de quase doze anos eram praticamente homens feitos! Louca de medo, mas j se sentindo ligeiramente zangada Liv p-se a gritar com eles tambm, sem perceber que outro
ciclista havia parado ao lado dela. Antes que seus torturadores se dessem conta da presena do recm-chegado, ele j havia derrubado dois deles. O mais velho de
seus atacantes ainda tentou se defender, mas logo desistiu e, junto com os companheiros, fugiu correndo.
Olhando para o seu defensor, que ostentava uma camisa rasgada e um nariz ensangiientado, Liv teve a ntida impresso de que ele era o retrato escrito de todos os
prncipes encantados das histrias de fada que j tinha lido. Mesmo aos doze anos Ryan j mostrava uma boa parte da atrao de que seria dono um dia. Seu defensor
enxugou o nariz com uma das mos e, manifestando um desprezo total pelo sangue que dele escorria, comeou a limpar a poeira dos jeans.
- Muito obrigado por ter me defendido - Liv falou, com a vozinha trmula.
- Tudo bem. - O garoto tirou ento um leno quase limpo do bolso e o estendeu para ela. - Tome, enxugue os seus olhos.
Depois de fazer o que ele havia pedido, ela devolveu o leno.
- Obrigada. Mas no e melhor voc tambm enxugar o sangue que est escorrendo do seu nariz?
O garoto assoou o nariz com pouco caso e enfiou o leno novamente no bolso, antes de pegar a bicicleta de cor viva e brilhante, que parecia ter todos os complementos
possveis e imaginveis.
- No creio que aqueles idiotas voltem - disse - Mas vou acompanhar voc por alguns quarteires. Qual e o seu nome?
- Liv...   Olvia Jansen.  - Ela levantou sua bicicleta do cho e comeou a pedalar ao lado dele, sem muito equilbrio.
- Eu sou Ryan Denison - ele se apresentou, olhando-a pedalar. - Faz tempo que voc tem essa bicicleta?
- No,  nova. Ganhei de presente no meu aniversario, na semana passada - Liv respondeu com orgulho. - voc tem a sua h muito tempo?
- H anos. Mas no se preocupe, ningum tem muito equilbrio no comeo. O meu irmo levou meses para aprender a andar!
Ouvindo essas palavras, Liv se sentiu orgulhosssima. Ela havia conseguido sair andando sozinha quase imediatamente depois de montar na bicicleta pela primeira vez.
Alguns quarteires depois, Ryan parou e disse:
- Bem, at logo.
- Obrigada pela ajuda - Liv respondeu sorrindo, erguendo para ele os olhos cheios de adorao. Para ela, Ryan representava o pai, o irmo que sempre desejara ter
e Papai Noel, todos juntos.
- Voc pode me agradecer de novo com um beijo, quando tiver dezesseis anos - Ryan respondeu rindo e ela se afastou, muito corada. - Vejo voc daqui a dez anos, Liv
Jansen - ele ainda gritou.
Tantos anos haviam se passado, e Liv ainda sorri ao lembrar-se da cena. Ryan tinha sido um garoto bem precoce!
D em diante ela o vira poucas vezes, embora sempre ouvisse o pai se queixar daquele moleque de D.J. que vivia fazendo peraltices pelo cais. No entanto, a simples
presena de Ryan no ptio da escola ou na praia era suficiente para fazer Liv interromper o que estivesse fazendo para olha-lo tomada por uma estranha ansiedade
que ela no podia entender.
Os dois s conversaram novamente muito tempo depois na festa de aniversrio de um amigo comum. Trs meses antes de Liv completar dezessete anos. A maioria de seus
amigos de escola estava l, e ela no tinha idia de que os irmos Denison tambm houvessem sido convidados. A festa j estava bem animada quando Joel e Ryan chegaram,
e Liv os viu por entre os pares que danavam. Finalmente ela se encontrava de novo com Ryan. E dai em diante no viu mais ningum, alm dele.
Liv sabia que nunca se esqueceria daquele momento. Sua garganta tinha ficado seca e seu corao batia to rpido que parecia querer saltar do peito. Ele era, de
longe, o rapaz mais simptico que j vira!
Realmente, aos vinte e trs anos, Ryan Denison parecia ter tudo a seu favor. Alm de ser alto, loiro e bonito, vinha de uma famlia bastante rica e conhecida na
regio. Como Liv, todas as outras garotas da cidade o consideravam muitssimo atraente, e, poucos minutos depois de chegar a testa, ele j estava rodeado de mulheres.
Timidamente, ela ficou de lado, observando disfaradamente. Ryan mover-se de um grupo para outro. Liv sabia exatamente quando ele estava danando, quando estava
em p e quando estava sentado. Para ela, no havia ningum ali como Ryan. Ele era tudo o que os outros rapazes no eram.
Estava to distrada observando seu antigo defensor que levou um susto quando Joel Denison convidou-a para danar. Aceitou quase automaticamente, mas depois de alguns
minutos o jeito simptico de Joel j tinha vencido a sua timidez e ela se viu rindo e brincando com ele, como se o conhecesse h anos.
Joel era mesmo uma pessoa maravilhosa, e pela milsima vez Liv pensou em como seria bom se ela tivesse se apaixonado por ele, em vez de ter feito papel de tola por
causa de Ryan.
Mas naquela poca, apesar de ser muito agradvel e atraente, Joel Denison no passava de uma plida cpia de seu irmo mais velho, do ponto de vista de Liv. Ele
no era to alto, no era to bonito, nem tinha ombros to largos, e nunca poderia ser to incrivelmente atraente quanto Ryan. S que, o que ela ainda no sabia,
 que beleza no  tudo. Mas no levaria muito tempo para descobrir.
Liv e Joel estavam danando h mais de mela hora quando Ryan os viu. Seus profundos olhos azuis se estreitaram numa interrogao muda antes de ele virar as costas.
Ento, como a sala comeou a ficar muito enfumaada e abafada, Liv e Joel foram para o terrao. Foi l que Ryan os encontrou, a procura do irmo, para irem embora.
Os dois estavam sentados na mureta da varanda e o aparecimento de Ryan quase fez Liv cair no gramado, l embaixo,
- Ei, cuidado! - ele disse, segurando-a para ajuda-la a recuperar o equilbrio.  Seus olhos tinham examinado Liv apreciativamente, e um sorriso apareceu lentamente
em seus lbios. -Agora eu sei por que no vi voc a noite inteira, Joel. No vai nos apresentar?
- Tenho certeza de que vou me arrepender disso - Joel comentou antes de fazer a apresentao, sorrindo com bom humor. - Liv Jansen... Este e meu irmo, Ryan.
- Liv Jansen... - Ele pegou a mo dela, segurando-a com firmeza. - Engraado, seu nome no me e estranho! - De repente, ele sorriu. -
J sei!   A bicicleta!   Voc mudou bastante desde aquela poca, e decididamente para melhor!
Os olhos azuis percorreram Liv vagarosamente, detendo-se um pouco em seus seios jovens. Ela corou intensamente sentindo a boca seca e o corao batendo como um tambor
dentro do peito.
- E agora eu acabo de me lembrar de outra coisa, de um trato que fizemos. Voc me deve um beijo, Liv Jansen, e acho que j esta na hora de cobra-lo.
- Hei. Do que e que vocs esto falando? - Joel estava intrigado.
- Uma vez eu salvei Liv de uns bandidinhos e ela prometeu me dar um beijo quando tivesse dezesseis anos. Voc esta com dezesseis anos? - Ryan perguntou, divertido
levantando uma das sobrancelhas.
- Estou sim, mas no fiz nenhuma promessa - Liv comeou, sentindo o rosto em chamas.
- Ah. Liv Jansen, no me diga que voc vai faltar com a palavra. Porque, se for, eu vou ter que roubar um beijo.
E antes que ela pudesse imaginar a inteno dele, Ryan a puxou de encontro ao peito e a beijou em cheio na boca.
Daquele momento em diante Liv tinha sido de Ryan. Ser beijada por ele fora como receber uma marca, um sinal que dizia que era propriedade sua: agora, olhando para
trs ela podia ver que Ryan tinha percebido isso, tambm. At Joel notara. Liv viu isso nos olhos dele e sentiu o seu desapontamento. Mas no havia nada que pudesse
fazer a respeito.
A sensao do corpo de Ryan de encontro ao seu, durante aqueles poucos segundos despertou em Liv os anseios de uma mulher adulta. D em diante ela se sentiria apenas
meio viva, at que pudesse ter novamente os braos dele em torno de seu corpo.
Os irmos Denison tinham ido para a festa juntos no carro de Joel, pois o carro esporte de Ryan estava no conserto, assim, os dois foram levar Liv para casa. Sentar
espremida no meio deles, durante o curto trajeto at o bangal havia sido o verdadeiro paraso para ela. Fechando os olhos, Liv, ainda conseguia sentir a coxa firme
de Ryan de encontro a sua. Se tivesse tido a coragem de jogar a cabea para trs teria tocado no brao dele, que estava apoiado no encosto do banco.
Quando Ryan passou de leve a ponta do polegar por seu ombro nu. Liv voltou os assustados olhos azuis para ele. Mas no conseguiu sustentar por muito tempo o olhar
msculo e devastador. A viso da boca sensual de Ryan, um estremecimento involuntrio percorreu-lhe o corpo. Ele devia ter percebido, porque sorriu com um ar divertido.
Quase satisfeito.
Ento, Joel, estacionou o carro na frente do bangal e Ryan desceu, virando-se para ajuda-la a sair.
- Vou acompanhar voc at a   porta  - disse ele calmamente, levando-a na direo da varanda com tanta rapidez que Liv mal teve tempo de dar um apressado boa-noite
a Joel.
O pai dela havia se esquecido de deixar a luz da varanda acesa, e nos primeiros degraus ela parou e virou-se para ele, dizendo, emocionada: - Obrigada por me trazer
para casa.
- O prazer foi todo meu. E de Joel tambm,  claro.
- Boa noite.   - Confusa Liv virou-se para acabar de subir os degraus.
- Vejo voc mais tarde, Liv. Prometo!
Ela havia olhado para trs a tempo de ver os dentes muito brancos dele brilhando a luz da lua.
Relembrando aqueles momentos, Liv fechou os olhos. Meu Deus, como eu fui tola e ingnua, pensou. E era verdade, naquela poca, era jovem e estava apaixonada pela
primeira vez. Pela primeira vez? Pela primeira e ltima vez, uma voz falou dentro de si, fazendo com que seu corao se apertasse de dor.
Na verdade, com quase dezessete anos, Liv Jansen era como uma fruta madura  espera de ser colhida, como um ratinho do campo correndo pelo meio das plantaes, inconsciente
de estar sendo vigiado pelo poderoso gato caador. O fato de Ryan Denison ter mostrado interesse por ela fez seu corao inocente virar de ponta-cabea. Afinal,
Ryan Denison poderia ter qualquer garota da regio, que quisesse escolher.
Mas que sentido podia haver em se lembrar de tudo aquilo novamente? Que bem isso podia lhe fazer? O que acontecera entre ela e Ryan no passava de uma velha histria,
agora.
Sentada na soleira da porta da cozinha, os olhos fechados, acariciados pela brisa fresca que vinha do mar, Liv comeou a sentir os primeiros sinais de cansao.
Era melhor ir logo para a cama, enquanto ainda se sentia sonolenta.
De repente, seus olhos se abriram, assustados. Aquele barulho! Parecia o som de algum pisando sobre um galho seco. E no eram passos que ouvia ecoar, ao lado da
casa? Amedrontada, com o corao batendo forte no peito, Liv se levantou, ao mesmo tempo em que uma figura alta surgia no canto do ptio. - Quem ? Quem est a?
- perguntou, com a voz estridente de medo.
A figura, que tinha parado ao ouvi-la falar, avanou novamente at entrar na rea iluminada pela luz da cozinha.   O reconhecimento  foi alto. Liv apertou as mos
de encontro ao peito, sentindo o corao falhar uma batida. - voc!

CAPITULO II

Pela primeira vez em sua vida. Liv achou que ia desmaiar. Sentindo-se completamente mole, encostou-se no batente da porta, engolindo convulsivamente, a garganta
seca e contrada. Por um rpido momento, chegou a pensar que estava imaginando coisas, mas logo viu que no era assim.
- Desculpe ter assustado voc.
A voz continuava a mesma, grave e cheia, reabrindo as velhas feridas que ela acreditava j cicatrizadas.
- Bem, Liv... Faz um longo tempo que no nos vemos!
Ele a olhava do mesmo modo atrevido de antigamente... Havia apenas uma certa diferena, que Liv no sabia dizer qual era.
Lembrando-se de que estava praticamente nua, ela cruzou os braos na frente do peito, num gesto de auto proteo. Depois, reunindo toda a sua coragem, perguntou-lhe
com formalidade:
- No acha que j esta um pouco tarde para visitas? - Sua voz tinha um tom to calmo, to indiferente, que ela mesma ficou surpresa.
Ele levantou as mos e deixou-as cair em seguida. Com um sorriso cnico nos lbios que continuavam to sensuais quanto antes; embora quase cobertos por um bigode.
- Isso e tudo o que voc tem para me dizer, depois de oito anos? Uma bela recepo, sra, Denison!
- Que tipo de recepo voc esperava, depois de oito anos.' Queria que eu me jogasse em seus braos? - ela rebateu com amargura. Ainda mal acreditando que ele pudesse
realmente estar ali.
- Houve uma poca em que voc teria feito exatamente isso. - Ele sorriu com indiferena, apoiando um dos pes na soleira da porta.
Involuntariamente. Liv deu um passo para trs.
- No vai me convidar para entrar?
Deus do cu, se ela o convidasse, os gmeos poderiam acordar e...
- No!  - exclamou num impulso.  - no! - repetiu, com um pouco mais de controle. - no acho que seja uma boa idia.
Ele olhou-a em silncio por alguns momentos; ento, com um movimento rpido e gil, aproximou-se mais, parando bem junto a ela. Liv no era baixa, mas teve que inclinar
a cabea para trs para poder ver-lhe o rosto. E foi com uma certa dose de auto desprezo que ela percebeu que seu corpo estava tenso, ansioso, cheio de desejo de
ser tocado pelo dele. Mas, antes que se deixasse levar pela vontade de estender a mo e toc-lo, respirou fundo e disse:
- Ryan, acho melhor voc ir embora.
- Oh! Assim, sem mais nem menos? - Seus lbios torceram-se e os olhos brilhantes assumiram uma expresso fria, que lhes dava a aparncia de serem feitos de ao.
- J  tarde. Talvez eu possa ir at a cidade amanh, me encontrar com voc. Vai... Vai ficar muito tempo por aqui?
Enfiando as mos nos bolsos das calas escuras, Ryan virou-lhe as costas e caminhou alguns passos pelo ptio, onde parou com os olhos fixos na gua do mar. Liv examinou
o perfil forte sob a barba, tentando descobrir o que havia de diferente nele. Os cabelos loiros estavam mais curtos e os ombros pareciam mais largos ainda, se e
que isso era possvel. Mesmo a luz do luar, podia-se ver a musculatura bem desenvolvida de seus braos, tpicos de quem estava acostumado ao trabalho pesado. O rosto
bonito tinha perdido todos os traos infantis de que ela se lembrava, mas ele continuava to atraente quanto antes.
- voc mudou bastante - Ryan disse finalmente -, mas acho que eu tambm.  O tempo no deixa de passar para ningum. - Virou-se novamente de frente para ela. - voc
podia me oferecer uma bebida, em honra aos velhos tempos...
- Eu... Est bem - Liv concordou com relutncia, dando um passo na direo do interior da casa. - Espere aqui, que eu vou pegar uma cerveja para voc. Mas, antes,
vou me vestir.
- Eu j vi voc usando bem menos que isso - ele comentou, percorrendo com os olhos a parte dos seios dela que o decote da camisola deixava aparecer.
Liv olhou zangada para ele, sentindo-se invadir rapidamente por uma onda de dor, mistura de mgoa e dio, amor e revolta. Por um breve momento ficou to fora de
si, que por pouco no avanou nele, atacando-o com os punhos, as unhas e os dentes. Mas aquela sensao logo passou e ela disse, com desprezo:
-- Voc no mudou nada, Ryan.
Em apenas duas passadas ele a alcanou, enterrando os dedos fortes na carne macia de seus bracos.
- Como eu disse agora a pouco, voc mudou. Meu Deus, como  que algum pode ter mudado tanto?
- Solte-me!  Voc esta me machucando! - Liv tentou inutilmente escapar das mos que a seguravam. - Mas isso no  nenhuma novidade, no e, Ryan?
- Liv, no me provoque demais. - As palavras saram por entre seus dentes cerrados e Ryan apertou com mais forca os braos dela. Ento, percebendo o que fazia, ele
a empurrou para longe e, respirando profundamente, deu-lhe as costas.
Liv continuou onde estava, esfregando os braos doloridos e observando o marido. Ela sabia que devia aproveitar aquela oportunidade para entrar e fechar a porta,
mas hesitou.
- Quem eram os homens que estavam aqui com voc, esta noite? - Ryan perguntou casualmente.
- Homens? Como  que voc sabe quem estava e quem no estava aqui?
- Sei porque estou esperando voc desde as nove horas. Meu carro est estacionado ali perto da praia. Eu queria v-la a sos. - Ele virou-se e olhou para ela. - Se
 que voc ia terminar a noite sozinha.
- Oh, seu... - Liv respirou fundo. - Pelo que vejo, voc continua julgando os outros por voc mesmo replicou, o rosto queimando. Ento era Ryan quem estava no carro
pelo qual tinham passado! - E voc estava esperando por mim sozinho?  - perguntou, com falsa meiguice.    - Porque, se estava, deve ter sido uma experincia completamente
nova para o grande Ryan Denison!
Ryan ficou tenso,
- Olhe, Liv, eu no acho que voc esteja criando as crianas num ambiente bom para elas.  Os meus filhos - acrescentou, zangado. - Onde j se viu uma me sair com
um namorado, enquanto o outro toma conta das crianas?
O sangue fugiu do rosto de Liv.
- Seus filhos?
- , o meu filho. Eu sei tudo sobre eles. Na verdade, sei de tudo desde que eles tinham um ano e meio. Se bem que no por seu intermdio - terminou com sarcasmo.
- Como foi que voc descobriu? - Liv estava chocada.
- Que importncia tem isso?  suficiente voc saber que eu tinha conhecimento da existncia deles. - Ryan olhou-a como se odiasse sua simples viso. - Voc poderia
ter me contado, Liv, no acha? - Ele deu um passo para frente, parando a poucos centmetros dela. -- Eu tinha o direito de saber!
- Direito? Que direito? - A zanga fez Liv erguer a voz - Voc no tinha direito nenhum Ryan! - Derrepente sua raiva sumiu e ela acrescentou com indiferena: - No
comeo, voc no queria ter nada a ver comigo, e depois, eu  que no queria ter nada a ver com voc. Agora est tudo acabado entre ns. Vou entrar estou com muito
sono.
Liv virou-lhe as costas, mas com a rapidez de um raio ele a agarrou pelo pulso, forando-a a encara-lo novamente.
- Voc acha mesmo que tudo pode terminar assim, sem mais nem menos? - Ryan, estava furioso. - Tente ser honesta com voc mesma. Liv, voc tinha s dezesseis anos,
era muito jovem para se ligar definitivamente a algum.
Liv sorriu calmamente.
- Mas no era muito jovem para as outras coisas que voc queria. No , Ryan? E isso era tudo o que contava: o que voc queria. E voc me quis! Pois bem, o grande
Ryan Denison conseguiu o que desejava. Vamos deixar tudo assim.
Vendo que o havia provocado demais. Ela tentou se livrar das mos do marido; mas ele a reteve com a maior facilidade.
- Nessa sua mentezinha puritana voc j me analisou e reanalisou, e chegou a concluso de que sou o maior canalha que j passou por este mundo, no ? Pois bem,
a ultima coisa que eu quero  desaponta-la, Sra. Denison. - Ryan riu um riso spero e sem alegria. - no, eu no, mudei tanto quanto pensava.   Talvez seja melhor
verificar se voc mudou...
Seus lbios desceram sobre os dela com fora punindo e machucando, mas ao mesmo tempo excitando-a de forma inacreditvel. Seus braos fortes envolveram o corpo de
Liv e segurando-lhe o quadril, Ryan puxou-a de encontro s coxas musculosas, prendendo entre os dois corpos as mos que ela havia estendido para afasta-lo.
Nenhum deles percebeu em que momento a zanga foi substituda pela paixo, mas quando Liv deu por si estava com os braos em volta do pescoo dele, os dedos entrelaados
nos cabelos loiros e encaracolados. Quase gemeu de prazer quando Ryan envolveu-lhe um dos seios com a mo.
De repente, Liv voltou a si! Como podia corresponder as caricias de Ryan com tanto ardor, depois de tudo o que ele lhe fizera? Levou alguns minutos para juntar o
que ainda lhe restava de controle e dignidade e empurrou-o para longe.
Ento, respirando em grandes golfadas, sentindo-se como uma borboleta presa por alfinetes, Liv examinou com ateno o marido. No rosto impassvel de Ryan s os olhos
pareciam estar vivos, contemplando-a com expresso zombeteira. Mas a respirao alterada o traa, mostrando que as caricias que tinham trocado o haviam atingido
mais do que ele queria revelar.
- Ento - Sua voz era cheia de pouco caso. - Parece que voc tambm no mudou tanto assim. Ns ainda combinamos tanto quanto antes.
- V embora, Ryan - ela gritou. - Deixe-me sozinha!
Ele inclinou a cabea, com um sorriso levantando-lhe o canto da boca apesar de seus olhos continuarem frios, e virou-lhe a costa, comeando a caminhar para a estrada.
Depois de alguns passos, parou e olhou-a por cima do ombro - Voc me perguntou por quanto tempo eu ia ficar aqui. Pois bem, vai ter que se acostumar a me ver, porque
vou me estabelecer aqui. Definitivamente! - Sorriu de novo. - At qualquer hora, Liv.
Ryan desapareceu na escurido e Liv, depois de alguns momentos; fechou a porta da cozinha, trancando-a com um gesto decidido. Foi ento que passou a mo pelo rosto
e descobriu que ele estava mido de lagrimas. Zangada consigo mesma, enxugou-as rapidamente, pensando que o fato de Ryan no ter sado de sua cabea, a noite inteira,
devia ter sido uma espcie de premonio, uma espcie de telepatia mental.
Por que  que ele tinha de voltar? Ela levara anos para reorganizar a sua vida, depois que ficara sozinha, e agora tudo fora por gua abaixo! Sentindo-se emocionalmente
imprestvel, Liv cedeu a um novo acesso de choro.
- Mame, o que foi que aconteceu? - A vozinha de Luke soou bem ao lado dela com uma expresso preocupada nos olhinhos sonolentos, ele segurou-lhe a mo. - Por que
voc esta chorando? No esta se sentindo bem?
- No  nada, Luke, Eu estou bem. Verdade! - Liv enxugou o rosto no pano de pratos. - Eu... Eu... Eu no estava conseguindo dormir. Foi s isso!
- Voc pode ir dormir comigo, se quiser, mame - o garotinho ofereceu, acariciando-lhe o brao.
- Oh... Luke! - Liv ajoelhou-se ao lado do filho e abraou-o com forca, engolindo as lagrimas que estava preste a derramar. - Desculpe-me ter acordado voc! Quer
beber um copo de gua antes de voltar para a cama? - perguntou olhando o rostinho ansioso que a contemplava com ateno
- Quero sim. Sabe mame, eu levantei porque achei que havia outra pessoa aqui com voc. Eu ouvi uma voz diferente.
Liv estendeu-lhe um copo com gua.
- Foi mesmo?
- Foi.  Acho que estou ficando louco. - Luke esvaziou o copo e colocou-o em cima da pia indo em seguida atrs da me que j se dirigia para o corredor.   - Tem certeza
de que j esta bem, mame? - perguntou quando a alcanou.
- Tenho sim - Liv respondeu, beijando-lhe a ponta do narizinho levemente arrebitado. - Boa noite!
O telefone acordou Liv do sono exausto em que ela havia cado, poucas horas atrs. Com um gemido virou-se e jogou as cobertas para o lado. O som estridente cessou
no momento em que saiu da cama. Melly j havia se levantado e desanimada. Liv se dirigiu para a sala de onde vinha a vozinha de Luke.
- Mame ainda est dormindo, tio Joel. Ela estava doente ontem  noite, por isso, Melly e eu vamos lhe servir o caf da manh na cama.
- Eu j acordei, Luke. - Liv passou uma das mos por entre os cabelos despenteados sentindo-se em pssimas condies.  - Joel? Liv.
- Desculpe ter acordado voc, mas  importante.  - Joel parecia perturbado. - O que foi que houve ontem  noite? Luke disse que voc no estava passando bem.
- Eu no estava doente s no conseguia dormir. O que voc quer me dizer? - Ela tentou abafar um bocejo, recusando-se a pensar em como a famlia Denison ia reagir
 volta do filho prdigo.
- Droga. Liv, eu no sei como lhe dizer - ele comeou. - Olhe, acho que  melhor eu ir at ai.
 Liv suspirou - Pode parar de se preocupar. Joel! Eu j sei.
- J sabe? Como? Quem lhe contou?
- As ms notcias tm o habito de se espalharem depressa.
- Mas ele acabou de chegar!
-Ele chegou ontem  noite - Liv disse, admirada com o nvel de entorpecimento de seu sistema nervoso.
- Ontem  noite? Como  que voc... - Joel interrompeu-se. - Quer dizer que ele lhe telefonou, depois que eu sai? Martin ainda estava a?
- no, Martin j tinha ido embora. E Ryan no telefonou, ele veio at aqui - ela explicou com facilidade, como se estivessem falando de um acontecimento corriqueiro.
- Ele foi at a?
- Ryan est hospedado na sua casa?
- No sei. Ele veio me ver aqui no escritrio. Acho que ele foi at l em casa agora, para ver D.J.  Por isso, se voc ouvir alguma coisa parecida com o som de uma
bomba atmica explodindo... - Joel tentou rir. - Liv?
- O que ?
-Sinto muito. Nunca pensei que ele pudesse aparecer assim, de repente, sem avisar ningum. Entendo como voc deve estar se sentindo, mas Ryan parece ter mudado muito.
- Ser? - Liv perguntou com cinismo.
- Parece, pelo menos, voc tambm no acha?
- Achei... No... Oh, Joel, eu no sei! - Liv comeou a sentir que a sensao de entorpecimento estava desaparecendo. - Foi um choque ver o seu irmo de novo e ele...
Bem, ele... Nenhum de ns se comportou com muita lgica, e ns dissemos coisas...  Oh. Joel, eu gostaria que Ryan no tivesse voltado!   Acho que no vou conseguir
suportar a presena dele!
- Hei, calma, Liv, no precisa ficar to arrasada. Este  um pas livre, e voc no tem que ver Ryan, se no quiser. Eu posso falar sobre isso com ele.
Liv riu, um riso curto e sem alegria.
- E voc acha que ele vai concordar?
- Para dizer a verdade, no.
- Ryan j sabe dos gmeos, tambm. Ele disse que j sabia da existncia deles ha muitos anos, mas no revelou quem lhe contou.
Houve um pequeno silncio do outro lado da linha.
- O que  que voc vai dizer as crianas?
- Isso foi uma das coisas que no me deixaram dormir. No sei o que vou lhes dizer! Ryan me garantiu que vai ficar por aqui durante algum tempo, e na certa vai haver
falatrio. Eu no gostaria que os gmeos ficassem sabendo de tudo por outra pessoa, que no eu. - Ela abaixou a voz. - Oh, Joel! Eu estava certa de que Ryan j fazia
parte do passado, mas me enganei. Parece que certas passagens da vida da gente nunca morrem, no e? Esto sempre nos perseguindo...
- Calma.  Liv - Joel disse com simpatia.  - no fique assim. Observe primeiro como as coisas vo se desenrolar.  Pode ser que a mudana em sua vida seja para melhor.
- No creio, engraado, voc nunca disse uma palavra contra o seu irmo! Ele no merece a sua lealdade, Joel. Nem agora, nem nunca. --Um riso amargo saiu de sua
garganta. - Mas eu tambm no posso falar muito, posso? Ryan s tinha que olhar para mim, para mim... - Sua voz perdeu-se num soluo.
- Liv, pelo amor de Deus, no fique assim!
- Desculpe, Joel, parece que eu criei  o habito de chorar no seu ombro.  No sei como voc consegue me agentar! Devia me dar um puxo de orelha e me dizer para
crescer. Voc  muito bom, e eu acabo tirando vantagem disso.
- Pode ficar sossegada, que quando eu me cansar de ouvir as suas queixas, eu lhe direi. Olhe, o trabalho que eu tenho a fazer pode esperar at segunda-feira. Vou
passar por a e pegar vocs para irmos assistir ao jogo de futebol de Luke. Assim, vamos descarregar um pouco de nossas tenses gritando para incentivar o time dele.
- Isso est me parecendo uma atitude um tanto covarde, mas concordo.
- Eu posso no estar sempre certo, mas dificilmente erro - Joel garantiu rindo. - Vejo voc daqui a quarenta minutos.

CAPITULO III

Joel abriu a porta de seu carro para Liv e os gmeos descerem e Liv olhou para a casa dos Denison com o mesmo respeito temeroso que sentira ao entrar nela pela primeira
vez, oito anos atrs. Construda numa coluna com vista para uma praia particular, a casa era realmente maravilhosa, e podia ser descrita como um enorme chal, rodeado
por um extenso deck. Seu telhado bem inclinado era interrompido aqui e ali por janelas altas; a parte da frente era totalmente envidraada, de modo que o oceano
Pacfico e as outras ilhas do arquiplago podiam ser vistas de dentro da casa, em todo o seu esplendor. Nunca houve ningum que pudesse entrar naquela sala e ficar
imune a grandeza do panorama. E Liv ficava praticamente embasbacada cada vez que entrava ali.
D.J. Denison havia realmente caprichado ao fazer a casa!
Todo sbado  noite, Liv levava as crianas para jantar com o av. DJ. Podia ser um impiedoso homem de negcios, mas amava realmente os netos e queria sempre t-los
por perto. Quando eles nasceram ele tinha insistido com Liv para que os trs se mudassem para l, mas ela preferiu continuar no bangal, com o prprio pai. Na poca,
no queria ter nada a ver com os Denison, pois sua magoa ainda era muito recente. Mas o amor que D.J. demonstrava pelos netos tornou impossvel um afastamento definitivo,
e Liv acabou aceitando um relacionamento mais intimo com ele e Joel.
Quando o pai de Liv morreu, trs anos depois, D.J. insistiu novamente para que eles se mudassem para a sua casa, mas ela recusara com firmeza. No entanto, no se
passava um sbado sem que ele repetisse a proposta. Geralmente Joel socorria a cunhada, mudando o assunto da conversa, pois entendia o desejo dela de ser independente.
Naquela noite, Liv sentia-se um pouco receosa, quase como se estivesse com um mau pressentimento. Assim que entrou no carro, perguntou a Joel se Ryan estaria presente
ao jantar, e ele negou. Mas mesmo Joel parecia ter perdido o seu costumeiro bom humor naquela noite, e foi em silncio que eles percorreram a pequena distancia que
separava o bangal da casa de D.J.
Thomas abriu a porta para eles com o sorriso de sempre, e os gmeos correram na frente para cumprimentar o av. Liv entregou ao mordomo os casaquinhos das crianas
e tirou o dela. Os olhos de Joel, cheios de admirao, voltaram-se para a cunhada.
Ela estava com um vestido simples, azul-escuro, feito de um tecido que modelava de forma provocante a sua figura bem-feita, deixando descobertos os ombros queimados
de sol. As sandlias de saltos altos acentuavam a esbelteza de suas longas pernas, dando-lhe um ar extremamente elegante. Os espessos cabelos negros estavam presos
num coque baixo, e seus olhos azuis brilhavam no rosto bonito, parecendo refletir a cor do vestido que ela usava.
- D.J. sabe que Ryan voltou? - Liv perguntou ao cunhado. - Ryan veio ver o pai, hoje de manha?
DJ. Sabe de tudo o que acontece nesta cidade! - Joel suspirou, sentindo-se ligeiramente infeliz. - Eu pensei que Ryan viesse at aqui, mas, parece que ele s telefonou.
Mas no fao a menor idia do que ele e meu pai conversaram.
- Como  que D J. recebeu a notcia?
- Para minha surpresa, com muita calma. Segundo Thomas, ele no gritou, nem ficou possesso da vida. Eu brinquei com D.J. a esse respeito - Joel riu -, mas ele apenas
me deu uma olhada e foi para o escritrio trabalhar. Ficou a tarde inteira, sem conversar com ningum. - Ele colocou uma das mos no ombro da cunhada, fazendo-a
parar. - E voc, Liv? Est bem, agora? - perguntou, observando-a com ateno.
Liv no conseguiu disfarar a expresso de dor que passou por seu rosto e Joel balanou a cabea com simpatia.
Ryan ainda significa muito para voc, no e? - ele perguntou baixinho.
- Oh, Joel, eu no quero que as crianas sejam magoadas e sou capaz de fazer qualquer coisa para protege-las. E se isso significa que terei que lutar contra Ryan,
no vou hesitar um segundo.
- Olhe, Liv, eu tenho a impresso de que ele mudou - Joel comeou, mas, nesse momento seu pai abriu a porta da sala e ele se calou.
- Olvia? Joel? O que  que vocs esto cochichando a no hall. - D.J, lanou um olhar penetrante para a nora. - Venham para c no quer preparar uns aperitivos
para ns, Joel?
Eles se sentaram nas poltronas macias e luxuosas e logo depois Joel chegou com os copos de bebidas.
- Luke estava me contando que o time dele venceu o jogo desta manh - D.J. comentou. - Eu senti no ter podido ir ver meu neto jogar.
- Foi um jogo bem disputado. - Liv tomou um gole de sua bebida, a mente ainda presa  conversa que acabara de ter com Joel, imaginando quando D.J. falaria sobre
Ryan.
Mas D.J. no fez nenhuma referenda ao filho mais velho e dali eles passaram para a sala de jantar. Todos estavam estranhamente tensos e somente a conversa das crianas
dava a reunio um ar de normalidade. Foi com alvio que eles receberam a entrada de Thomas, quando estavam no meio da refeio.
O mordomo parecia ligeiramente perturbado e, depois de fechar a porta da sala de jantar caminhou diretamente para aonde DJ. estava.
- Posso falar com o senhor em particular, Sr. Denison. - perguntou.
D.J. franziu a testa, mas antes que pudesse responder a porta se abriu de par em par e um homem parou na soleira. Durante vrios segundos ningum falou, nem mesmo
as crianas. Todos estavam de olhos fixos no homem parado na porta. Cuidadosamente, Liv colocou o garfo e a faca sobre o prato, sentindo a mente flutuar, incapaz
de pensar com lgica.
Ryan nunca lhe parecera to simptico e atraente, nem mesmo naquela tarde, muito tempo atrs, quando a salvara de seus atacantes, na volta da escola. Liv sentiu
uma vontade quase irresistvel de correr para ele e abraa-lo, mas se controlou. Esse tipo de reao pertencia ao passado, junto com o carinho que sua natureza amorosa
havia dado generosamente ao marido, e que ele tinha pisoteado, na nsia de conseguir o que queria, sem parar para pensar no mal que estava causando. E agora, Ryan
estava de volta!
Ele usava calcas jeans creme, que delineavam com perfeio suas coxas musculosas. Sua camisa de mangas curtas era da mesma cor das calas e estava desabotoada at
o meio do peito deixando a mostra uma parte da pele morena, coberta de pelos finos e dourados. O relgio de ouro, preso a um pulso forte, brilhava a luz artificial.
Seu rosto no tinha expresso alguma quando ele examinou com os olhos azuis as pessoas sentadas em volta da mesa.
Lanando um olhar preocupado para o pai, Joel levantou-se.
- Sente-se, Joel. - Com um gesto impaciente, D.J. indicou ao filho mais novo a cadeira, sem nem mesmo olha-lo. - Bem, Ryan, voc continue to original quanto antes.
Vai se juntar a nos ou vai ficar a/, em pe, a noite inteira?
Ryan fechou a porta atrs de si.
- Traga outro prato, Thomas - D.J. pediu, indicando a Ryan que ele devia se sentar ao lado de Joel, no lugar que ficava em frente a Liv.
- Eu j jantei. Obrigado Thomas - Ryan falou, pela primeira vez. - Mas tomo caf com vocs.
- Pois no, Sr. Ryan - o mordomo respondeu, retirando-se da sala.
Os gmeos observavam o recm-chegado com interesse, como se sentissem que havia alguma coisa errada. D.J. olhou para Liv e para as crianas e depois novamente para
o filho.
- O retorno do filho prdigo - disse.  - voc poderia ter nos avisado de sua vinda, em vez de nos pegar de surpresa.
- Ora, vamos, D.J. Como pode falar uma coisa dessas? Logo voc, que  o mestre das tticas de choque? - Ryan levantou uma das sobrancelhas ironicamente, antes de
se voltar para Liv. - No vai nos apresentar? - perguntou indicando as duas crianas, desafiando-a com os olhos.
Tanto Joel quando D.J. endireitara-se em suas cadeiras, enquanto Liv apertava uma mo contra a outra no colo, com fora.
- Crianas, este  o irmo de seu tio Joel, Ryan, Luke e Melanie. - Ela no tinha conscincia da expresso implorante que havia em seus olhos, quando os ergueu para
o marido.
Melly sorriu timidamente.
- Ns nunca o vimos antes.   Onde  que voc estava?  - ela perguntou.
Luke olhava solenemente para Ryan. Liv quase podia ver a mente do garoto analisando aquele estranho, tentando resolver um problema que ele no sabia qual era, mas
sabia que existia.
- Eu estava trabalhando fora - Ryan respondeu.     Na Nova Zelndia e nas ilhas Fiji.
- Ns sabemos onde fica a Nova Zelndia, no sabemos, Luke? A professora nos mostrou no mapa, porque na nossa classe tem um menino novo, que veio de l - Melly contou.
- As ilhas Fiji ficam ao norte da Nova Zelndia e a oeste daqui - Ryan disse.
- Voc parece ter se sado muito bem! - D.J. comentou.
- No posso me queixar.
Eles mal tinham voltado para a sala de estar, depois de acabarem de jantar, quando D.J. foi chamado ao telefone. Joel lanou um olhar especulativo para Liv e, antes
que ela pudesse adivinhar as suas intenes, ele j havia sado da sala, levando as crianas para brincarem com o seu antigo trem eltrico, que tinha sido remontado
para elas.
Liv caminhou at a parede de vidro que dava para o oceano, uma das mos brincando nervosamente com a corrente que usava no pescoo. Instintivamente, soube quando
Ryan cruzou silenciosamente o tapete felpudo, at parar atrs dela. Com o sangue latejando nos ouvidos, ouviu-o dizer baixinho, num tom de voz que parecia sincero:
- Eu nunca consegui esquecer esta vista, o modo como o luar se reflete na areia e nas guas!
- A vista daqui  mesmo maravilhosa. - Liv tentou parecer calma e indiferente, dizendo a si mesma para trat-lo como se fosse um conhecido qualquer. Seus olhos voltaram-se
para a praia. Ela poderia ter apontado o lugar exato em que os dois tinham feito amor sobre a areia, naquela noite, muito tempo atrs.   Incapaz de desviar o olhar
continuou imvel, hipnotizada, o corpo ardendo de vergonha e desejo.
- Mas  claro que ns dois temos motivos para nos lembrar desta vista, no , Liv?

A voz dele chegou at ela como mel, macia como seda lquida, envolvendo-a e prendendo-a. Liv virou-se para o marido, mas se arrependeu na mesma hora, pois estava
perto demais de seu corpo musculo e poderoso.
-Eu prefiro esquecer essa passagem da minha vida, Ryan, e considero de extremo mau gosto, de sua parte, falar sobre isso - disse, tentando parecer fria e indiferente.
Ele riu suavemente.
-E voc consegue esquecer, Liv? - Ryan deslizou um dedo pelo brao da esposa, do ombro ao pulso, fazendo-a se arrepiar. - Eu no esqueci. Ainda me lembro de tudo
com perfeio.
- uma surpresa, para mim, saber que voc estava sbrio o bastante para se lembrar de alguma coisa - ela comentou com menosprezo.
Nesse momento a porta se abriu e D.J. entrou. O maxilar tenso de Ryan mostrava a raiva que ele estava sentindo, mas, quando se virou para o pai, seu rosto no revelava
nenhuma emoo. Era como se uma mscara tivesse cado sobre as suas feies. Da em diante eles conversaram educadamente sobre vrios assuntos sem importncia, e
no fim Liv j se sentia a ponto de gritar.
-Acho melhor eu ir para casa - ela disse, num intervalo da conversa. -J passou da hora de as crianas dormirem. Vou chamar os dois e Joel.
Liv se levantou e D.J. e Ryan a imitaram.
-J esta na hora de eu ir embora, tambm - Ryan comentou perfeitamente  vontade. - Eu levo vocs para casa, Liv.
-No  preciso Joel sempre me leva. - Ela caminhou para a porta, sentindo que precisava escapar dali.
-No ha necessidade de Joel tirar o carro dele da garagem novamente, quando o meu est parado ai na porta. - Ryan olhou para a esposa com firmeza.
-Onde  que voc est hospedado, Ryan? - D.J. interrompeu. - voc pode voltar para c, se quiser - acrescentou, surpreendendo at a nora com esse oferecimento.
-Obrigado, D.J., mas estou bem, por enquanto.
D.J. voltou um olhar interrogativo para a nora, fazendo-a corar. Na certa ele no estava pensando que Ryan se hospedara em seu bangal!
- Por que voc no vai nos levar para casa como sempre, tio Joel? - Luke perguntou, olhando com inexplicvel antipatia para o Mercedes prateado de Ryan.
Liv corou ao ver os maus modos do filho, embora concordasse de todo o corao com ele.
- O Sr. Deni...   Ryan se ofereceu para nos levar - falou, enquanto Joel olhava para o irmo com uma expresso mista de simpatia e embarao.
Mas Ryan, sem demonstrar nada nem fazer qualquer comentrio, abriu a porta do carro e Melly entrou. Ajustou o cinto de segurana dela, afastando-se depois um pouco,
para que Luke entrasse tambm. O garoto lanou-lhe um olhar cheio de antipatia, antes de se sentar no banco e ajustar rapidamente o cinto de segurana, rejeitando
assim a ajuda de Ryan. Sem um olhar na direo do marido, Liv sentou-se no banco da frente. O curto trajeto foi feito em absoluto silncio, e ela estava com os nervos
 flor da pele quando chegaram ao bangal.
- Obrigado pela carona - Luke disse, num tom de voz bem grosseiro.
Ryan levantou uma das sobrancelhas.
- Vou levar vocs at l dentro. Preciso conversar com a sua me. Ser que posso?
O olhar firme dele deixou Luke indeciso. Mas o menino logo se recuperou e deu de ombros, caminhando para casa.
Dizendo a Ryan para esperar na sala Liv entrou com as crianas para vestir-lhes os pijamas e escovar-lhes os dentes. Os olhos de Melly j estavam fechando, quando
ela se deitou.
- Boa noite mame. Como o irmo do tio Joel  simptico! Ele  to bonito!
Liv fechou a porta do quarto que partilhava com a filha, pensando com ironia que Ryan no tinha perdido a atrao que exercia sobre as mulheres; foi ao quarto do
filho. Ele estava deitado, tenso e de cara fechada.
- Sobre o que ele quer conversar com voc, mame? Voc sabe que no precisa conversar com ele, se no quiser, no sabe?
- Mas por que eu haveria de no querer conversar com ele? - perguntou, inclinando-se para beij-lo. - Pare de se preocupar e durma, querido.
- Eu no gosto dele.
- Mas, Luke... -Liv comeou.
- Bem, eu no gosto. E se voc precisar de ajuda e s me chamar - o menino disse com firmeza e seu rostinho assumiu uma leve semelhana com o do pai, apesar de ele
ter as feies e a colorao da me.
Liv abraou-o com fora.
__ Est bem, eu chamo voc, se precisar. Mas tudo vai correr bem pode dormir descansado, meu anjo.
__ Boa noite, mame - Luke disse com relutncia.
A luz da cozinha estava acesa, e Ryan acabava de passar um caf quando Liv se juntou a ele.
- Sem vacilar, certo? - ele disse, sem olha-la. - Est vendo, eu ainda me lembro de muitas coisas.
- Ryan, eu estou ficando cansada desse jogo. No sei por que voc esta brincando de gato e rato comigo, mas no quero que as crianas saiam feridas disso. - Olhou-o
friamente atravs da mesa, maravilhada com o controle que estava exercendo sobre si mesma.
- Eu entendo esse seu sentimento - Ryan comentou, sentando-se a mesa e indicando-lhe a cadeira em frente com um gesto, o fato de ele estar sendo to razovel pegou-a
de surpresa e Liv se sentou, automaticamente. Perplexa, tomou um gole do caf. Aquela docilidade no era caracterstica de Ryan e ela no sabia como enfrenta-la.
Ele bebeu o caf em silncio, examinando a cozinha toda antes de encara-la novamente.
- Os gmeos so duas crianas formidveis! Voc os educou muito bem.
- Obrigada. - Liv no conseguiu retirar totalmente o sarcasmo de sua voz e percebeu que isso o atingira quando viu os lbios msculos se apertarem numa linha dura.
No momento em que Ryan se levantou e lavou a xcara que havia usado. Liv sentiu uma onda de alivio. Finalmente ele ia embora! Mas no foi isso o que aconteceu; apoiando
as mos nas costas da cadeira em que estivera sentado ele a encarou com firmeza.
- Antes, voc no lanava mo de armas como o sarcasmo, mas acho que mereo o que me disse. Eu a deixei sozinha para enfrentar tudo e todos; mas na poca eu tinha
as minhas razes para ir embora.
Virando-lhe a costa, Ryan flexionou os msculos dos ombros e enfiou as mos nos bolsos de trs das calcas. Esse movimento fez o tecido de sua camisa se esticar acentuando
seus braos musculosos.
- Eu gostaria de tentar corrigir o meu erro, Liv.
Ela se levantou abruptamente, a mente tomada por pensamentos desencontrados sacudida por uma enorme quantidade de emoes: zanga, insegurana, medo... Precisava
conservar a calma.
- Ns temos nos sado muito bem. Ryan. No precisamos de nada.
Ele virou-se num gesto brusco, o corpo tenso, no rosto a imagem da raiva.
- Mas que droga, Liv! - Um musculo contraia-se convulsivamente em seu maxilar. - Eu no estava falando de dinheiro. Sei muito bem que voc no tocou num centavo
do que eu lhe mandei atravs do banco voc  teimosa como... - Ele se interrompeu, enchendo os pulmes de ar. - O que estou dizendo e que quero voc comigo, vocs
trs. Eu gostaria de poder compensar os oito anos em que os deixei sozinhos.
Por um momento Liv sentiu vontade de aceitar o oferecimento, mas foi so por um momento. Logo a magoa da rejeio que sofrera tomou conta de si, junto com uma onda
de raiva.
- Compensar os oito anos em que ficamos sozinhos? Corrigir o seu erro? Para que? - Liv quase cuspiu as palavras. - Oh, seu... Seu... Sujeitinho arrogante, egosta,
convencido...  Voc acha mesmo que ns precisamos de voc?
-- Liv, pelo amor de Deus, pense sobre o que eu lhe falei, mas de um modo lgico. - Ryan deu a volta na mesa, parando na frente da esposa. - Eu no sou um pobreto.
Posso dar as crianas o tipo de vida que elas devem ter, bons colgios...
Ele colocou uma das mos sobre o brao de Liv, mas ela a retirou com um tapa.
- Tire as suas mos de cima de mim! Os meus filhos so crianas felizes, bem cuidadas e amadas. E eu posso lhes dar tudo o que elas precisam.
- At mesmo um pai?
Os olhos dele exigiam uma resposta e, pela sua expresso, Liv percebeu que era s com muito esforo que Ryan controlava a zanga.
- At mesmo um pai - repetiu. Ento acrescentou, querendo feri-lo tanto quanto ele a havia ferido: - Martin Wilson me pediu em casamento e pode ser que eu aceite
a proposta dele. Portanto, como voc pode ver, Ryan, no tinha necessidade de voc fazer um esforo to grande e voltar. A sua vinda foi completamente intil.
- Foi mesmo?    - ele perguntou num tom de voz baixo, perigosamente calmo. - No se esquea de que voc ainda  uma mulher casada. Liv.  E no pode se casar com
mais ningum, a no ser que pretenda cometer bigamia.
- Caso voc no se lembre, neste pas existe o divrcio - ela rebateu. - E voc esteve fora tempo suficiente para eu pedi-lo, alegando abandono do lar.
Ryan pousou as mos de leve sobre os braos da esposa.
- S que tem uma coisinha, Sra. Denison. Eu no quero o divorcio, principalmente agora, que vi o que estava perdendo. Ns temos muito tempo a recuperar.   - Ele
levantou a cabea num gesto cheio de arrogncia. - voc  minha, Liv, e o que  meu, eu conservo. E agora, estou pegando voc de volta, voc e os gmeos.
- Esta nos pegando de volta? - Ela afastou as mos dele, com raiva, - Voc no pode pegar de volta o que nunca foi seu - declarou, caminhando para o hall. - Vejo
voc outro dia, Ryan. No temos mais nada para nos dizer.
- Uma droga que no temos! - Agarrando Liv, Ryan puxou-a para si, no deixando que escapasse, apesar dos esforos que ela fazia nesse sentido.
- Solte-me, Ryan!    - Liv pediu baixinho, depois de alguns momentos consciente do fato de que as crianas estavam ali perto. Luke j havia percebido o antagonismo
entre eles, e caso se levantasse e os visse daquele jeito...
Ryan sorriu com crueldade, movendo o corpo contra o de Liv que sentiu a chama do desejo despertando em seu intimo.
- Seu corpo me diz que voc no esta falando srio, Liv - murmurou com voz rouca, pressionando as coxas contras as dela, os lbios encostados a orelha rosada, o
que provocava arrepios de desejo em Liv.
Insinuando uma das pernas entre as dela, exercendo uma presso excitante, Ryan deslizou a mo at os cabelos de Liv e soltou-os.
- No os prenda de novo.   Eu gosto deles soltos, para poder acaricia-los assim - sussurrou, trazendo um punhado dos cabelos negros at o rosto e inalando o seu
perfume. - Eu nunca me esqueci do cheiro dos seus cabelos. E, depois de oito anos, ele continua o mesmo.
Liv teve que se esforar para ouvir as palavras dele, e de uma coisa ficou certa: Ryan no estava percebendo o que dizia.
Com ambas as mos, ele segurou-lhe a cabea e com uma paixo que incendiou a ambos, os lbios sensuais tomaram posse dos dela. Sua boca se entreabriu com docilidade
correspondendo a caricia. Sem pensar no que fazia, Liv deslizou uma das mos por baixo da camisa do marido, para sentir a pele firme e quente. Quando seus dedos
se moveram por entre os cabelos crespos e curtos que cobriam o peito forte e viril o sangue latejou-lhe nos ouvidos e ela se sentiu completamente atordoada.
Com uma ansiedade igual  dela, Ryan segurou-lhe um dos seios firmes e arredondados, acariciando com o polegar o mamilo trgido de excitao. Os dois estavam perdidos
num mar de paixo!
O barulho da ala fina de seu  vestido se arrebentando trouxe Liv repentinamente de volta  realidade.
- Ryan! - Ela empurrou-o com forca, afastando-se um pouquinho. Fisicamente, ele estava to excitado quanto ela, Liv percebeu. Podia sentir isso no modo como os msculos
do corpo de Ryan estavam tensos, e teve que lutar contra si mesma para no esquecer tudo e deixar-se afundar naquele mar de desejo, a procura da satisfao total
que ele podia lhe dar. Muito tempo atrs, ela havia cedido a esse desejo, quase arruinando a sua propria vida, alm da dele. - Ryan, solte-me, por favor. E melhor
voc ir embora. Eu quero ir para a cama.
- Eu tambm - ele replicou com voz acariciante. - Com voc. Meu Deus, que vontade eu tenho de fazer amor com voc! - Puxou-a de encontro ao peito de novo, acariciando-lhe
o rosto com os lbios. -- Hum! Voc tem um cheiro delicioso! E um gosto delicioso! Voc  inteirinha deliciosa. Qual  o seu quarto?    -
- Ryan, eu no vou dormir com voc,. Eu no quero - Liv disse com firmeza, embora no conseguisse controlar os arrepios de prazer que percorriam o seu corpo.
Ryan riu baixinho, de encontro  garganta perfumada.
- Mentirosa! Voc me desejaquanto eu a desejo. Oito anos  muito tempo... Tempo demais, na verdade! - Segurando a maaneta da porta do quarto que Liv partilhava
com Melly, ele perguntou:
 - E esse o seu quarto?
- Eu divido esse quarto com Melly, Ryan - ela disse baixinho, Ento, percebendo a hesitao dele, continuou: - E imagino que nem mesmo voc queira correr o risco
de ela acordar num momento... Inoportuno.
Durante alguns segundos, um silncio pesado os envolveu.
- Sua vagabunda! - Ryan murmurou asperamente, enterrando os dedos nos braos dela antes de empurra-la para longe. A expresso em seus olhos era to raivosa que Liv
quase se encolheu de medo, Ryan caminhou para a porta de entrada. - No se esquea do que eu lhe disse, Liv, voc  minha. Sempre foi e pretendo que continue sendo.
As palavras foram pronunciadas de modo suave e distinto, e muito tempo depois de ele ter ido embora Liv ainda tinha a impresso de ouvi-las ressoando no hall.
O dia amanheceu claro e brilhante, j mostrando uma parte do calor que viria mais tarde; e pela primeira vez em sua vida, Liv amaldioou o sol. Que ele pudesse brilhar
daquele jeito, quando ela se sentia to deprimida era uma coisa que mal podia suportar!
Como um autmato, levada por uma fora que fazia seu corpo funcionar mesmo quando a mente parece ter parado de reagir, ela preparou o caf da manh.
Pouco depois todos se sentaram a mesa. Passando gelia no po, Melly tagarelava alegremente, enquanto Luke comia sem vontade os seus flocos de milhos.
- Como voc est mole esta manh, Luke - a menina comentou. - Estou quilmetros na sua frente.
- Eu no estou apostando nenhuma corrida - Luke replicou com maus modos, olhando para a irm, de cara fechada.
- Mas que cara resmungo voc ! - Melly virou-se para a me. - Luke levantou de mau humor, hoje.
- Oh, cale a boca. Melly! Por que as meninas tm que ser sempre to chatas?
- Eu no sou chata! - Melly estava ofendida.
Luke olhou-a com cara de poucos amigos, e j ia responder quando a me interferiu.
- Vamos, vocs dois! Parem com isso. Beba o seu leite, Luke.
~- Eu no estou com fome, mame.  - Sem olhar para Liv ele empurrou o copo para o lado.
- Voc est se sentindo mal?
- Estou...  No.  Eu estou bem, mame.  - Relutante levantou os olhos para a me. - O tio Joel tem mais de um irmo? - perguntou de repente, quando Liv j se virava
para tirar uma torrada da torradeira.
Ela estacou, sabendo que no podia mentir to abertamente para o filho, mas sem vontade de lhe dizer a verdade. As palavras que havia trocado com Ryan, na noite
anterior, ainda estavam muito vivas em sua memria para poder falar calmamente com os gmeos a respeito dele, Meu Deus. O que devia fazer?
- Ele tem, Mame? - Luke insistiu. Enquanto Melly os observava, confusa com a pergunta do irmo.
Liv limpou a garganta.
- No, ele no tem - respondeu e aparentemente calma. Comeou a passar manteiga na torrada, consciente dos dois pares de olhos fixos nela. Os de Melly, profundamente
azuis e inocentes, e os de Luke, bem mais claros. Mas j com uma expresso quase adulta.
Uma expresso adulta, aos sete anos de idade? Liv refletiu. No, no podia ser. Ela estava vendo mais do que existia, na realidade. Devia ser a sua conscincia culpada.
- Ele  to bonito, no  mesmo? Mais bonito que o tio Joel -Melly disse. Mas, como se sentisse que estava sendo desleal para com o tio, acrescentou rapidamente:
- Eu gosto muito do tio Joel. Ele  um amor.
O telefone tocou naquele momento e Liv levantou-se de um salto para atende-lo. Nunca, antes, uma interrupo lhe dera tanto alvio.
- Bom dia, Olvia - Martin cumprimentou quando ela atendeu com um ofegante oi.
- Oi, Martin. Como vai? Levantou cedo, hoje, hein?
- J faz um bom tempo que estou de p. - O tom de sua voz parecia dizer que ficar na cama depois do dia nascer no era uma coisa saudvel. -- At j dei uma corrida
pelo parque.
- Puxa! - Liv exclamou para dizer alguma coisa.
- Voc est livre esta tarde? Se estiver, no quer ir dar uma volta por a de carro? Voc e as crianas, naturalmente.
De repente, Liv percebeu que o que queria era ficar longe do bangal, para evitar qualquer chance de se encontrar com Ryan. E talvez um passeio adiasse as perguntas
de Luke por algumas horas, dando-lhe tempo para preparar as respostas. Porque ele ia voltar a carga, no havia a menor duvida.
- Eu gostaria muito. Acha que poderamos parar em alguma praia por a, para fazermos um piquenique?
- Um piquenique? Mas que tima idia!  Eu no participo de um desde que era um garotinho.  - Martin parecia entusiasmado com a sugesto. - As crianas vo gostar.
Eu passo para pegar vocs mais ou menos as onze e mela. Est bem?
- Est, sim. Vou ter bastante tempo para preparar o lanche. At as onze e mela, ento.
Liv voltou para a cozinha, para contar as crianas sobre o piquenique. Melly ficou alegre quando soube que Martin ia junto, mas Luke foi um pouco mais reticente.
Seus olhinhos preveniam a me de que ele no ia se esquecer da pergunta que queria fazer.
Liv estava terminando de acondicionar o frango e a salada que havia preparado numa caixa de isopor, quando Martin chegou. As crianas j estavam de mai por baixo
dos shorts e camisetas, e olharam a roupa que Martin usava - calcas, camisas, sapatos e melas - com um certo divertimento.
Ser que ele nunca consegue ficar mais  vontade?   Liv pensou, percebendo o olhar dos filhos.
- Voc conhece algum lugar bom para a gente ir?  - Martin perguntou, quando entraram no carro.
- Conheo, sim.  Ha uma prainha muito limpa e bonita, no muito longe daqui. As crianas e eu sempre vamos at l. De todas  a de que mais gostamos.
- Ento, v me dizendo por onde devo ir - ele falou, sorrindo para Liv.
Depois do almoo, as crianas foram catar conchinhas na beirada da gua enquanto Liv e Martin descansavam sobre as esteiras que haviam estendido, debaixo de uma
palmeira. Sentindo-se quase relaxada, Liv apanhou um punhado de areia e deixou-a escorrer por entre os dedos, vagarosamente.
Os olhos de Martin percorreram o quadro atraente que ela compunha, deitada ao lado dele, o moreno das pernas longas e bem-feitas acentuado pelo short branco os seios
bonitos delineados com perfeio pela camiseta vermelha.
- Voc pensou na proposta que eu lhe fiz? - ele perguntou baixinho sem ver necessidade para demoras, agora que havia tornado uma deciso.
Durante alguns segundos, Liv lutou para se lembrar de que proposta ele estava falando e foi com uma sensao de culpa que levantou os olhos para encara-lo.
- No, no pensei, Martin - respondeu finalmente. - No tenho um momento livre desde sexta-feira.  E no posso tomar uma deciso dessas sem refletir bem antes.
- , acho que no, Olvia, eu... - Ele segurou-lhe a mo. - Eu estou apressando voc no estou? Mas  que depois que a gente decide uma coisa no tem sentido adia-la.
Voc precisa de um marido, Olvia. E eu sei que poderia...
- Martin, por favor, no vamos falar disso, esta tarde. Vamos apenas aproveitar o dia, sem pensar em nada srio.
Liv tentou livrar a mo da dele e Martin apertou-a com mais fora durante alguns momentos antes de solt-la.
- Est bem, mas voc sabe que eu no vou desistir, no sabe? - ele disse com firmeza.
Os dois ficaram sentados em silncio por vrios minutos, contemplando as crianas, e foi Martin quem finalmente o quebrou:
- Voc passou uma noite agradvel ontem, na casa de seu sogro?
- Passei, sim. - Liv sentiu-se contente por estar de culos escuros assim a expresso de seus olhos no podia ser vista. Agradvel? Deus do cu! Devastadora, arrasante,
eram palavras que descreviam melhor a noite anterior.  Ela sabia que aquela era uma boa oportunidade para falar para Martin sobre a volta de Ryan, mas no conseguiu.
No estava disposto responder a milhares de perguntas, nem a dar explicaes, por isso evitou qualquer meno ao assunto.
E, afinal, o que poderia dizer? Sabe, Martin, aconteceu uma coisa muito engraada: meu marido resolveu voltar para c. Foi uma reunio familiar e tanto! Passamos
o tempo todo relembrando os velhos tempos.
Sentindo que se no afastasse esses pensamentos da cabea acabaria ficando louca, Liv levantou-se de um salto, assustando Martin.
- Voc trouxe o seu mai?
- Trouxe, sim. Est no carro. - Martin tambm ficou em p.
- Ento, o que acha de entrarmos na gua agora que j fizemos digesto?
- Se voc, quiser.  Vou ter que me trocar no carro. - Relutante Martin comeou a caminhar para o carro.
- Eu j vou para a gua.
Retirando rapidamente o short e a camiseta, ela correu para a gua Martin chegou logo depois e Liv se viu involuntariamente comparando corpo magro dele com outro,
alto, musculoso e rijo, e to dolorosamente familiar... To familiar, que ela seria capaz de descreve-lo sem o menor erro, mesmo agora, depois de oito anos.
Com raiva de si mesma, virou-se e mergulhou nas guas azuis desejando que um certo garoto de doze anos no a tivesse socorrido, tanto tempo atrs.
J era quase noite fechada quando eles voltaram para casa. A tarde tinha sido muito gostosa e at mesmo Luke havia recuperado o bom humor. O ar livre fez bem aos
trs, que dormiram a noite inteira, a sono solto.
Nenhum comentrio foi feito a respeito de Ryan Denison e, contrariando as expectativas de Liv, ele no foi at o bangal, nem telefonou.
Na verdade ela s foi ouvir falar a respeito dele quase uma semana depois.

Captulo IV

Todas as quintas e sextas-feiras, Liv costumava ir at a lojinha de souvenires, onde havia exposto os seus trabalhos pela primeira vez, para dar uma mozinha ao
dono. Maria Costello pegava os gmeos na escola e os levava para a sua propria casa e Liv passava para apanha-los, na volta do trabalho.
Naquela sexta-feira, ela estava acabando de arrumar uma prateleira quando Joel entrou. Desde sbado que ele no aparecia no bangal, apesar de ter o costume de visitar
a cunhada e os sobrinhos pelo menos duas vezes por semana.
- Oi! - ele cumprimentou.
- Oi, Joel. Onde foi que voc andou, a semana inteira?
- D.J. me mandou at Brisbane. E eu s voltei esta manha.
- Ah! Mas essa viagem no estava nos seus planos, estava?
Ele concordou que no, sentando numa das banquetas espalhadas pela loja. Depois, explicou:
- D.J. ainda esta tentando saber para quem a Sra. Craven vendeu as propriedades.  Cristo, Liv, eu no agento mais!  - Joel balanou a cabea, exasperado. - Fiquei
at contente de no ter descoberto nada, apesar de isso ter colocado D.J. contra mim.
Liv sorriu.  Ela bem podia imaginar o estado em que o sogro se encontrava.
- Talvez D.J, tenha achado algum capaz de lhe fazer frente nos negcios. E pode deixar que a Sra. Craven vai espalhar o nome da pessoa que comprou as suas propriedades
aos quatro ventos, assim que a venda estiver regularizada.
Joel lanou-lhe um olhar estranho.
- Voc no parece estar ligando muito para o fato de ela ter vendido a ilha. No tem medo de que acabem com a natureza l, para construir um enorme complexo industrial?
-- No  isso, Joel. Eu s acho que as duas propriedades eram da Sra. Craven. E ela tinha o direito de fazer com elas o que quisesse. Alm disso, a Sra. Craven sempre
foi uma grande defensora da ecologia e no consigo imaginar uma mulher inteligente como ela sendo enganada por uma dessas companhias.
- A minha opinio tambm  essa. D.J. vai ter que se acalmar e tentar ter pacincia... Uma proeza quase impossvel para ele. Mas chega de falar nisso. E voc? Como
vai?
- Imagino que voc esteja querendo saber como vo as coisas entre Ryan e eu. Certo?
- Certo.
- Bem, eu no o vejo desde sbado  noite, e pouco me importo se nunca mais o vir - ela disse numa voz totalmente inexpressiva.
- Mas. Liv, voc precisa lhe dar uma chance... - Joel comeou.
- Uma chance? Como  que voc pode dizer uma coisa dessas depois de tudo o que ele fez a mim, a voc e a D.J.? - Liv perguntou, indignada.
- O que foi que ele fez, Liv? Nada, a no ser querer viver a vida dele do modo que considerava mais certo. Ryan e diferente de mim, Liv. Ele sempre soube exatamente
o que desejava, mesmo quando ainda no passava de uma criana. Eu posso me adaptar, me curvar de acordo com o vento, mas Ryan no. Para ele,  tudo ou nada. No
existe meio-termo. Acho que ele saiu a D.J. E por isso que os dois no combinam. - Joel fez uma pequena pausa, depois perguntou: - Ryan lhe contou alguma coisa sobre
os planos dele, quando levou voc e as crianas para casa, no sbado?
- Ns conversamos um pouco se e que se pode chamar aquilo de con versa.
-Acho que ele gostaria de ter voc de volta -- Joel comentou baixinho.
- Oh, Joel,  tarde demais! Voc no v? Tudo o que eu sentia por Ryan... Bem... O que eu sentia por ele morreu ha oito anos.
- Tem certeza. Liv? Tem certeza absoluta? Eu penso que voc devia dar uma chance ao meu irmo. Se no por voc, ento pelos gmeos.
- Isso e chantagem emocional - Liv disse baixinho balanando a cabea. - No. Joel, eu no conseguiria passar por tudo aquilo de novo Eu... - Ela se interrompeu
para atender a um fregus que havia entrado, voltando para junto do cunhado quando ficaram sozinhos de novo.
- Entre vocs dois, eu me sinto entre a cruz e a espada - Joel comentou. - No posso tomar nenhum partido, pois gosto dos dois.
-- Como  que voc pode ser to... To... Pelo amor de Deus, Joel, eu sempre achei que voc seria a ltima pessoa a defender Ryan e a receb-lo de braos abertos.
Ele nunca ligou para os seus sentimentos, tambm. Ele  do tipo que toma aquilo que quer, sem parar para pensar no mal que pode estar causando a outras pessoas!
Voc precisa enxergar isso.
__ Uma pessoa s toma aquilo que as outras permitem que ela pegue. E de qualquer modo, Ryan nunca tomou nada de mim que tivesse sido realmente meu desde o inicio.
- Ele a encarou com firmeza ento e ela foi a primeira a desviar os olhos.
Joel se levantou da banqueta onde estava sentado. Havia uma estranha expresso em seu rosto. Ser que achava que tinha falado demais? Ele e Liv nunca tocavam em
assuntos pessoais, apesar de em todos os outros aspectos serem muitssimos amigos.
- Bem, , melhor eu ir embora. -- Ele deu uma olhada para o relgio. - Voc vai fechar a loja daqui a pouco, no vai?
- Vou. E depois vou buscar os gmeos.
- Esta bem. Vejo vocs mais tarde. Diga oi, por mim, aos dois terrores. - Joel j ia saindo quando se virou e perguntou, de repente: - Antes que eu me esquea, Ryan
no lhe disse onde est hospedado, disse?
- No. Mas pensei que ele estivesse no hotel, j que no est na sua casa.
- No, ele no esta l - Ele franziu a testa. -- Bem, qualquer hora eu me encontro com ele. Tchau, Liv.
Liv fechou a loja e foi para a casa dos Costello. Ela e Maria se conheciam desde os tempos de escola, mas s tinham se tornado amigas quando seus filhos comearam
a freqentar a mesma escola. Dino, o filho de Maria, era o melhor amigo de Luke.
Maria estava sentada nos degraus da cozinha, descascando ervilhas para o jantar enquanto vigiava os gmeos, Dino e sua filhinha Sophy, que brincavam no quintal.
- Como est tudo, Maria? Sophy sarou do resfriado?   - Liv perguntou.  Ela havia entrado pelo portozinho lateral, sem apertar a campainha.
- Sarou, Sra. Seria uma pena se ela ainda estivesse doente amanh, no dia do aniversario dela. Sophy ficou to excitada com a idia de convidar vocs trs para almoarem
aqui, amanh, que nem sei se vai conseguir dormir direito, esta noite - Maria contou, sorrindo.
- Ser um prazer vir comemorar o aniversrio dela com vocs. Se chegarmos as onze e mela est bom para voc?
Liv sorriu ao ver a filhinha da amiga entrar correndo na cozinha, atrs dos gmeos que tinham ido buscar suas maletas escolares.
- Est timo! E difcil acreditar que ela vai fazer cinco anos amanh. Parece que foi ontem mesmo que ela nasceu.
- , o tempo passa depressa demais - Liv concordou. - Obrigada por tomar conta dos gmeos. At amanh.
No dia seguinte, as onze e meia, eles estavam na casa dos Costello, e assim que uma excitada Sophy acabou de abrir seus presentes. O marido de Maria, Mike, levou
as crianas para o quintal. Liv e Maria foram para a cozinha acabar de preparar o almoo, mas Liv logo percebeu que alguma coisa estava aborrecendo a amiga.
- Voc esta preocupada. Maria. O que houve.
- Eu nem sei como lhe dizer isso, Liv - Maria comeou, o rosto espelhando preocupao. - Francamente os homens s vezes no pensam para fazer as coisas. Tive vontade
de esganar Mike quando ele me contou o que tinha feito.
- Pobre Mike! O que foi que ele fez? - Liv perguntou sorrindo.
- Bem, Liv, eu no sei como voc vai reagir... Eu nem sei se voc j sabe... - Ela fez uma ligeira pausa depois continuou: - Bem. Liv  sobre Ryan. - Vendo o sorriso
sumir do rosto da amiga, Maria disse rapidamente: - Desculpe, mas eu no posso deixar de lhe contar que seu marido esta de volta.
- Est tudo bem.  Eu j sabia.  Ele foi me ver - Liv disse.  As palavras de Maria tinham feito com que a imagem de Ryan, que ela havia conseguido afastar de sua
cabea a custa de muito esforo voltasse.
- Eu estava to preocupada com o fato de ter que lhe dar a notcia. No queria lhe causar um choque. - Sua voz era cheia de alivio. - Voc deve saber que Ryan e
Mike eram muitos amigos antes de seu marido ir embora, no sabe?
Liv sabia, e aquela amizade tinha sido motivo de muita briga entre Ryan e o pai. Mike era capito de um dos barcos de D.J. que, como era um homem muito consciente
da diferena de classes sociais no aceitava o fato de o filho ser amigo de um de seus empregados.
- Sei; sim -respondeu.
- Pois ento. Mike encontrou-o ontem no cais e convidou-o para vir almoar conosco hoje.  E...  Liv, eu no gostaria que voc se sentisse embaraada nem que fosse
pega de surpresa com a chegada dele.
- No precisa se preocupar, Maria, eu j me acostumei com a idia de que ele est na cidade. Ryan e Mike eram realmente grandes amigos e  natural que seu marido
o tenha convidado para vir  casa de vocs.
- Mas, e os gmeos?
Eles j se encontraram com Ryan, na casa de D.J.  Eu... Eu no contei as crianas sobre Ryan e eu...
Nesse momento, Mike entrou na cozinha e Liv parou de falar. - Voc j contou a Liv?- ele perguntou bruscamente, tentando esconder o embarao.   Quando a esposa respondeu
que sim, deu a impresso de estar bem mais aliviado. - Desculpe, Liv, mas eu no pensei. Fiquei to surpreso e contente de ver Ryan, que no raciocinei.
- Se voc no quiser se encontrar com o seu marido, Liv, Mike pode pedir a ele para vir outro dia.
- No, no, Maria. No  preciso - Liv negou, louca de vontade de dizer a Mike para fazer isso. - No ha nenhuma razo para ns no nos comportarmos de uma maneira
civilizada - acrescentou, sentindo uma vontade enorme de rir ao ouvir suas prprias palavras.
- timo! - Mike deu um tapinha no traseiro da esposa. - Voc, se lembrou de colocar aquelas cervejas na geladeira, amor?
- E alguma vez eu j me esqueci? - Maria perguntou, fingindo-se de zangada.
- No, at hoje, no. - Ele sorriu para ela, antes de se virar para Liv. - Eu no sei como faria, se a cerveja no tivesse sido inventada. - Seu rosto assumiu ento
uma expresso sria e ele falou abruptamente: - No existe nenhuma chance de voc, e Ryan voltarem a viver juntos?
Liv ficou plida, mas corou logo em seguida.
- Mike! - Maria lanou um olhar embaraado para a amiga. - Desculpe, Liv. No ligue para ele. Pelo amor de Deus, Mike, voc  to sutil quanto um trem descarrilando!
E melhor ir l para fora, tomar conta das crianas, agora. - Ela empurrou o marido para o quintal e recomeou a pedir desculpas a Liv.
Ryan chegou dez minutos depois, em seu Mercedes prateado. A essa altura, Liv j estava com os nervos a flor da pele e acolheu quase com alivio o momento to temido
da chegada do marido.
Mike, como todo pai orgulhoso, empurrou os filhos para frente e apresentou-os a Ryan, que ergueu Sophy nos braos e estalou um beijo na bochechinha dela, enquanto
Maria ria, um pouco embaraada.
Liv observou a cena toda tensa, esperando pelo momento em que ele teria que tomar conhecimento de sua presena. Ento Ryan virou-se para ela, Seus olhos a examinaram
de alto a baixo, sem perder um nico detalhe.
- Liv - Ele sorriu, e sua voz grave fez com que arrepios de excitao percorressem a espinha dela. - Como vai?
- Bem, obrigada - ela respondeu cerimoniosamente, consciente da entrada de Luke, que olhava para o pai com firmeza.
- Oi! - Melly, que havia entrado logo depois do irmo, sorriu para Ryan sem nenhum trao de sua habitual timidez.
Liv prendeu a respirao ao ver a semelhana entre os dois. Apesar de Ryan ser um homem feito e Melly apenas uma garotinha eles tinham o mesmo modo de sorrir, de
virar a cabea e de falar.
- Oi, Melly, - Sorrindo, Ryan virou-se para o filho. - Oi, Luke.
- Oi - Luke respondeu, com cara de poucos amigos.
- Que tal uma cerveja, companheiro? - Mike sugeriu, caminhando at a geladeira e voltando com duas latas geladas nas mos. -- Vamos nos sentar l fora, enquanto
as mulheres acabam de fazer o almoo.
Com o rosto completamente inexpressivo, Liv observou o marido sair para o quintal, ao lado de Mike. Ele era uns dez centmetros mais alto que o amigo, e os jeans
pretos realavam seu corpo rijo e bem-feito, enquanto o tom azul-claro da camisa que usava tornava seus cabelos mais claros ainda.
Melly, Sophy e Dino seguiram os homens, mas Luke ficou para trs.
- Voc no vem? - Dino perguntou.
- V, Luke. - Liv deu um empurrozinho no filho. - O almoo ainda vai demorar um pouco para ficar pronto. - Ela mordeu o lbio ao ver o modo relutante com que o
menino a obedecia.
- Quando  que voc vai lhes contar, Liv? - Maria perguntou baixinho.
- No sei, Maria. No sei mesmo. - Durante alguns momentos, Liv concentrou toda a sua ateno na salada que estava preparando. - Estou preocupada com Luke. Mesmo
sem saber quem  Ryan, ele j se ressente dele. - Ela suspirou. - Bem, ressentir,  uma palavra forte demais. Na verdade, acho que ele percebeu a hostilidade entre
Ryan e eu, e, como no entende o que est acontecendo, age assim. Mas eu vou ter que lhes contar logo antes que outra pessoa o faa.
Maria concordou.
- Como  que voc acha que eles vo reagir.
- No sei. Ns j conversamos sobre o pai deles antes, e eles sabem que estamos separados.   Por isso, tenho a esperana de que os dois aceitem o fato de que Ryan
 seu pai, sem criar muitos problemas. Sei que estou sendo covarde, adiando tanto o momento de lhes dizer tudo. Como eu gostaria que ele no tivesse voltado. Maria
- ela confessou, quase com desespero. - Ns amos indo to bem sozinhos, e agora a nossa vida parece estar de ponta-cabea! No consigo entender por que foi que
Ryan voltou!
- No consegue mesmo, Liv? - Maria perguntou baixinho. - H oito anos, eu costumava pensar que Ryan considerava voc a coisa mais importante daquela vida louca que
D.J. o obrigava a levar. Talvez ele tenha voltado para ver voc de novo e as crianas.
- Isso  uma piada! - seu sorriso era a imagem do cinismo. - Se ele se importasse pelo menos um pouquinho conosco, no levaria oito anos para descobrir isso se no
pensasse sempre nele em primeiro lugar, Ryan no teria nos abandonado.
Maria abriu a boca para replicar, mas fechou-a de novo, com uma expresso embaraada no rosto, pois Ryan acabava de entrar na cozinha,
- Mike me pediu para vir buscar mais cerveja -- ele disse, sorrindo e olhando para Maria.
Ser que Ryan ouvira a conversa delas? Liv teve certeza que sim, quando ele se virou e ela surpreendeu um brilho zangado nos olhos frios, de um azul profundo. Pois
bem, isso pouco lhe importava. Ryan estava cansado de saber como ela se sentia a respeito dele, e bem merecia ouvir umas verdades.
O almoo comemorativo do aniversrio de Sophy correu sem incidentes. Liv conseguiu manter uma aparncia calma, fingindo que o marido no estava presente e evitando
olhar para o lado dele. Ningum, olhando-a, seria capaz de adivinhar o caos emocional em que se encontrava.
Quando queria, Ryan era capaz at de encantar serpentes com o seu charme, e pelo visto no havia perdido esse dom. Em pouco tempo, ele j tinha todas as crianas
rindo das histrias que contava sobre a sua vida em Fiji.   At mesmo o relutante Luke ouvia com um interesse que no conseguia esconder. S Liv mantinha-se distante,
sem fazer nenhuma -pergunta, embora seu crebro estivesse armazenando cada palavra que o marido dizia. Ela no sabia que ele tinha estado em Fiji, e, se Joel ficara
sabendo, no deixara escapar nada.
- Ryan quanto tempo voc tem o Midnigth Blue? - Mike perguntou.
- Quem ou o que  o Midnigth Blue? - Maria quis saber.
-  o iate de Ryan - Mike explicou. -- Eu no lhe contei?  o iate azul, de catorze metros, que est ancorado na entrada da baa.
Surpresa, Liv levantou os olhos para Ryan. Ser que ele tinha meios para ser dono de um iate daquele tamanho? Ou apenas fazia parte da tripulao? No era de admirar
que Joel no tivesse conseguido encontrar o irmo. Ele devia estar vivendo a bordo.
- Eu mandei construir o Midnight Blue no ano passado e naveguei com ele at aqui, desde Sidnei... - Ryan estava dizendo, olhando para Mike. - E por falar nisso,
espero que voc saia nele comigo, qualquer dia desses, Mike. Apesar de eu achar que conheo esta regio como a palma da minha mo, j faz oito anos que estou fora
e gostaria de dar uma volta com voc por a.
- Claro Ryan. Vou adorar tomar o leme daquela beleza. - Seus olhos escuros brilhavam de entusiasmo. - Quando  que voc quer ir?
- Quando for melhor para voc. E leve Maria e as crianas junto. Mike olhou para a esposa.
- Bem, eu estou de folga neste fim de semana e segunda tambm.
- Ento, acha que podemos ir amanh? Podamos sair antes do almoo e voltar na segunda-feira  tarde - Ryan sugeriu.
- Por mim est tudo bem. O que  que voc acha, amor?
- Acho que vai ser gostoso - Maria respondeu, sorrindo para ambos.
- Uau! - Dino exclamou. Seus olhos escuros estavam arregalados de excitao. - Luke pode ir tambm?
- Mike e Maria se entreolharam, embaraados, mas Ryan virou-se para Liv com ar de quem est completamente  vontade.
- Eu gostaria muito que voc e os gmeos fossem junto conosco - convidou, com o rosto completamente inexpressivo.
- Eu no sei... - Liv comeou.
- Oh, mame, vamos! - Melly pediu, para surpresa da me.  - Aposto que vai ser uma delcia e voc sabe quanto Luke e eu gostamos de sair de barco.
Liv olhou para o filho. O rostinho dele era a imagem da indeciso. Por um lado ele sentia que precisava manter aquele estranho a distancia, embora no soubesse o
motivo; por outro, estava morrendo de vontade de navegar naquele barco, que devia ser enorme. O de tio Joel j era grande, e tinha s dez metros! Imagine o daquele
homem, ento!
- Eu gostaria de ir tambm, mame - ele disse, vencido pela curiosidade.
- Est combinado! - Mike exclamou, esfregando uma mo na outra. - Mal posso esperar para botar os ps naquela beleza. A que horas voc quer que a gente esteja no
cais?
- Vou checar as mars, depois lhe digo. Mas acho que vamos ter que sair bem cedo mais ou menos as sete e mela.
- timo! Eu pego Liv e os gmeos. - Mike estava to excitado quanto uma criana.
-- H lugar para todos ns no seu barco? - Liv perguntou, olhando para o segundo boto da camisa do marido. - Afinal, ns somos sete, alm de voc.
- E dois tripulantes - Ryan completou. - Mas h muito lugar. E eu sempre durmo no convs - acrescentou. - No se esqueam de trazer os mais. E se uma de vocs puder
levar uns dois cobertores, vai ser bom. s vezes esfria muito,  noite.
- E comida? No  preciso? - Maria perguntou. - Eu posso assar alguns frangos, agora  tarde.
- No se preocupe com isso. Comida  o que no falta, a bordo. E se faltar, os garotos podem muito bem pescar uns peixes para ns. - Ryan sorriu para Dino e Luke.
Estava tudo acenado!
Liv e Maria foram ento para a cozinha, lavar os pratos, enquanto os homens se sentavam na sala conversando e bebendo caf.
- Ele mudou, no , Liv? - Maria comentou, depois de trabalharem em silncio por alguns minutos.   - Est mais...   Amadurecido.   Ryan sempre foi seguro de si,
mas agora est mais humano... No sei se voc est me entendendo...  Quando eu o conheci, antes de Mike e eu nos casarmos, no gostei muito dele. Ryan era to arrogante
e cnico, e estava sempre caoando de tudo, como se o mundo inteiro o aborrecesse. Agora, est muito diferente!
- Talvez ele tenha aprendido que consegue melhores resultados na vida se gastar um pouco de seu charme - Liv disse secamente.
- Voc acha mesmo que  isso, Liv? Bem, uma coisa no podemos deixar de reconhecer; ele est mais charmoso do que nunca. -- Maria lavou o ltimo prato e, vendo que
a amiga no dizia nada, voltou-se para ela. - Desculpe, eu no devia estar falando sobre ele assim. Acho que  duro para voc... Bem,  volta dele e tudo o mais.
- Vagarosamente, ela enxugou as mos. - Voc quer mesmo sair de barco amanh? Se no quiser, podemos ficar cm casa e Mike vai sozinho.
- Ah, no!  Que bobagem, Maria!   to raro Mike poder passar alguns dias com a famlia, que eu nem pensaria em estragar o fim de semana de vocs. Alm disso, os
gmeos esto com muita vontade de ir, - Ela tentou sorrir. - Vou fazer o possvel para ficar fora do caminho de Ryan. E s quando estamos sozinhos que comeamos
a discutir - Liv explicou, sentindo o sangue invadir-lhe o rosto.
- Maria, onde  que esto aquelas velhas fotos minhas e de Ryan? Aquelas do time de futebol lembra? - A voz de Mike chegou at elas, acompanhada pelo barulho de
uma gaveta sendo remexida.
- E melhor eu ir procurar essas fotos, antes que Mike deixe todas as gavetas em completa baguna - Maria disse.  - Volto logo, para ajud-la a secar os pratos.
Distrada Liv pegou outro prato e comeou a enxug-lo vagarosamente. No que  que tinha se metido, meu Deus? Dois dias no iate com Ryan transformariam seus nervos
em frangalhos! Como gostaria de no ter concordado em ir. Teria sido a deciso mais sensata de sua vida!
E desde quando voc toma decises sensatas, quando Ryan est por perto? Perguntou a si mesma, com ironia. Alm disso, os gmeos ficariam desapontados se dissesse
que no iam mais. Sozinhos, ela no os deixaria ir. E se explicasse... No! Luke provavelmente ia gostar do passeio, e talvez o amor que ele e o pai sentiam pelo
mar acabasse por aproxim-los. No que ela quisesse que o menino se afeioasse a Ryan. Oh, Deus, mas que confuso! Em que situao fora se meter!
- Voc j enxugou o mesmo prato trs vezes. - A voz profunda soou bem atrs de Liv, fazendo com que ela voltasse abruptamente  realidade. - Se continuar assim,
vai gastar a loua.
Liv colocou o prato em cima da mesa e pegou outro.
- Pelo amor de Deus, Liv - ele disse baixinho. - Voc podia pelo menos olhar para mim, dar algum sinal de que sabe que estou aqui! Voc me ignorou completamente,
a tarde inteira.
Ela levantou os olhos para o marido.
- E voc no est satisfeito com isso? - Seu rosto era inexpressivo, e a voz, fria.
- No, no estou. - Ryan deu um passo para frente e Liv passou para o outro lado da mesa. -- Voc est me provocando demais! Se continuar assim, no me responsabilizo
pelos meus atos.
Ela continuou a observ-lo friamente, apesar de o corao lhe bater na garganta.
- E por acaso voc j se responsabilizou por eles alguma vez? - perguntou, soltando o prato com estrpito em cima da mesa. - Olhe, Ryan, ns dois somos convidados
na casa de Mike e Maria, e eu no gostaria de brigar com voc aqui e deix-los aborrecidos. Por isso, eu lhe agradeceria se voltasse para a sala - ela terminou com
nfase.
- Como quiser, Sra. Denison - Ryan disse com sarcasmo, fazendo uma mesura zombeteira.   - Mas eu gostaria muito que voc no discutisse o nosso... Relacionamento
com Maria, ou com qualquer outra pessoa - acrescentou com insolncia.
Ento, ele tinha mesmo ouvido a conversa com Maria, antes do almoo!
- Eu e Maria no discutimos nada que no seja do conhecimento da cidade inteira. - Liv sorriu com malcia, antes de continuar: - Foi uma pena voc ter perdido a
onda de boatos que correu a cidade, depois de sua partida.  Voc no se esqueceu de quanto gostava de dar motivo para falatrios, esqueceu, Ryan?  Voc conservava
todos os habitantes da regio  espera dos detalhes da sua ltima traquinagem, e a nossa aventura forneceu a eles assunto para muitas conversas, apesar de nossos
pais fazerem o possvel para sufocar a coisa toda.   - Ela sentiu novamente toda a mgoa e humilhao que sofrera naquela poca, e levada pelo rancor acrescentou:
- No posso deixar de reconhecer que aquele foi o seu melhor papel, Ryan. Digno de um Oscar!
- Sua... - Ryan comeou a dar a volta na mesa, os olhos brilhando de raiva.
- Ryan - Maria chamou, entrando na cozinha naquele exato momento - Mike est esperando por voc, para olharem as fotografias.
Ryan parou ao ouvir o som da voz de Maria; fascinada Liv observou-o forar os msculos tensos a relaxarem.
-  melhor eu ir para l, ento. No h nada como olhar velhas fotos, para fazer a gente rir - ele disse com ar despreocupado, saindo da cozinha.
O olhar de Maria voltou-se para o rosto corado da amiga.
- Nossa! O que foi que fez Ryan ficar to zangado? Liv encolheu os ombros.
- Eu.

CAPTULO V

Na manh seguinte, Liv entrou no carro dos Costello sentindo uma espcie de resignao. No caminho at o cais, as crianas conversaram o tempo todo, excitadas, mas
o adultos no disseram uma palavra, perdidos em seus prprios pensamentos.
Para Liv, o dia anterior no tinha mesmo sido dos mais agradveis. Depois do almoo na casa dos Costello, que a deixara emocionalmente em frangalhos, ela teve que
agentar as perguntas de Martin sobre por que no queria ir dar uma volta com ele no dia seguinte.
Quando respondeu que j havia combinado um passeio, ele quis saber onde, como e com quem ela ia. Irritada Liv acabara respondendo apenas que ia sair de barco com
os Costello, o que levara Martin a perguntar, na mesma hora, desde quando os Costello tinham um barco. Ela sabia que aquele era o momento para falar sobre Ryan,
mas dissera s que o iate em que iam sair pertencia a um amigo de Mike, e agora se desprezava por isso.
Como sempre, na noite anterior Joel havia ido busc-los para jantar com D.J. Ryan no apareceu e nem foi mencionado, at quase a hora de voltarem para casa. Surpreendentemente,
foi Luke quem citou o nome dele, ao contar para o av sobre o passeio que iam dar. DJ. no fez nenhum comentrio a respeito, mas lanou um olhar longo e penetrante
na direo da nora.
Durante a noite toda Liv tinha virado e revirado na cama, sem conseguir dormir, atormentada por lembranas do passado, e agora ali estava ela prestes a passar dois
dias inteiros com Ryan. No entanto, essa era a ltima coisa que devia fazer, pois sabia muito bem o quanto era fcil, para o marido, dobr-la  sua vontade.
O carro parou em frente ao cais e o olhar de Liv caiu sobre o iate de linhas graciosas, que balanava ao sabor das ondas. Ela precisou de toda a sua coragem para
descer e pegar suas coisas e as dos gmeos. De repente, estava se sentindo muito vulnervel, como se toda a sua capacidade de se defender tivesse desaparecido.
Mike j estava voltando do estacionamento para onde tinha levado o carro, quando trs pessoas apareceram no convs do iate. Usando apenas um short desbotado de brim,
com o peito bronzeado brilhando  luz do sol e os cabelos despenteados pela brisa que soprava, Ryan causou em Liv o mesmo efeito que causara muitos anos atrs, naquela
festa em que havia exigido o beijo que lhe prometera. Por alguns momentos continuou completamente imvel, observando-o, sentindo a dor dentro de seu peito se intensificar
at tornar-se quase insuportvel.
Por quanto tempo ela teria continuado ali daquele modo, Liv no sabia, mas o gesto que Luke fez, para pular do cais para o convs do iate, tirou-a de sua imobilidade.
Agarrando-o pelo brao, ela teve que se controlar para no repreend-lo, descarregando no menino suas tenses.
Foi Ryan quem falou em primeiro lugar:
- Calma Luke. Daqui a pouco a prancha de embarque j estar colocada e voc poder subir.
Um jovem fijiano apareceu ento e, pulando com segurana do barco para o cais, em poucos segundos prendeu a prancha.
Do outro lado do convs, uma garota usando nada mais que um microscpico biquni observava-os, encostada despreocupadamente  amurada. Seu corpo era belssimo, com
todas as curvas nos lugares certos, e sua pele era cor de caf com leite, um pouquinho mais clara que a do rapaz, que estava agora recolhendo a prancha.
Ryan estendeu a mo e pegou a maleta que Liv carregava.
- Vou mostrar onde vocs vo dormir - disse. - Mas antes quero que conheam a minha tripulao. Alesi e Roko Sukuna.
Feitas s apresentaes, eles seguiram Ryan at a cabine principal, que estava mobiliada com bastante luxo em tons de azul o que combinava com o nome do iate: Midnight
Blue.
- Muito bonito companheiro.    Muito bonito mesmo - Mike comentou.
Alm daquela cabine, o barco tinha ainda uma pequena cozinha, duas cabines que funcionavam como quartos de dormir, e uma pequena alcova com um beliche.
- Voc e Maria podem ficar com a cabine da frente, que tem quatro leitos. Mike, Liv e os gmeos ficam com a da popa e Alesi pode dormir na alcova. -- Ryan disse.
- Eu quase nunca durmo aqui embaixo - Alesi comentou, sorrindo intimamente para Ryan. - Geralmente com Ryan e Roko.
Liv percebeu o rpido olhar que Maria lhe lanou, ao ouvir isso, e mais do que depressa se virou para o outro lado. Se Ryan queria se consolar com a jovem fijiana,
ela no tinha nada com isso. Afinal, estava cansada de saber que ele no era nenhum monge, ignorando a dorzinha aguda que sentia no corao.
- Cuidado com o degrau.
A voz de Ryan soou bem atrs dela e afastando-se para o lado. Liv deixou-o passar e seguiu-o at a cabine da popa, que estava mobiliada com mais luxo ainda que a
cabine principal. Ela continha duas camas, enormes, sobre as quais os gmeos logo comearam a pular, e um banheiro privativo, com um chuveiro e o vaso sanitrio,
alm de uma pequena pia.
Liv virou-se para pegar a maleta e os cobertores das mos de Ryan e deu com ele observando-a, mais perto do que esperava. Que ele estava consciente da corrente eltrica
que os uniu naquele momento era fcil de ver na expresso de seus profundos olhos azuis, Rapidamente. Liv afastou-se para o outro lado da cabine.
- Voc e Melly podem ficar com essas camas, e Luke com a cama superior, no beliche da alcova - ele disse, com voz inexpressiva.
- Obrigada, mas Melly pode dormir comigo, para Luke ficar com a outra cama. No h necessidade de desalojar ningum por nossa causa - Liv replicou, no mesmo tom.
- Vocs no esto desalojando ningum. Alesi raramente usa a cama dela. Ela prefere dormir sob as estrelas.
--No duvido Liv comentou secamente, antes que pudesse se comer, Ryan contemplou-a durante alguns segundos, antes de se virar para sair.
- Subam logo que puderem para o convs, para eu colocar os salva-vidas nas crianas antes de partirmos - foi tudo o que ele disse.
- Puxa, mame! O barco dele  lindo, no acha? - Melly estava passando a mozinha pela colcha azul que cobria a cama e afundando os dedinhos do p no tapete felpudo.
- Parece mais coisa de mulher - Luke comentou com desprezo, - Ns no vamos poder ficar aqui com nossos mais molhados.
Liv lanou-lhe um olhar de censura e ele sorriu animadoramente.
- Est tudo bem, mame. Ele deve ser bem rico, no? O tio Joel  rico, pelo menos,  o que dizem as outras crianas da escola, e esse barco  bem maior que o dele!
- Venham, vamos para o convs - Liv disse, pondo um fim quela conversa,
As quatro crianas logo estavam de salva-vidas e Ryan as avisou para no correrem pelo convs, pois poderiam cair ao mar. Explicou-lhes, tambm, que teriam que ficar
presos ao barco por uma corda de nilon, se o mar se tornasse bravo.
O iate saiu do porto tocado por um potente motor, mas assim que entraram em alto-mar ele foi desligado e as velas iadas. Logo uma brisa forte comeou a soprar e
eles deslizaram livremente por cima das guas azuis, embalados pelo rangido gostoso da madeira e do cordame do barco.
Esticando as pernas nuas para melhor receber os raios de sol, Liv suspirou, feliz por ter ido. Ela estava com um short escuro e uma camiseta larga por cima do biquni,
e havia prendido os cabelos num rabo-de-cavalo. Maria estava sentada a seu lado, com Sophy no colo.
-As meninas esto se divertindo - ela disse, sorrindo alegremente. - E os meninos tambm.
Liv virou-se para o leme, onde Ryan e Mike estavam ensinando a Luke e Dino as noes como dirigir um barco. Logo depois Roko os substituiu e os dois desceram, para
examinar algumas cartas de navegao.
Alesi sentou-se em frente  Maria e Liv, seus olhos escuros passando enigmaticamente de uma para a outra.
- Eu no pensei que a Austrlia pudesse ser to bonita quanto s ilhas Fiji, onde eu vivo, mas este lugar chega bem perto!
A garota sorriu, e Liv teve que admitir que ela era mesmo muito atraente.
- Esta parte da Austrlia  realmente linda - Maria respondeu, - Eu me sinto feliz por Mike no ter querido mudar daqui, depois que nos casamos. Tantos rapazes fazem
isso!
- Como Ryan - Alesi comentou. - Faz tempo que voc e Mike esto casados?
- Oito anos! Sabe, eu me sinto uma velha, quando penso no tempo em que estou casada - Maria replicou, rindo.
A garota riu junto com ela, e depois se virou para Liv.
- E voc? E Liv o seu nome, no ? Nunca conheci uma Liv antes.
-  o apelido de Olvia - Liv explicou, procurando na mente outro assunto, para mudar rapidamente o rumo da conversa.
 Ah, Olvia! Muito bonito! E voc tambm deve estar casada a tanto tempo quanto Maria, pois seus garotinhos so da mesma idade, no so? - Alesi perguntou. E continuou,
ao receber uma resposta afirmativa: - O seu marido tambm trabalha no mar?
- No - Liv respondeu. Obviamente Ryan no tinha contado aos dois amigos sobre ela e os gmeos - Meu marido e eu estamos separados - disse apenas, evitando o olhar
de Maria e sentindo-se decididamente covarde.
- Ah, que pena! - O olhar que a garota dirigiu a Liv era penetrante, quase calculista. - Voc e Maria so amigas?
- Somos. H muitos anos.
-- Ns todos ramos amigos, antes de Ryan ir embora - Maria disse, indo em socorro de Liv.
Os olhos de Alesi Sukuna voltaram-se novamente para Liv que sorriu abertamente, desejando ter coragem suficiente para assegurar  outra que no significava nenhuma
ameaa a qualquer relacionamento que ela pudesse ter com Ryan.
- Mame, posso ir tomar um copo de gua? Estou morrendo de sede. Achando a interrupo de Melly mais do que oportuna. Liv levantou-se e, tomando a mo da filha,
caminhou com ela para a cabine principal.
Mike e Ryan levantaram os olhos das cartas de navegao que estudavam quando as duas entraram.
- Eu s vim pegar um copo de gua para Melly - ela explicou.
-Tem algumas garrafas de refrigerante na geladeira da cozinha - Ryan informou, voltando novamente a ateno para as cartas.
Olhando sua cabea loira, Liv teve uma viso do marido abraando carinhosamente a garota fijiana, e a dor que sentiu no corao pegou-a completamente de surpresa.
No  possvel, no posso estar com cimes! Pensou, observando a filha beber o refrigerante. No depois de todo esse tempo! Com o canto do olho, ela ps-se a observar
Ryan disfaradamente.
Seus olhos percorreram a linha firme do queixo coberto de plos, os cabelos encaracolados, os clios escuros e a musculatura cios ombros nus, que se movia harmoniosamente,
enquanto ele esfregava distraidamente os plos do peito bronzeado com uma das mos.
Os olhos de Liv estavam pregados nele. Ela se sentia incapaz de desvi-los, e de repente um formigamento estranho comeou a se espalhar por todo seu corpo.
Como se sentisse que estava sendo observado, Ryan levantou a cabea e seus profundos olhos azuis encontraram-se com os dela.   Naquele momento, o presente desapareceu
e eles eram novamente duas crianas andando de bicicleta, uma com olhos de expresso atrevida e bastante amadurecida para sua idade, a outra com ar de adorao.
Ento, seus olhos estavam se encontrando atravs de uma pista de dana e eles se aproximavam cada vez mais um do outro, at se unirem num beijo.
Eles eram de novo duas pessoas correndo pela areia, nadando na gua azul-esverdeada, passeando lentamente de mos dadas, trocando um olhar emocionante durante um
jantar ntimo, s para dois. E eram novamente dois corpos nus, com o luar brilhando em suas peles molhadas pelos borrifos das ondas, deitados lado a lado na areia
branca, presos num abrao, sem se preocupar com a passagem do tempo ou com as conseqncias de seus atos.
Oh, Deus, por que  que tudo tinha acabado de um modo to desastroso? Liv apertou as mos com tanta fora que os ns de seus dedos ficaram brancos. Ela sentiu os
olhos se inundarem de lgrimas que ameaavam escorrer-lhe pelas faces a qualquer momento, e naquele exato segundo teve a impresso de ver a mesma angustia espelhada
nos olhos de Ryan.
- Mame!
Vagarosamente, como se estivesse saindo de um sonho, Liv tomou conscincia da mo de Melly em seu brao.
- Mame, j terminei.
Com esforo. Liv desviou os olhos dos de Ryan e virou-se para lavar o copo que a filha tinha usado, Ryan abaixou novamente a cabea e, quando ela passou por ele,
na sada, no a levantou. No convs, Liv tentou pr alguma ordem em suas emoes alteradas, mas perdeu-se em seus pensamentos e quando deu por si a ilha Craven j
havia aparecido no horizonte e Ryan e Mike estavam de volta ao leme do iate.
A ilha Craven, como era de se esperar, tinha a aparncia de uma ilha tropical, com uma vegetao densa e viosa, e praias de areias muito brancas. Num canto, meio
escondido pela folhagem muito verde, ficava um ancoradouro de madeira.
A pessoa que havia comprado a ilha da Sra. Craven fizera um timo negcio, sem a menor sombra de dvida, pois alm de ser um lugar belssimo, fazia parte do grupo
central das ilhas Cumberland, estando protegida da fria do oceano Atlntico pelas ilhas mais externas.
Um bando de pssaros levantou vo, trocando o abrigo das rvores pela segurana do cu azul, quando o iate se aproximou de seus domnios. Roko e Ryan abaixaram as
velas com movimentos rpidos e precisos, ao mesmo tempo em que Mike ligava os motores e comandava do leme. Lentamente, o barco encostou-se ao ancoradouro protegido
externamente por tiras de borracha e Roko pulou para l, a fim de amarr-lo aos ganchos de ferro prprios para isso.
Ser que Ryan pretendia descer na ilha Craven? Ele no devia estar sabendo que a Sra. Craven no era mais a proprietria do lugar, ou, teria dado mais ateno 
tabuleta onde estavam pintadas as palavras "Proibida a Entrada".
Mas Ryan j estava no ancoradouro e Mike lhe passava as crianas, quando Liv perguntou:
- Ser que no tem importncia ns desembarcarmos aqui? Afinal, a tabuleta diz claramente que a entrada  proibida,
- No estou vendo ningum por aqui disposto a nos impedir. - Ryan sorriu, os dentes muito brancos em contraste com a pele queimada de sol. - Alm disso, a Sra. Craven
nunca achou ruim quando eu vinha at aqui, muitos anos atrs.
- Mas ela vendeu a ilha - Liv contou. -- Joel me disse. E seu pai ficou... - Ela se interrompeu, percebendo que todos olhavam para ela e que talvez a informao
que acabara de dar fosse confidenciai.
- D.J. ficou doente de raiva. - Ryan terminou por ela. - Eu bem posso imaginar!    - Virando-se, ele comeou a caminhar pelo ancoradouro. - Ns podemos nadar aqui
mesmo. No  fundo e no h perigo para as crianas. - Com arrogncia, ele passou pela tabuleta que proibia a entrada, sem nem mesmo lhe lanar um olhar.
Liv olhou para Maria, que deu de ombros e seguiu atrs de Ryan. Na praia, elas tiraram os shorts e as camisetas e entraram na gua atrs das crianas. Maria estava
com um mai inteirio, preto, mas Liv usava um biquni azul que, apesar de no ser dos mais discretos, era duas vezes maior que o de Alesi. No entanto, ela se sentiu
praticamente nua quando deu com os olhos de Ryan fixos em seu corpo.
Mais tarde, enquanto os homens e Alesi nadavam em guas mais profundas, e as crianas catavam conchinhas na areia, Liv e Maria caminharam at a ponta da prainha,
onde outra tabuleta proibindo a entrada tinha sido fixada.
- Eu gostaria de saber quem comprou a ilha - Liv comentou.
- Talvez seja algum que tirou a sorte grande - Maria brincou. - Mike disse que seu sogro quase teve um ataque, quando ficou sabendo da venda.
- No duvido!
- Sabe, esse lugar faz com que eu me lembre de uma poca muito boa da minha vida. Quando eu era mocinha, antes de Mike e eu ficarmos noivos, ns costumvamos vir
fazer festas nessa praia.    Sempre mandvamos Ryan pedir licena a Sra. Craven, pois ele parecia ser capaz de convencer qualquer pessoa a fazer suas vontades.
Liv apertou os lbios. Ela conhecia muito bem esse lado de Ryan!
- Uma vez, ele trouxe a Sra. Craven como seu par -- Maria continuou, sorrindo com saudade. - Ela devia ter uns sessenta anos na poca, e Ryan fez com que ela se
divertisse bastante. A Sra. Craven chegou at mesmo a nadar e a ajudar a preparar o churrasco. Aquela foi uma das nossas melhores festas! Acho que todos ns nos
apaixonamos pela Sra. Craven, naquele dia. Na verdade, ela no  a velha bruxa que todo mundo a considera.
- No, acho que ela s  uma pessoa extremamente franca - Liv concordou. - Comigo, a Sra. Craven sempre foi muito boa.
- Comigo tambm. Depois daquele fim de semana ela nos disse que poderamos vir para c sempre que quisssemos e deixou evidente que gostara muito de Ryan. Se bem
que naquela poca a maioria das mulheres com mais de seis anos e menos de sessenta, que moravam deste lado da Austrlia, estavam apaixonadas por ele. - Vendo a expresso
da amiga, Maria acrescentou rapidamente: -- Desculpe, Liv. Eu no devia ter dito isso.
Liv riu, um riso curto e sem alegria, antes de dizer:
- Isso aconteceu muito tempo atrs, e Ryan era bonito demais, para seu prprio bem.
- A ainda  - Maria comentou, observando Liv disfaradamente. - At mais do que antes, voc no acha?
Liv deu de ombros.
- E ele deve ter se sado muito bem na vida - Maria continuou -, para poder ter um iate como esse.  Mike disse que D. J. o deserdou, quando ele foi embora daqui.
- Ryan tinha algum dinheiro, que ele havia herdado da famlia da me - Liv contou, distrada.
- No que ser que ele trabalhou, todos esses anos? Seja l no que for, ele deve ter tido muito sucesso!
- Acho melhor ns voltarmos, Maria.   J est quase na hora do almoo.
Depois do almoo, os homens e Alesi saram para pescar numa praia vizinha, onde havia um lugar muito bom para isso. Liv e Maria no precisaram se esforar muito
para convencer as crianas a tirarem uma soneca. Elas estavam muito cansadas, por causa de todo o exerccio que tinha feito, e em pouco tempo dormiam a sono solto.
Liv, no entanto, no conseguiu dormir e deixando Maria adormecida no sof da cabine principal, recolocou o biquni e foi tomar banho de sol no convs. Depois de
se besuntar com leo bronzeador, deitou-se de costas, com os olhos fechados.
O barco movia-se levemente ao sabor das ondas, e o nico som que lhe chegava aos ouvidos era o grito ocasional de uma gaivota. Quando se cansou de ficar de costas,
Liv virou-se de bruos, desamarrando a parte de cima do biquni para poder conseguir um bronzeado uniforme. No havia ningum ali para v-la, e poderia ver os homens
chegando, bem antes deles se aproximarem do barco.
Ela apoiou a cabea nos braos e o calor do sol, acompanhado pelo gostoso balano do iate, exerceu sua magia: aos poucos suas plpebras foram se fechando e ela adormeceu.
Liv remexeu-se um pouco quando o barco balanou com mais fora, mas logo se acalmou. Foi s quando sentiu um toque leve ao longo de sua espinha, que abriu os olhos.
Piscando, olhou por cima do ombro, dando com Ryan que sorria zombeteiramente. Ela comeou a se virar, decidida a se afastar dele quando se lembrou de que  parte
de cima do biquni estava solta.
Com dedos trmulos, tentou prender novamente as tirinhas, mas elas lhe foram tomadas por duas mos fortes.
- Voc pode ficar do jeito que est, se quiser - Ryan sugeriu baixinho, antes de amarr-las.
Liv olhou para ele de cara fechada.
- Est bem, foi s uma sugesto - ele murmurou, dando um n nas tirinhas.
- O que  que voc est fazendo aqui, to cedo? - perguntou com voz spera, embora estivesse tentando falar num tom suave, para no acordar Maria e as crianas.
Ryan fez uma careta.
-- Eu vim buscar outra vara de pesca. A de Alesi est com a linha emaranhada numas algas, e  mais fcil pegar outra do que tentar desembaraar a dela, principalmente
quando os peixes esto comeando a beliscar. Ela est usando a minha vara, enquanto isso.
Liv levantou as sobrancelhas, desviando o olhar daquele corpo musculoso agachado a seu lado. Ele estava prximo demais, para sua paz de esprito, mas ela no teve
coragem de se afastar, por causa da expresso zombeteira que, tinha certeza, surgiria no rosto do marido caso fizesse isso.
-- Pois ento no deixe Alesi esperando, enquanto os peixes esto beliscando - disse, incapaz de esconder uma certa ironia.
--Posso saber o que est querendo dizer com isso? - Ryan perguntou, observando-a com ateno, o queixo tenso.
- Nada, ora! O que eu poderia estar querendo dizer? Os lbios de Ryan se abriram, num sorriso divertido.
- Voc no est com cime, est, Liv? Pensando bem, parece que seus olhos adquiriram um tom levemente esverdeado...
- Eu no tenho cime de nada, nem de ningum relacionado com voc, Ryan - ela replicou, zangada. - E quanto mais cedo voc botar isso na cabea, melhor para ns
dois.
Liv comeou a se levantar, mas Ryan foi mais rpido. Quando ela viu, suas mos j estavam presas pelas dele ao convs, uma de cada lado de seu corpo, e ele se inclinava
sobre ela ameaadoramente.
- Solte-me!    - murmurou por entre os dentes, percorrendo rapidamente, com os olhos, os plos dourados que lhe cobriam o peito, os msculos rgidos pela tenso
e os quadris estreitos, delineados pelo desbotado short de brim.
- A sua boca me diz para ir embora - Ryan disse roucamente, os olhos brilhantes como safiras -, mas os seus olhos me pedem para ficar.
E com movimentos deliberadamente vagarosos, os lbios sensuais comearam a deslizar pelo ombro dela, quente e salgado do sol e do mar. No ntimo de Liv, uma chama
surgiu e foi aumentando cada vez mais,  medida que os lbios de Ryan acariciavam-lhe a pele, indo do ombro at o lbulo de sua orelha, e depois ao longo da linha
de seu maxilar. Sua boca tremia de ansiedade, a espera do beijo dele. Naquele momento, ela seria to capaz de impedir o sol de brilhar quanto de se afastar do marido.
O beijo comeou como um castigo, uma provocao, mas at Ryan foi pego desprevenido pela paixo que tomou conta de ambos, fazendo-os se agarrarem um ao outro, o
corpo dele cobrindo quase que totalmente o dela, suas mos movendo-se ansiosamente, aflitas para acariciarem.
Ryan colocou uma perna entre as dela, e suas coxas rijas despertaram uma profunda resposta em Liv, que arqueou o corpo de encontro ao dele, completamente dominada
pela onda de paixo que os assaltara.
- Ryan...
O nome do marido escapou por entre os lbios de Liv, no momento em que a boca de Ryan deslizou at o incio de seus seios. Com um gesto suave, ele levantou-a um
pouquinho e soltou a parte de cima do biquni.
- Ryan! Isso  loucura! - Suas palavras terminaram num gemido baixo, quando ela sentiu os lbios dele fecharem-se em torno de seu mamilo trgido de desejo.
Logo depois ele levantou a cabea, com uma expresso sensual no rosto bonito, os olhos ardentes e profundamente azuis fazendo uma pergunta muda. Liv comeou a tremer
de alto a baixo, ao mesmo tempo em que sacudia a cabea de um lado para o outro.
- No, Ryan! No podemos... Maria... As crianas podem...
- V para a praia comigo. - Essas palavras foram ditas num tom baixo e profundo, gentilmente persuasivo.
Liv estava completamente sem resistncia quando Ryan se apoiou num dos cotovelos, pronto para se levantar e lev-la com ele. Foi nesse momento que uma voz chegou
at eles:
- Liv? - Maria apareceu no alto da escada que levava ao convs, mas parou abruptamente ao ver Ryan, que escondia com seu corpo o da esposa.
Horrorizada com o que quase tinha feito, com o modo como havia se abandonado s carcias de Ryan, Liv lutou para prender novamente  parte de cima de seu biquni.
O corpo de Ryan estava completamente tenso, quando ela se sentou ao lado dele.
- Estou aqui, Maria - disse ofegante, sentindo o sangue invadir suas faces.
- Oh! - Maria exclamou, analisando a cena que via.
- Liv, venha comigo! - Ryan sussurrou de modo que Maria no ouvisse, acariciando delicadamente a mo que Liv apoiava no convs.
Liv olhou para a expresso excitada do marido e sentiu seu corao se acelerar de novo. Mas com esforo conseguiu se dominar e, pondo-se em p, caminhou para onde
a amiga estava, sem nem mesmo um olhar para trs.
- Ryan j estava de sada... Ele veio... Buscar outra vara de pesca para Alesi - explicou entrecortadamenie.
- Eu estava pensando em fazer um pouco de ch. - Os olhos de Maria desviaram-se novamente do rosto agora plido de Liv para o maxilar tenso e os punhos apertados
de Ryan. -- Quer uma xcara, Ryan?
Por um segundo, ele deu a impresso de que ia ignorar a pergunta que lhe fora feita, mas, ficando em p com um movimento gil e felino, respondeu:
- No, obrigado, Maria. J vou embora. - Agarrando uma vara de pesca, Ryan pulou para o ancoradouro sem olhar na direo de Liv.
Os olhos dela seguiram-no at ele desaparecer por entre a vegetao. S ento ela foi para a cozinha do barco, atrs de Maria.
- Liv, desculpe! Eu interrompi alguma coisa? - Mana perguntou, assim que a amiga entrou.
- Claro que no! - Liv respondeu alegremente. - O ch j est pronto?
Maria observou-a durante alguns momentos, depois disse baixinho;
- Voc no precisa fingir para min, Liv. Ainda est apaixonada por ele, no est?
- Voc est completamente enganada.   Maria. Nada poderia estar mais longe da verdade do que essa sua suposio.
- ? Pois vocs dois me deram a impresso de estarem doidos de amor um pelo outro, quando os surpreendi l em cima, agora h pouco.
- Amor. - Liv virou-se para o outro lado para esconder o rosto corado. - Aquilo no era amor. Maria. No passava do mais puro e rematado desejo!
- Pois me parece muito divertido!   - a outra replicou, rindo gostosamente.
Liv soltou um suspiro exasperado, mas um sorriso relutante apareceu em seus lbios quando a amiga piscou maliciosamente para ela.
- Eu sabia que no devia ter vindo com vocs, Maria - ela disse, sentindo-se profundamente infeliz. - Eu tinha o pressentimento de que alguma coisa como essa acabaria
acontecendo. - Tremula. Liv sentou-se numa banqueta e colocou a cabea entre as mos. - Eu no tenho um segundo de paz, desde que Ryan voltou.
- Mas voc sabia que um dia ele acabaria voltando, no sabia?
- Acho que na verdade, nunca permiti a mim mesma pensar nisso. Eu gostaria...  - Ela se interrompeu e fechou os olhos com fora, tentando afastar da mente a lembrana
daqueles momentos nos braos do marido.
- Voc no acha que ainda poderia fazer seu casamento dar certo, Liv? No acha que vale a pena tentar? Afinal, vocs ainda sentem alguma coisa um pelo outro, no?
- No. Eu... Ele... O Ryan Denison pelo qual me apaixonei s existia na minha imaginao. Para mim, Ryan era uma espcie de deus, e no foi inteiramente por sua
culpa que ele no conseguiu se igualar  imagem que eu fazia dele.  Para dizer a verdade.  Ryan nem mesmo tentou...  Em primeiro lugar, ele nunca quis se casar comigo.
- Mas se casou - Maria disse.
- S porque meu pai e D.J. o obrigaram - Liv explicou com amargura.
- Ele no teria se casado com voc, se no quisesse, Liv. Cu, Ryan seria a ltima pessoa capaz de ser forada a fazer urna coisa que no quisesse! - Vendo que Liv
no ia fazer nenhum comentrio, Maria virou-se para o fogo. -- Vou preparar um pouco de ch para voc.
Durante algum tempo Liv continuou onde estava, sentindo-se totalmente deprimida, mas depois se levantou e pegou as xcaras e os talheres para pr a mesa para o ch,
na cabine principal. J havia arrumado tudo e ia voltando para a cozinha, quando tropeou na ponta de um rolo de papel, que estava debaixo da mesa. Na certa era
uma das cartas de navegao que Mike e Ryan estavam estudando pela manh.
Curiosamente, ela apanhou o rolo e abriu-o um pouco, esperando ver um traado das guas locais, mas o que viu deixou-a boquiaberta. Num canto do papel estava impresso
em letras grandes: "Ryan Denison Empreendimentos". Logo abaixo era dado um endereo em Auckland, Nova Zelndia. As linhas traadas no centro pareciam uma planta
muito detalhada de uma srie de pequenos edifcios, unidos uns aos outros de modo a formar uma espcie de condomnio.
- O que  isso? -- Maria perguntou, olhando por cima do ombro de Liv.
-- No tenho idia. - Liv debruou-se mais sobre o papel. - Achei isso debaixo da mesa. Parece ser a planta de uma cadela de pequenos chals. D uma olhada. Aqui
fica uma piscina, e aqui uma quadra de tnis. D a impresso de ser um complexo turstico... -- De repente, ela prendeu a respirao e voltou-se para a amiga. -
Voc acha que...
- Abra mais esse papel.
Segurando uma de cada lado as duas desenrolaram completamente o papel, examinando com mais cuidado o projeto.
- Eu seria capaz de jurar que esse  o traado da ilha Craven, Maria afirmou.
Remexendo nas cartas de navegao. Liv logo encontrou uma onde a ilha Craven figurava.
-  a ilha -- ela disse incrdula, comparando os dois traados. - O que  que Ryan pode estar fazendo com estas plantas? Para construir um condomnio desses na ilha
Craven ele teria que ser dono dela... - Liv se interrompeu.
- Ser possvel, Liv?
-Eu tambm no estou conseguindo acreditar! Ser que Ryan tem condies financeiras para comprar uma ilha cara como esta? E, se tem, como foi que conseguiu convencer
a Sra. Craven a vend-la? Ela sempre recusou todas as ofertas de D.J.
- Bem, como eu lhe disse hoje  tarde, Ryan sempre esteve nas boas graas da Sra. Craven - Maria comentou. - Mas se ele comprou mesmo a ilha, eu no gostaria de
estar por perto quando D.J. ficar sabendo. A menos que os dois estejam juntos nesse negcio...
-- No. Tenho certeza que D.J. no sabe nada a respeito. - Liv soltou a ponta do papel e observou-o se enrolar novamente, quase desejando no ter tropeado nele.

CAPTULO VI

Quando as crianas acordaram, Maria e Liv foram com elas para a praia, juntar gravetos para acender uma fogueira e fazer um churrasco  noite, como Ryan tinha sugerido,
Eles j estavam com uma boa pilha de galhos secos, quando os pescadores apareceram na ponta da praia, carregando uma Fieira com vrios peixes.
Assim que eles se aproximaram mais os olhos de Liv procuraram o rosto do marido, e ela corou intensamente quando viu a expresso dele. Era evidente que Ryan tambm
no tinha se esquecido das caricias que haviam trocado no convs do iate. No entanto, logo em seguida ele se abaixou para acender a fogueira, e quando levantou novamente
a cabea sua expresso ardente tinha sido substituda por outra, de extrema frieza.
Os peixes estavam deliciosos, e depois do jantar eles se acomodaram na areia ainda quente, para admirar o sol se pondo no horizonte, por cima das guas muito azuis.
Quando acabou de escurecer, Roko foi buscar seu violo e todos cantaram  luz da fogueira, at as crianas comearem a fechar os olhos de sono e Maria e Liv decidirem
lev-las para a cama.
- Volte para c, quando tiver acomodado as crianas, amor - Mike pediu, quando Maria pegou Sophy e comeou a caminhar na direo do ancoradouro.
Liv j havia se abaixado para levantar Melly, que dormia a sono solto, quando uma sombra caiu sobre ela.
- Eu levo Melly - Ryan disse, segurando a menina sem esforo. - Luke ainda est acordado o suficiente para ir andando?
- Est, sim. Vamos, Luke. - Liv colocou uma das mos no ombro do filho, para gui-lo, ao mesmo tempo em que segurava a mozinha de Dino com a outra.
Ryan esperou Liv ajeitar uma das camas, antes de colocar Melly cuidadosamente sobre ela. Depois cobriu a menina e ficou parado onde estava, admirando-a por alguns
segundos, antes de se virar para Liv, que estava preparando a outra cama para Luke.
- Luke pode dormir no beliche da alcova. No h necessidade de voc se espremer na mesma cama com Melly... Eu j lhe disse isso - ele falou baixinho, levando o sonolento
Luke para a alcova, onde o ajudou a se acomodar na cama de cima do beliche. - Se voc precisar descer durante a noite, no se esquea de que a escada fica nos ps
da cama. Vou deixar a luz do corredor acesa. Durma bem, meu filho - Ryan disse e Luke balanou a cabecinha, j quase dormindo.
- Boa noite, Luke. - Uma dorzinha aguda surgiu no corao de Liv, naquele momento, e ela virou-se abruptamente na direo da cabine principal. - Vou ficar a bordo
- ela declarou, quando Maria juntou-se a eles. - No quero que uma das crianas acorde e se sinta perdida, num lugar desconhecido.
- Eles esto dormindo pesados. No vo acordar to cedo - Ryan comentou.
- Talvez no, mas tenho medo de que eles acordem, saiam andando por a e caam do barco - Liv replicou, pois no queria voltar para a praia romanticamente banhada
pelo luar, principalmente na companhia de Ryan.
- , isso pode acontecer. Vou ficar aqui com Liv - Maria decidiu.
- Est bem, faam como quiserem - Ryan concordou.  - Vou apagar a fogueira e chamar os outros para virem conversar no convs.
- No h necessidade de vocs fazerem isso - Maria disse.
- Ora vamos, que graa teria ficarmos sentados ao lado de uma romntica fogueira sem nossas mulheres? - ele perguntou sorrindo, lanando um rpido olhar para a esposa,
antes de sair da cabine.
J era bem tarde, quando eles resolveram ir para a cama. Ningum queria pr fim quela noite maravilhosa, A brisa refrescante, o suave balano do barco e a voz gostosa
de Roko cantando, acompanhada pelo som baixo do violo, davam a todos uma sensao de irrealidade, de langor, como se estivessem numa ilha paradisaca, perdida no
meio do oceano.
Liv quase sentiu inveja da felicidade que Mike e Maria partilhavam, quando surpreendeu um olhar eloqente entre eles, l pelo fim da noite. Os dois estavam sentados
lado a lado, abraados, e os dedos de Maria acariciavam com ternura o joelho do marido.
Sentada num canto isolado, Liv tentava se convencer de que era isso mesmo que queria. No comeo, ela havia esperado tensamente que Ryan fosse lhe fazer companhia,
mas ele no tez nenhum gesto nesse sentido. Como ela, ele decidira se sentar sozinho.
Ouvindo Roko dedilhar o violo, Liv observava disfaradamente o marido. Ryan tinha um perfil quase clssico, de nariz reto, lbios sensuais e bem-feitos e queixo
firme, e s de olh-lo ela sentiu suas emoes se alterarem. Seu corao se acelerou, sua respirao tornou-se mais difcil e uma tristeza profunda a invadiu, quando
pensou no que poderia ter sido sua vida; se tudo tivesse corrido de outro modo. Ryan sempre a atrara fisicamente, mas h oito anos ela sentia uma verdadeira adorao
por ele. Mesmo agora, Ryan ainda a atingia profundamente, se bem que seus sentimentos fossem mais amadurecidos e misturados com uma estranha sensao de medo tanto
de si prpria quanto dele.
 que j era mais velha, mais amadurecida, e sabia a mgoa que Ryan era capaz de causar. Nunca mais permitiria que ele se aproximasse o suficiente para feri-la de
novo! Jurou a si mesma. Se Ryan achava que a conquistaria agora, com a mesma facilidade com que a conquistara oito anos atrs, ia ter uma grande decepo!
E o que me diz daquela ceninha no convs, h apenas algumas horas? Uma vozinha perguntou dentro de Liv. Mas no podia ser culpada pelo que acontecera, ela se defendeu.
Ryan a pegara desprevenida, pois estava dormindo, e, portanto completamente vulnervel. No aconteceria de novo. Isso podia garantir!
Mesmo depois de j estar na cama h muito tempo, com o corpo completamente exausto dos exerccios do dia. Liv no conseguia dormir.
A planta do condomnio, que vira naquela tarde, no lhe saa da cabea. Seria possvel que Ryan fosse o novo proprietrio da ilha Craven? E se fosse, como  que
ele tinha tido a coragem de fazer uma coisa dessas com o pai?
Ryan sabia muito bem que D.J. havia desenvolvido uma espcie de fanatismo pela ilha Craven, e que o fato de descobrir que o prprio filho o passara para trs seria
um rude golpe para ele. Que Ryan estivesse fazendo isso para se vingar do pai, no passou pela cabea de Liv. Ele no era desse tipo. Ou era?
De qualquer modo, se ele era realmente o novo dono da ilha, isso s serviria para afast-lo ainda mais de D.J., que parecia no suportar o filho depois do que acontecera
h oito anos.
Liv soubera, desde o comeo, que o pai de Ryan no estava satisfeito com o namoro dos dois. No que D.J. tivesse alguma coisa contra ela, pessoalmente. Era s que
ela no fazia parte dos planos que ele tinha feito para o filho mais velho. Ryan deveria se casar mais tarde, com a filha de um de seus amigos ricos, uma moa mais
culta e sofisticada, capaz de preencher seu lugar na sociedade como esposa do herdeiro de um dos homens mais poderosos do pas.
A garota de dezessete anos, filha de um pescador, sobretudo um pescador que se opunha politicamente a D.J., no servia para Ryan, O pai dela tambm pensava o mesmo,
s que por razes inversas. Para o Sr. Jansen, qualquer pessoa que nascesse em bero de ouro no era digna de confiana, muito menos se tratasse do filho de D.J.
Denison.
No dia seguinte  noite da festa em que Liv se encontrou com os irmos Denison, Ryan ligou para ela. Ele precisava ir at Mackay por causa de um negcio e queria
saber se ela no gostaria de ir junto.
Em sua mente, Liv voltou a ser novamente aquela garota de dezessete anos, colocando apressadamente um jeans desbotado e uma camiseta colorida, passando uma escova
rapidamente pelos cabelos e escrevendo um bilhete para o pai, avisando que ia passar a tarde fora. Numa verdadeira agonia, ela havia esperado durante quinze minutos
por Ryan, sem saber se deveria correr ao encontro dele quando ouvisse seu carro chegar, ou se deveria esperar que batesse na porta.
Quando ele parou o Jaguar vermelho, de capota conversvel preta, na frente de sua casa, Liv no agentou: abriu a porta e saiu. Ao v-la, um sorriso iluminou o rosto
bonito de Ryan, e foi com passadas largas e decididas que ele caminhou ao encontro dela.
Aquele havia sido um dia maravilhoso! Fosse qual fosse o negcio que Ryan tinha a tratar, ele o realizou num tempo recorde, e os dois passaram o resto da tarde passeando
e conversando, comendo sanduches e bebendo Coca-Cola, num trecho deserto de uma praia afastada.
 claro que Ryan a tinha abraado e beijado, e Liv ainda podia se lembrar do encanto daquele momento. Ele lhe mostrou que os beijos que havia trocado com rapazes
de sua idade no passavam de brincadeira de criana. Sendo inegavelmente bastante experiente ele a guiou, e o corpo jovem de Liv tinha correspondido. Para dizer
a verdade, at ela mesma ficou surpresa com a intensidade de sua resposta e assustada, havia pulado para fora do carro, agradecendo ofegante a Ryan pelo passeio.
Com um leve sorriso nos lbios, ele levantou uma das mos num gesto de despedida e, sem dizer nada, partiu a toda velocidade.
Agoniada Liv tinha pensado que nunca mais o veria depois daquela tarde, por causa de sua inexperincia. Como ele devia estar rindo de sua ingenuidade, ela se torturava.
No entanto, alguns dias mais tarde, Liv estava descendo a rua principal da cidadezinha, quando o Jaguar vermelho parou a seu lado. Sem dizer nada, Ryan se inclinou
e abriu a porta, e mais do que depressa ela se sentou junto a ele.
Foi s vrias semanas depois que o pai de Liv descobriu que a filha estava saindo com Ryan Denison. No que ela estivesse escondendo isso dele de propsito. Era
que por coincidncia, sempre que Ryan ia o busc-la estava trabalhando. E quando o Sr. Jansen finalmente descobriu com quem Liv estava saindo, pai e filha tiveram
sua primeira briga sria. Ele havia enumerado, em alto e bom som, as faltas de Ryan.
Ryan Denison era velho demais para ela, alm de ser rebelde e irresponsvel. Na certa, estava s se divertindo com ela. Todas essas idias j haviam passado pela
cabea de Liv e por causa disso ela reagiu com violncia aos conselhos do pai.
Depois dessa discusso, Liv sempre combinava de se encontrar com Ryan longe de casa, e, se ele notou a diferena, no deu a menor demonstrao. O namoro dos dois
foi se tornando cada vez mais srio e ntimo, at aquela noite fatal.
Naquela noite, eles jantaram romanticamente num restaurante, e no caminho de volta Ryan estacionou o carro no acostamento da estrada que contornava a praia, a poucos
metros do bangal. Seus encontros clandestinos deixavam Liv de conscincia pesada, e. tentando afastar da cabea a idia de que estava traindo a confiana do pai.
Ela retribuiu com fervor desesperado os beijos do namorado.
Sentindo isso, Ryan tornou-se mais ardente e possessivo, e suas mos deslizaram por baixo da camiseta dela para abrir-lhe o suti. A torrente de emoo que suas
carcias despertaram em Liv deixaram-na to chocada, que ela ficou rgida. Mas em vez de solt-la, Ryan puxou-a mais para perto, de tal modo que ela podia sentir
o quanto ele estava excitado. Ento, de repente, Liv percebeu como seria fcil para ele conseguir sua submisso total, e cheia de medo empurrou-o para longe, com
toda a fora.
Por um terrvel momento, ela chegou a pensar que Ryan fosse resistir e usar sua fora superior para subjug-la, mas abruptamente ele a soltou, voltando para seu
banco e apertando a direo do Jaguar at os ns de seus dedos ficarem brancos. Terrivelmente infeliz Liv encolheu-se de encontro  porta do carro.
- Ryan? - conseguiu dizer finalmente. - Desculpe. Ele virou-se para ela ento, o rosto plido  luz do luar.
- Eu  que devo pedir desculpas - murmurou, segurando a mo dela. - Sinto ter assustado voc. Eu perdi a cabea e por um momento me esqueci do quanto voc  jovem
e... Bem... - Soltando sua mo, ele deu a partida no Jaguar. -  melhor eu levar voc para casa.
Por uma semana, Liv no teve notcias de Ryan, e perdeu a conta do nmero de vezes que levantou o fone do gancho para cham-lo, apenas para desistir alguns segundos
mais tarde, as lgrimas escorrendo-lhe pelo rosto. Quando ele finalmente ligou para convid-la para ir a uma festa, ela quase chorou de alvio. E se Liv notou que
Ryan estava evitando ao mximo ficar sozinho com ela, nem ligou. A nica coisa que lhe importava era estar junto dele.
O convite, feito em papel caro, chegou uma semana depois. D.J. Denison tinha o prazer de convidar o Sr. Charles Jansen e sua filha Olvia para a festa comemorativa
da maioridade de seu filho mais novo Joel, etc. O pai de Liv tinha lido o convite vagarosamente, antes de jog-lo sobre a mesa.
- Responda dizendo que no podemos ir - ele disse.
- Ah, por que no, papai? - ela pediu. - Joel  um rapaz to agradvel! Seria falta de educao da nossa parte no ir  festa dele.
- Eu pensei que tinha lhe dito para ficar longe dos Denison. Eles no so para voc.
- Todos os nossos amigos vo estar l.   Os Kingston vo, os Willianson vo... Todo mundo vai!
- Est bem, ns vamos - Charles Jansen concordou no final, um pouco irritado. - Mas aviso desde j: no quero v-la perto de Ryan Denison!
Liv quase ficou doente de excitao, na medida em que a noite da festa se aproximava. Comprou um vestido novo, com um decote bastante ousado, que deixava seus ombros
nus e que se movia suavemente em volta de suas pernas, quando ela andava. Suas mos tremiam tanto, quando ela se maquilou um pouco antes da hora marcada para o incio
da festa, que pensou que no fosse ficar pronta a tempo.
Mas ficou, e quando seu pai franziu a testa, ao ver o tamanho de seu decote, passou por ele rapidamente e entrou no carro, para evitar que tivesse a idia de mand-la.
Era a primeira vez que Liv ia at a casa dos Denison, e, quando a magnfica construo apareceu entre as rvores que a rodeavam, ela prendeu a respirao, maravilhada.
Toda iluminada para a festa, a casa parecia uma enorme manso flutuante, algo tirado de um conto de fadas.
Thomas, o mordomo, havia aberto a porta para eles e os levado at onde Joel estava recebendo os convidados. Vendo-os, o rapaz se adiantou para cumpriment-los, o
rosto iluminado de prazer.
- Boa noite, Sr. Jansen. Boa noite, Liv. Obrigado por terem vindo.
- Ns  que agradecemos por ter-nos convidado. Feliz aniversrio - Liv respondeu, entregando-lhe um presente.
- No vou ganhar um beijo da garota mais bonita da cidade? - Joel perguntou, quando o pai de Liv se afastou para ir cumprimentar D. J.
Liv riu e, colocando as mos nos ombros dele, beijou-o rapidamente no rosto.
- No  s porque voc faz vinte e um anos que tem o direito de sair por a beijando todas as garotas da cidade, irmozinho. - Ryan tinha segurado as mos de Liv
e, depois de olh-la da cabea aos ps, acrescentou: - Especialmente esta aqui.
As pernas de Liv estavam moles como gelatina, a essa altura, e a aparncia de Ryan, que usava calas e camisa azuis, tirou-lhe a respirao.
No entanto, como outros convidados estavam chegando, eles se separaram e Liv juntou-se a um grupo de jovens que conhecia. Para sua decepo, Ryan no foi atrs dela,
como esperava, e a noite comeou a perder muito de seu encanto. Mais tarde, quando a cela ia comear a ser servida, ele apareceu ao lado de Liv e, envolvendo-lhe
a cintura com um brao, perguntou:
- J lhe disse que est absolutamente deslumbrante esta noite, Srta. Jansen? - E continuou, quando ela voltou os olhos cheios de adorao para ele: - Se continuar
me olhando desse jeito, vou rapt-la e lev-la para um lugar solitrio, onde ficaremos completamente sozinhos.
Liv nunca provou uma cela to gostosa e um vinho to inebriante. Sentado ao lado dela, Ryan conservou seus copos sempre cheios e ela logo comeou a se sentir flutuar.
Se bem que s o fato de estar sentada junto dele j lhe dava essa sensao.
Mais tarde, eles brindaram  sade e  felicidade de Joel e se separaram novamente em grupos, de acordo com a idade. Os mais velhos foram para a sala de visitas,
conversar, e os mais novos para a sala de estar, de onde os tapetes e os mveis tinham sido retirados, para danar.
Enquanto danavam, Ryan desabotoou os primeiros botes de sua camisa. Seus olhos, muito brilhantes, pareciam mais penetrantes do que nunca, e Liv sentia o prprio
corpo em chamas. Com habilidade, ele levou-a para perto da porta e, antes que ela pudesse perceber sua inteno, puxou-a para o hall de entrada, que estava vazio.
Abraando-a, protegido pela penumbra do local, Ryan beijou-a com desespero.
- Estive esperando por isso a noite inteira - ele murmurou roucamente, e continou a beij-la at que um outro casal os interrompeu, entrando no hall.
Os dois agentaram sorridentes as brincadeiras e piadinhas de que foram vtimas, e quando ficaram sozinhos novamente Ryan segurou a mo de Liv e puxou-a para fora
da casa.
- Para onde vamos? - ela perguntou, num sussurro.
- Para um lugar onde no seremos perturbados - ele respondeu rindo, levando-a na direo dos degraus iluminados pelo luar, que conduziam a praia. - Tire seus sapatos.
Sem hesitar, Liv jogou as sandlias de salto altas para o ar, enquanto Ryan, j descalo, dobrava as pernas das calas. Depois, de mos dadas, os dois pularam na
areia l embaixo e, como crianas, correram pela praia, deixando a festa para trs.
- Pare, Ryan! No agento mais correr! - Liv pediu aps alguns minutos, apertando os lados do corpo com as mos. - Acho que comi demais! Estou completamente sem
flego!
Parando ao lado dela, Ryan desabotoou a camisa e puxou-a para fora da cala, deixando a brisa refrescar sua pele quente.
- Eu no tinha percebido que estava to quente l dentro de casa. Minha nossa! Precisamos agora  de um bom mergulho! - Seus olhos brilhavam como duas brasas no
rosto queimado de sol. - O que acha, Liv?
-- Eu no trouxe mai - ela respondeu, rindo.
- Nem eu, por isso acho que vamos ter que nadar como viemos ao mundo. Concorda?
- No, eu... Eu no poderia - Liv protestou fracamente.
- Ora, vamos! No h ningum aqui para nos ver! - seus dentes muito brancos brilharam a luz da lua quando ele sorriu para ela. - Eu desafio voc a ir nadar comigo,
Liv - ele disse, lembrando-se de uma brincadeira de infncia.
- Voc no deveria... Bem, voc no deveria ir nadar depois de beber, Ryan - Liv falou rapidamente, ao v-lo tirar a camisa. - Pode ter uma cibra e se afogar.
- Est querendo me dizer que estou bbado, Liv Jansen? Pois eu lhe garanto que estou s um pouquinho alto. - Ryan desabotoou e tirou as calas, antes de continuar:
- No quer vir comigo; Pode ser que eu precise da sua ajuda, para no me afogar. Se sente vergonha, fique de calcinha e suti.
- Eu... Eu s estou usando uma calcinha biquni por baixo do vestido - ela gaguejou, contente porque a escurido escondia seu rosto corado.
- Ento, fique s com ela, Quer ajuda para tirar o vestido.
- No... No!
- Est bem - Ryan disse, rindo com suavidade. - Vejo voc no mar, ento.
Acabando de retirar as roupas, ele correu para a gua, o corpo musculoso iluminado pelo luar.
Liv ficou onde estava, indecisa. No sabia o que fazer. E se ele se afogasse l. Talvez devesse entrar, tambm. Olhando para trs, ela viu as luzes da casa piscando
a distncia. Ningum podia v-los, estavam completa mente sozinhos na praia...
Tomando uma sbita deciso, Liv se despiu completamente e, com um sentimento misto de excitao e horror pelo modo como estava agindo, correu para o mar, mergulhando
em suas guas geladas. Sua primeira sensao foi de frio apenas, mas logo ela comeou a perceber quanto era gostoso nadar num mar manso e iluminado pelo luar, totalmente
nua e sozinha.
Mas no devia estar sozinha! Ryan devia estar l, tambm. Quase em pnico, Liv percorreu as guas com os olhos. Onde estava ele? J estava a ponto de comear a cham-lo
em voz alta, quando dois braos envolveram-na, levantando-a e jogando-a para o alto. Quando Liv voltou  superfcie da gua, ofegante e afastando os cabelos molhados
do rosto, Ryan estava em p esperando, a poucos passos de distncia.
Querendo vingana, ela mergulhou para peg-lo, mas ele afastou-se para um lado, pronto para jog-la para o ar novamente. Daquela vez, contudo. Liv estava preparada
e abraou-o com fora, levando-o com ela para o fundo. Os dois subiram juntos para a superfcie, rindo ofegantes, ainda abraados.
Naquele momento, a lua pareceu brilhar mais intensamente, e os olhos de Ryan deslizaram pelo corpo molhado de Liv. Eles ficaram completamente imveis e o riso morreu
em seus lbios. Involuntariamente, suas mos subiram at os seios dela, que intumesceram sob a caricia delicada, ao mesmo tempo em que os mamilos rosados se enrijeciam,
A chama do desejo nasceu e cresceu em seus corpos jovens e sadios, fazendo-os se esquecerem do mundo em volta.
Abraada a ele, Liv sentiu-o acariciar-lhe os seios, mordiscando sensualmente seus lbios, e uma necessidade que clamava por satisfao invadiu-a. Erguendo-a nos
braos fortes. Ryan caminhou por entre as ondas, s parando na beiradinha da gua para beij-la de novo, ao mesmo tempo em que deixava o corpo escorregar sensualmente
ao longo do dela. Os beijos trocados por eles foram se tornando cada vez mais intensos, at que ambos caram sobre a areia molhada.
Toda idia de protesto, de resistncia, abandonou a mente de Liv no momento em que o corpo de Ryan cobriu o seu. Tanto quanto ele, ela queria aquela proximidade
extrema. E se o pensamento de que o que estavam fazendo podia ser errado passou-lhe pela cabea, Liv o afastou imediatamente, dizendo a si mesma que amava Ryan,
que sempre o amaria, e que no existiria mais ningum em sua vida, alm dele.
Quando tudo acabou, ele a abraou com fora, enxugando com as mos as lgrimas que lhe corriam pelas faces.
- Eu a machuquei, Liv... Desculpe - Ryan disse com voz rouca - mas no tive jeito de tomar essa primeira vez mais fcil para voc.
- Est tudo bem. Eu... Eu o amo. Ryan - Liv respondeu, tocando o rosto dele com as mos e olhando-o com olhos cheios de amor.
Durante vrios segundos, ele examinou o rosto de Liv iluminado pelo luar. Depois, sem dizer nada, ajudou-a a se levantar e levou-a para onde tinham deixado as roupas.
O que  que podia estar errado? No que  que ela havia errado? Qual era a sua falha? Liv engoliu um soluo e Ryan virou-se para ela,
-- Liv, por favor, no chore - pediu com voz rouca. - Voc no pode me desprezar mais do que eu mesmo me desprezo, neste momento, acredite.
- Eu...   Eu no desprezo voc, Ryan.   No foi sua culpa - ela murmurou, tremula.
Distraidamente, ele correu os dedos por entre os cabelos molhados.
- Eu no podia ter perdido o controle. Devia estar mais bbado do que pensei.
Liv estremeceu ao ouvir aquelas palavras. O que ele estava querendo dizer? Que se estivesse sbrio no a teria desejado?
-- O que fizemos no... No teve nenhum significado para voc? - murmurou, tentando se afastar, mas Ryan a segurou com fora, puxando-a novamente para junto de si.
- Pelo amor de Deus,  claro que teve - ele disse, abraando-a com delicadeza. - Mas eu no deveria ter deixado que acontecesse. Eu devia ter me controlado melhor.
Voc  to jovem!
Seus lbios desceram pelo rosto de Liv at alcanar-lhe o lbulo da orelha rosada, e ela sentiu Ryan ficar rijo novamente.
- Ns devamos estar nos vestindo - Ryan disse baixinho -, mas no  bem isso que tenho vontade de fazer, agora.
Desta vez, eles fizeram amor com menos pressa, Ryan ensinando e Liv aprendendo, e suas carcias mtuas os levaram ao xtase total. Depois, contentes, os dois dormiram
abraados sobre a areia macia, indiferente  passagem do tempo, sem ouvir os chamados, sem ver as figuras que se aproximavam, at que uma lanterna iluminou seus
corpos nus, tirando-os de seu mundo de amor.
Ryan acordou imediatamente, levantando-se e fazendo Liv se levantar. Sonolenta, ela teria cado se ele no a segurasse. No entanto, o horror de dar com as duas formas
rgidas que os contemplavam, iluminadas pela lanterna abaixada, despertou-a de supeto. Calmo, sem fazer nenhum comentrio, Ryan protegeu-a com o prprio corpo,
at Liv colocar o vestido. Depois, sem nenhuma pressa, vestiu-se tambm.
- Voc encontrou os dois? - A voz do pai de Liv chegou at onde eles estavam, e pouco depois ele se juntou s duas outras figuras.
- Encontrei, sim. Eles esto aqui, - A voz de D.J, tinha um som normal, mas o olhar que ele lanou ao filho mais velho era cheio de desprezo. - Desta vez, voc foi
longe demais, Ryan. Nunca pensei que um filho meu pudesse...
- Liv, voc est bem? - Joel perguntou, aproximando-se.
- Estou, sim, Claro que estou - Liv disse, sentindo-se de repente envergonhadssima. O que lhe parecera to bonito, to certo, antes, agora lhe parecia srdido e
degradante. - Ns... Ns adormecemos - explicou, defensivamente.
- Posso saber o que  que est acontecendo aqui? - Charles Jansen estava ofegante por causa da corrida pela praia. - Voc nos deixou doentes de preocupao, Liv.
Encontramos as suas sandlias na escada e... - Ele se interrompeu ao ver os cabelos molhados da filha. - Voc esteve nadando, Liv?
- Vamos voltar para casa - Ryan sugeriu.  - No vejo nenhum sentido em ficarmos aqui a noite inteira.
- Liv, o que foi que aconteceu? - o pai dela insistiu.
-  melhor conversarmos l em casa, Jansen - D.J. disse, lutando para controlar a raiva que sentia. - Graas a Deus, todo mundo j foi embora.
E num silncio desagradvel, eles comearam a caminhar pela praia.

CAPITULO VII

Agoniada Liv continuou a rememorar o passado, deitada em sua cama no iate de Ryan.
Seu pai havia ficado completamente mudo durante alguns segundos, quando toda a situao lhe foi explicada. Depois, ele e D.J. comearam a lanar acusaes aos berros,
enquanto Ryan mantinha-se um pouco afastado, sem dizer nada, o rosto inexpressivo parecendo o de um completo estranho.
Quando Liv finalmente no conseguiu mais agentar e perdeu o controle de si mesma, foi Joel quem a abraou e consolou, enxugando as lgrimas que lhe corriam pelo
rosto. Aos poucos, foi se acalmando e sua prxima lembrana era de seu pai exigindo que Ryan se casasse com ela imediatamente. S a  que Ryan tentou entrar na
conversa, e suas palavras gelaram Liv. Ele no estava pronto para se casar, alegou. Havia muitas coisas que ainda queria fazer, antes de assumir as responsabilidades
de um casamento.
O pai de Liv tinha se virado para ele, ento, pronto para atac-lo fisicamente, o rosto vermelho por causa da raiva que mal podia controlar. Mas a voz de D.J. havia
imobilizado a todos. Ryan assumiria a responsabilidade por seus atos pelo menos uma vez na vida, e se casaria com Liv. Depois, pelo tanto que o pai se importava
com ele, poderia sumir da cidade e at do pas. No teria nenhuma ajuda financeira, e s devia levar o que pudesse carregar. Mas, antes disso, teria que se casar
com Liv.
Os olhos de Liv voltaram-se para Ryan, que encarava o pai furioso. Mas o golpe mais duro de agentar foi o olhar indiferente que ele lhe lanou, ignorando seu ar
implorante, antes de sair da sala.
O casamento deles foi simples e discreto, um acontecimento completamente diferente dos geralmente associados com os Denison, e uma hora depois da cerimnia Ryan
partiu. Liv nunca mais o tinha visto, at aquela noite, trs semanas atrs. E s sabia que ele estava vivo porque, quando os gmeos estavam com quase dois anos,
recebera um aviso do banco dizendo que Ryan dera ordens para que uma determinada quantia fosse depositada em sua conta todos os meses, dali em diante,
Mas Liv nunca tocou em um centavo daquele dinheiro. No queria nada dele.
Ela enxugou o rosto, sentindo-se invadir por uma onda de autopiedade. No! No queria nada dele! Nunca! No entanto, Ryan lhe dera o seu bem mais precioso: os filhos.
E Liv no conseguia imaginar sua vida sem eles, embora no comeo no sentisse nada pelos seres que cresciam em seu ventre.
Depois da partida de Ryan, Liv tinha se fechado em si mesma. No saa mais de casa, e passava horas contemplando o mar, sentada na areia, ou andando ao longo da
praia. No conversava com ningum, nem mesmo com o pai e Joel. Era como se tivesse construdo uma muralha invisvel em volta de si mesma, que no permitia que ningum
nem nada a atingissem.
O fato de que poderia estar grvida no lhe passou pela mente entorpecida, e s quando seu pai notou seus enjos matinais, e chamou um mdico,  que ficou sabendo.
A notcia no lhe causou nenhuma emoo. No queria a criana, mas tambm no deixava de quer-la.
No entanto, essa sua apatia deixou o Sr. Jansen quase louco de ansiedade, e foi a que Joel tomou as rdeas da situao, foi procurar Liv e falou com ela durante
horas, at conseguir atingi-la e faz-la voltar  realidade. Ele a chamou de egosta e irresponsvel e mais um milho de adjetivos do tipo, at que ela reagiu, mostrando
toda a piedade que sentia de si mesma.
Como  que podia saber como ela estava se sentindo? O quanto rinha sofrido? Ningum podia saber! Gritara zangada. Mas Joel prosseguiu at que ela comeou a chorar,
pela primeira vez desde a noite da festa. Ento, ele a abraou e a deixou chorar at no poder mais. Depois, os dois conversaram sobre o beb e sobre o futuro, e
Liv comeou a tomar conscincia do que significava a minscula vida que abrigava em seu corpo. Todo amor que ela havia oferecido a Ryan e que ele recusara com tanta
insensibilidade, foi dedicado quela criana, e aos poucos Liv recuperou o equilbrio emocional.
Sim. Joel tinha sido a sua salvao, e s ela sabia o trabalho que ele tivera para faz-la voltar ao normal. Porque Liv no tinha dvida de que estivera a ponto
de enlouquecer, e que, se no fosse pelo cunhado, isso provavelmente leria acontecido.
Liv acabou adormecendo, mas acordou logo depois, quando uma mo tocou delicadamente em seu ombro. Ela virou de costas, piscando para afastar o sono, ciente de um
barulho que no conseguia definir. Apenas a luzinha para leitura, que ficava em cima de sua cama estava acesa, mas ela reconheceu na mesma hora a pessoa que estava
ali.
- O que foi. O que  que voc est fazendo aqui? - perguntou, puxando as cobertas at o queixo.
- Voc vai ter que dividir essa cama comigo. Roko j est deitado no sof da cabine principal - Ryan disse baixinho, segurando as cobertas que ela agarrava com fora
--, e eu no pretendo dormir no cho, quando posso ficar bem melhor acomodado aqui.
- Voc deve estar louco, se pensa que vou deixar que...
- Fale baixo, a menos que queira acordar todo mundo a bordo.
-Voc no vai dormir nessa cama! - Liv sussurrou, aflita. Os olhos dele se encontraram com os dela.
- O que foi que aconteceu de repente com a delcia de dormir ao ar livre, debaixo das estrelas? -- ela perguntou com sarcasmo, o corao batendo acelerado.
- Se voc parar de falar por alguns segundos, vai perceber que est chovendo. Uma chuva tropical - Ryan explicou secamente.
Agora Liv podia definir o barulho que estava ouvindo: era causado pela chuva caindo sobre o convs! Por isso  que os cabelos claros de Ryan estavam molhados! Seus
olhos caram ento sobre o peito nu do marido, e repentinamente ela sentiu a boca seca. A nica coisa que ele estava usando era uma cueca!
- E Alesi? - Liv perguntou, sentindo o corpo tenso.
- Est dormindo a sono solto no beliche da alcova. Ela desceu antes de a chuva comear. Agora, chegue pra l. Estou cansado e quero dormir um pouco. - Sem esperar,
ele afastou as cobertas e deitou-se ao lado dela.
O que antes lhe parecera uma cama enorme, de repente diminuiu muito de tamanho, e Liv se viu apertada de encontro  parede da cabine, o corpo rgido e tenso. Ryan
estendeu a mo para apagar a luz e virou-se de lado, de costas para ela, que continuou como estava.
- Pelo amor de Deus, Liv, relaxe -- ele disse depois de alguns minutos, exasperado, mas tudo o que conseguiu foi que ela se apertasse ainda mais de encontro  parede.
- Liv - ele continuou, virando-se ligeiramente para ela -, como voc j me disse muito oportunamente uma vez, antes, Melly est dormindo na cama ao lado. Alm disso,
se bem me lembro, eu no precisei usar a fora na ltima vez em que fizemos amor, e ns dois sabemos que agora, se eu quisesse, tambm no precisaria for-la a
nada. Por isso, durma em paz e d graas a Deus por eu no estar com disposio para isso,
Ryan voltou  posio anterior e em poucos segundos estava dormindo. Aos poucos, Liv forou seu corpo a relaxar, e surpreendentemente conseguiu adormecer. Durante
a noite, sem perceber, ela acabou se virando para Ryan e acomodando-se junto s costas dele, que ajeitou o brao dela em volta de sua cintura.
Quando Liv acordou, a cabine j estava iluminada pela luz do sol, que entrava pela escotilha descoberta, localizada acima da cama de Melly. A menina ainda dormia,
mas Ryan j se fora. Ou teria sido tudo apenas um sonho? Mas no, o travesseiro amassado ao lado do seu mostrava que no havia sonhado.
Sentando-se, Liv olhou pela escotilha para o mundo l fora. A chuva havia cessado, deixando a vegetao da ilha mais verde e viosa.  Uma batida leve fez com que
ela se virasse para a porta da cabine, a tempo de ver Ryan entrar, seguido de perto por Luke. Cada um deles carregava duas xcaras de ch, e depois de colocar a
dele e a da irm sobre a mesinha localizada entre as duas camas, Luke sentou-se ao lado de Melly, que esfregava os olhinhos inchados de sono.  Sem dizer nada, Ryan
estendeu uma de suas xcaras para Liv, sentando-se na beirada da cama que ela ocupava.
- Parece que a chuva parou mesmo - ele disse, olhando o rosto corado da esposa por cima de sua xcara fumegante.
- Ah, ento  aqui que todo mundo est! - Alesi exclamou, entrando na cabine e deixando-se cair na cama onde estavam os gmeos. - Voc  uma dorminhoca, Liv. Ryan
e eu at j nadamos! - Ela sorriu para Ryan, que correspondeu.
- Eu no dormi bem esta noite - Liv explicou, com os olhos fixos em sua xcara de ch.
- Que pena! Mas deve ter sido porque voc no est acostumada com os movimentos de um barco - Alesi sugeriu, problema, pois nasci praticamente dentro de um.
- Voc teve um pesadelo, mame? - Melly quis saber.
Os olhos de Liv procuraram Ryan, que sorriu zombeteiramente.
- Foi algo bem parecido - ela respondeu docemente, sorrindo para a filha.
- Bem, vamos l, Luke. Vamos jogar a linha l do convs e ver se conseguimos pescar alguma coisa para o caf da manh.
Ryan ficou em p e Luke pulou na mesma hora para fora da cama da irm.
- Posso ir tambm? - Melly pediu.
- Voc ainda no est vestida - Luke respondeu, com pouco caso.
- Mas eu posso me vestir bem depressa - a menina disse, desabotoando a blusa do pijaminha.
-- Suba quando estiver pronta, Melly - Ryan talou, antes de desaparecer no corredor, seguido por Luke e Alesi.
Liv saiu da cama e ajudou a filha a se vestir, voltando a se deitar depois que a menina subiu. A garota fijiana no lhe saa da cabea. Que ela estava apaixonada
por Ryan, era mais do que bvio. Ser que os dois estavam tendo um caso? Se estiverem, por que Ryan havia lhe dito que queria ela e os gmeos com ele? Ser que ele
pretendia ter tudo ao mesmo tempo?
Uma onda de cime invadiu Liv, e ela pulou para fora da cama e comeou a se vestir, cheia de desespero. Como tinha sido cega! Ela o amava agora tanto quanto antes,
talvez at mais, pois reconhecia que tinha suas faltas, como todo ser humano, e o aceitava como era. No entanto, ele continuava a no se deter diante de nada para
conseguir o que queria, e se descobrisse que ela ainda o amava, na certa ia tirar vantagem disso. Precisava impedir que Ryan descobrisse, a todo custo. E para isso
tinha que mant-lo a distancia, no ficando nunca sozinha com ele.
- Ei, mame! O caf est pronto! - Luke gritou da cozinha. - Ns pescamos um monte de peixe. At Melly pescou um! - contou, excitado.
O caf da manh foi uma refeio bastante alegre, e se algum notou que Liv no falou quase nada, no deu a menor demonstrao.
- Eu pensei ter ouvido barulho de chuva, ontem  noite -- Maria comentou, - Algum mais ouviu tambm, ou foi iluso minha?
- No, choveu mesmo. E bastante! - Roko respondeu. - Ryan e eu tivemos que correr, para no ficarmos completamente molhados.   Eu dormi aqui na cabine principal.
Onde  que voc dormiu. Ryan?
- Ah, eu achei um lugarzinho muito gostoso e aconchegante - Ryan respondeu sorrindo e todos riram, embora Maria e Alesi lanassem olhares penetrantes para o rosto
corado de Liv.
Mais tarde, Liv e Maria deitaram-se na praia para tomar banho de sol, enquanto vigiavam as crianas que brincavam na gua.
-- Mike disse que Ryan comprou mesmo a ilha Cravem - Maria falou. - Eles conversaram sobre isso ontem, e Mike me contou que Ryan tem uns planos fantsticos na cabea.
Vai ser um sucesso e dar emprego a muita gente daqui.
- No duvido! - Liv respondeu com sarcasmo, o que fez Maria lhe lanar um olhar surpreso. - Desculpe, Maria. Eu no devia ter falado assim com voc.  que no consigo
deixar de ser agressiva com tudo que se refere a Ryan. S de ouvir o nome dele, eu j fico fora de mim.
- Talvez voc tenha se condicionado a reagir assim, Liv, porque ele a magoou.
Liv balanou a cabea, no querendo admitir que havia alguma verdade nas palavras da amiga. Na realidade, ela nunca tentara analisar sua reao, e a atitude de seu
pai em relao a Ryan no a ajudara em nada. O Sr. Jansen nunca dissera uma palavra a favor do genro, e D.J. nem falava no filho. Era s com os gmeos que Liv fazia
fora para esconder a animosidade que sentia pelo marido, pois no queria dar a eles uma idia muito ruim do homem que tinham como pai.
E isso a fez se lembrar de seu problema principal: contar aos gmeos sobre Ryan.
- Eu vou ter que contar logo aos gmeos - Liv disse para Maria, distraidamente.
- Por que no faz isso junto com Ryan? Assim, vocs dois podero conversar com eles. E, alm disso, no  justo que s voc fique com a responsabilidade de tudo
-- Maria sugeriu com lgica.
- Eu no sei se conseguiria manter a calma na presena dele. - Liv franziu a testa ao ver Ryan sair do iate e se aproximar pelo ancoradouro.
Decididamente, ele caminhou na direo delas, movendo-se com a graa inconsciente de um felino. Seu corpo era firme e musculoso, e ele ostentava o ar de um homem
bem-sucedido e seguro de si. Nenhuma mulher seria capaz de ficar imune  atrao que Ryan emitia, e muito menos Liv. Percebendo isso, ela corou, zangada consigo
mesma.
- Ns vamos ter que voltar mais cedo do que eu pretendia - ele disse, estendendo-se na areia ao lado de Liv. - No estou gostando da cara daquelas nuvens no horizonte,
e o servio meteorolgico informou que  tardinha o mar vai ficar um pouco bravo. Por isso,  melhor irmos embora dentro de mela hora, mais ou menos.
Por mais que Liv desejasse o fim daquele passeio, ela no pode deixar de sentir uma certa tristeza, ao ver a ilha Craven ficar para trs. No entanto, logo se dominou
e desceu para recolher suas coisas e as dos gmeos, levando-as para o convs.
- Eu levo vocs para casa, Liv - Ryan comunicou, quando o barco j havia ancorado e eles estavam para desembarcar.
- Eu vim com Mike e Maria - ela respondeu calmamente - e posso voltar com eles.
Ryan, que j estava se afastando para ajudar Roko a arrumar as velas, voltou-se bruscamente para Liv. A expresso de seus olhos no escondia que sua vontade era
dar uma boa sacudidela na esposa.
- Vocs vo comigo - ele disse com deciso. - Precisamos discutir um assunto muito importante. - E, virando-lhe a costa, continuou seu caminho.
J era bem tarde quando Ryan e Roko acabaram de arrumar as velas. Sentada no convs, Liv esperava, perdida em seus pensamentos. Apesar de sua aparncia calma, por
dentro ela estava fumegando de raiva.
Assim que Liv destrancou a porta do bangal, os gmeos entraram correndo, saindo logo depois pela porta da cozinha, na direo da praia. Ela foi para o quarto que
partilhava com a filha e ficou l por alguns momentos, tentando se acalmar, antes de ir atrs de Ryan. Ele havia seguido os gmeos at o quintal, e agora, com as
mos enfiadas nos bolsos de seu jeans desbotado, observava os dois correndo pela areia.
No que estaria ele pensando, naquele momento? Ser que lamentava o fato de ter perdido sete dos anos mais importantes na formao do carter de Luke e Melly.
- O que  que voc queria falar comigo?   - Liv perguntou bruscamente.
Por um momento, ela pensou que Ryan no a ouvira, pois ele continuou como estava durante mais algum tempo, antes de se virar.
- Eu quero lhe pedir um favor - ele disse com seriedade.
- Que tipo de favor? - Liv quis saber, observando-o cautelosamente.
-  melhor ns conversarmos l dentro.
Eles tinham acabado de entrar na cozinha, quando a campainha tocou. Lanando um rpido olhar para Ryan, Liv deixou-o e foi atender, aliviada pela interrupo momentnea.
Entretanto, essa sensao logo acabou, pois na porta estava Martin Wilson.
- Boa noite, Olvia. Eu passei aqui na esperana de que pudssemos conversar um pouco. - Ele olhou na direo do Mercedes prateado de Ryan, que estava estacionado
junto ao meio-fio. - Espero no ter chegado numa hora inconveniente.
- Como vai, Martin? - Liv respondeu com voz no muito firme, tentando desesperadamente pensar numa desculpa para mand-lo embora, antes que Ryan aparecesse. -Eu...
Eu acabei de chegar em casa e...
- Quem , querida? - A voz de Ryan soou bem atrs de Liv, e ela gelou ao perceber o tom ntimo e afetuoso que ele havia usado.
Martin olhou desconfiado para o homem que parou  sua frente e, quando Ryan passou o brao pela cintura da esposa, voltou os olhos incrdulos para Liv. Ela no conseguiu
dizer uma palavra, mas Ryan estendeu a mo para o recm-chegado, com todo o sangue-frio de que era capaz.
- Prazer em conhec-lo. Eu sou Ryan Denison, o marido de Liv.
-  verdade, Olvia? - Martin perguntou, ignorando a mo que lhe era estendida.
- Vamos ver: voc deve ser Martin Wilson - Ryan disse, abaixando a mo com indiferena. - Minha esposa me falou a seu respeito.
- Falou? - Martin repetiu incrdulo, olhando de novo para Liv.
- Ryan, por favor - ela conseguiu dizer finalmente. - Deixe-me sozinha com Martin por alguns minutos. Ryan lanou a Martin um olhar de pouco caso e deu de ombros.
- Vou comear a preparar o jantar, enquanto vocs conversam - ele anunciou bem-humorado, voltando para a cozinha.
- Olvia, o que  que est acontecendo? - Martin quis saber. - Esse sujeito  o seu marido? Pensei que vocs nunca se vissem.
- , ele  o meu marido, mas ns no... Martin, no  o que voc est pensando - ela explicou apressadamente, respirando fundo. - Sinto muito, Martin. Eu pretendia
lhe dizer quando voc me telefonou, mas...
- Foi no barco dele que voc foi passear? -- Foi. Mas...
- Quanto tempo faz que ele voltou?- Martin perguntou asperamente.
-- Mais ou menos trs semanas, mas...
- Trs semanas! - Sua pele clara coloriu-se de um vermelho intenso. - Sei... Bem, eu j vou andando. Acho que lhe dei mais valor do que voc merecia, Olvia - ele
disse, e virou-se para ir embora.
- Martin, espere! - Liv segurou-o pela manga do palet. Calmamente, sem nem olhar para ela, ele se soltou e se afastou. Liv observou-o ir embora, sabendo que no
deveria estar tendo aquela sensao de alvio, e sentindo-se culpada por causa disso. Depois, girando nos calcanhares, marchou para a cozinha, decidida a dizer algumas
verdades ao marido.
Melly estava de p em cima de uma cadeira, observando Ryan mexer alguma coisa numa panela, de onde vinha um cheiro delicioso, enquanto Luke punha a mesa com a maior
boa vontade, apesar de detestar fazer isso.
- Os homens esto preparando o jantar, esta noite - o menino anunciou, assim que a viu.
Os olhos de Ryan encontraram-se com os dela, por cima da cabea de Melly, e sua expresso inocente deixou-a mais furiosa ainda. Foi s apelando para toda a sua fora
de vontade que Liv conseguiu se controlar o suficiente para no fazer um escndalo na frente dos filhos.
- O jantar j est quase pronto - Melly disse - e foi feito todo com comidas enlatadas. - Seus olhos profundamente azuis exprimiam uma certa dvida, quando ela perguntou
a Ryan: - Voc tem certeza de que vai ficar gostoso?
- Tenho, sim.   Eu sou o rei dos cozinheiros que usam comidas enlatadas - Ryan assegurou, sorrindo. - Agora, se todo mundo fizer a bondade de sentar, eu posso comear
a servir a minha obra-prima.
Os gmeos riram, e foram para seus lugares. Em silncio, Liv sentou-se tambm, certa de que a primeira garfada daquela comida a sufocaria. No entanto, surpreendentemente,
o gosto da "obra-prima" de Ryan era to bom quanto seu cheiro.
- Estava uma delcia, no , mame? - Luke colocou os talheres sobre o prato vazio, antes de acrescentar, sorrindo: - Agora, as mulheres vo ter que lavar os pratos.
So as regras do jogo!
-  justo - Liv concordou, ao mesmo tempo em que lanava um olhar para o relgio da cozinha. - E quando eu e Melly acabarmos de arrumar a cozinha, vocs dois vo
para a cama. J  tarde, e tiveram um fim de semana muito agitado. Alm disso, vo ter que se levantar cedo para ir  aula, amanh.
Mais tarde, quando ela estava colocando as crianas na cama, Ryan foi lhes desejar boa-noite. Depois, sentindo-se tremendamente insegura de si mesma e dele, Liv
seguiu-o at a sala. Ela sabia que devia repreend-lo pelo modo como havia tratado Martin, mas sua zanga parecia ter se evaporado durante o jantar.

CAPITULO VIII

- Sobre aquele favor, Liv...  - Ryan estava parado em frente  janela, os olhos fixos na escurido l fora.
- Como  que voc pode ter a coragem de me pedir um favor, depois do modo como tratou Martin? - Liv perguntou, incrdula. -  melhor voc se esquecer disso, Ryan.
- Aquele sujeito inspido nunca conseguiria faz-la feliz, Liv - ele disse com firmeza. - Em menos de um ms voc j estaria quase morta de tdio, ao lado dele.
Alm disso, eu no falei nada que no fosse verdade.
- No foi o que voc falou, mas o modo como falou... E eu no quero que voc interfira em assuntos que no lhe dizem respeito!  - Liv explodiu.
- Quer dizer que voc est mesmo pensando seriamente em se casar com ele? -Ryan quis saber, olhando-a nos olhos.
Seria to fcil responder que sim... Mas, l no fundo, Liv sabia que nunca seria capaz de se casar com Martin, mesmo que Ryan no tivesse voltado. Como ele acabara
de dizer, dentro de um ms ela estaria morrendo de tdio. No conseguindo mais sustentar o olhar firme do marido, Liv abaixou a cabea.
- , eu sabia que no! - Ryan exclamou, triunfante.
De repente, cansada daquilo tudo, Liv deixou-se cair numa cadeira.
- Ryan, eu estou cansada. Diga-me o que quer e v embora - pediu. Durante alguns segundos, ele no disse nada, e ela chegou a pensar que talvez fosse por no saber
que palavra devia usar. Mas logo tirou essa idia da cabea; era impossvel!
- Eu comprei a ilha Craven - ele disse finalmente, sem prembulos.
- Eu sei.
- Mike contou a Maria e Maria lhe contou, no foi?
Liv negou com a cabea e explicou que tinha visto a planta do condomnio.
- Eu nunca pensei que a Sra. Craven fosse capaz de vender aquela ilha. Como foi que voc conseguiu convenc-la?
Ryan deu de ombros,
- Acho que eu cheguei na hora certa, oferecendo a quantia certa de dinheiro.
Liv examinou com cuidado o rosto do marido, sentindo que ele no estava dizendo exatamente a verdade, e imaginando como ele poderia ter ficado to rico.
Olhando-a, Ryan sorriu com malcia.
-- Foi tudo legal - disse, como se estivesse lendo os pensamentos dela. - Eu tive a sorte de comprar uma determinada mercadoria bela e barata, e vend-la por um
preo altssimo, alguns meses depois, quando estava em falta na praa. - Ele caminhou da janela at uma das paredes da sala, onde estava pendurado um quadro retratando
uma cena marinha. -  um dos seus?
- .
- Voc pinta bem.
- Obrigada. Tenho me sado relativamente bem na pintura.
Ele fez um gesto com a cabea, indicando que sabia disso, depois se virou para ela.
- Eu vou dar um jantar no hotel de Airlie, e gostaria que voc comparecesse como minha anfitri - explicou finalmente.
Liv olhou-o, sem conseguir acreditar no que acabava de ouvir.- Que tipo de jantar?
- Um jantar para lanar o meu projeto para a ilha Craven. J convidei todo mundo da regio, tanto os que podem ficar a meu favor quanto os que vo ficar contra.
Quero explicar os meus planos e acabar com os protestos que possam surgir, antes de comear a construo. - Ryan voltou para junto da janela, antes de continuar:
- Algumas das coisas que pretendo fazer na ilha Craven so novidades, e a maioria das pessoas no gosta de mudanas. Vou ter que convenc-las de que as minhas idias
so as melhores que j surgiram nessa cidade, nos ltimos dez anos.
- E se todos estiverem contra voc?
- Eles vo mudar de idia, depois desse jantar - Ryan replicou com confiana.
- E qual vai ser o meu papel, como sua anfitri? - Liv perguntou sem expresso, pensando que ele era a pessoa mais autoconfiante que j conhecera, mais at do que
D.J.
- Voc s vai ter que ficar a meu lado, com a aparncia mais atraente que puder ter. - Ele sorriu. - Para atrair para o meu lado os que eu no puder convencer com
minhas palavras.
- E por que eu deveria fazer este... - ela fez uma ligeira pausa - favor para voc?
Os olhos de Ryan assumiram uma expresso zombeteira.
- Talvez possa encarar tudo isso como o jeito de conseguir mais depressa o que voc quer.  Afinal, logo depois que a construo do condomnio comear, eu vou embora
daqui.
As palavras de Ryan atingiram Liv como um golpe fsico, e s com um tremendo esforo ela conseguiu se dominar o suficiente para no demonstrar nada.
 - Pensei que voc fosse ficar em Airlie - disse, imaginando por que a idia da partida dele no a alegrava mais. Mas que bobagem!  claro que ela sabia por qu!
- Pode ser. Quem sabe? -- ele respondeu enigmaticamente.
Durante alguns segundos, os dois se contemplaram em silncio. Depois, Liv ouviu-se perguntar:
- Ryan, por que foi que voc voltou? Foi para provar alguma coisa a D.J.? Porque o que ele pensar a seu respeito, todo mundo vai pensar tambm?
- No. Na verdade, eu no me importo com o que os outros pensam a meu respeito, e a razo por que eu voltei no tem nada a ver com D.J. E por que eu haveria de querer
provar qualquer coisa a ele, depois de todo esse tempo? Talvez no comeo... - Ele deu de ombros. - Eu, desisti de me preocupar com a opinio de D.J. a meu respeito.
Ele nunca conseguiu ver nada do meu modo. Ele me sufocava, mesmo sabendo o tempo todo que eu nunca seria um homem do tipo que s diz "sim". O que ele vai achar dos
meus planos para a ilha Craven... Bem, quem pode saber? Mas eu pretendo discutir o projeto com ele antes desse jantar. Quanto ao preo que eu paguei pela ilha, D.J.
poderia ter facilmente coberto a minha oferta, a Sra. Craven preferiu vender para mim, porque gostou das minhas idias.
Ryan sentou-se numa enorme espreguiadeira, com ar de quem est se sentindo completamente  vontade.
- Alm disso, eu voltei tambm para ver se conseguia fazer alguma coisa a respeito do nosso casamento. Mas parece que voc no quer nem pensar nisso... - Ele olhou-a
com firmeza. - E nesse assunto, a deciso  s sua.
- Como eu j lhe disse antes, estou feliz com a vida que levo - Liv declarou, torcendo para que ele no notasse a falta de convico em suas palavras.
- Voc tem o direito de no querer mudar de vida, mas, mesmo assim, eu quero conhecer melhores os gmeos.
Ela se levantou bruscamente, zangada.
- E voc acha que eu vou deixar que se envolva com eles agora, s porque est com vontade de conhec-los melhor? Amanh, pode ser que voc resolva largar os dois
de lado novamente. No, Ryan, no creio que essa seja uma boa idia.
- Voc est com medo de ter que partilhar os dois comigo, Liv?
- Que coisa mais desprezvel voc acaba de dizer!
- E a acusao que voc me fez, agora h pouco? No  desprezvel tambm? Acha que  justo me negar o direito de ver meus filhos? Olhe, Liv, quando eu descobri que
eles existiam, eu no tinha condies financeiras, nem emocionais, para voltar. Na poca, a minha volta teria causado a eles mais mal do que bem, mas agora  diferente.
Ns no podemos conversar sobre isso civilizadamente?
- Ryan, eu no quero que as crianas saiam magoadas dessa histria. S a sua presena j pode causar a elas um trauma irreparvel. Se algum resolver dizer a Luke
e Melly que... - Liv se interrompeu, incapaz de continuar.
- Ento, ns devemos dizer a eles. E logo - ele falou com firmeza.
- Eu sei, mas...
Ryan correu a mo por entre os cabelos.
- Eu preciso ir tratar de alguns negcios em Brisbane, e vou ficar fora por alguns dias. V jantar com eles no iate, sexta-feira  noite, e ns contaremos tudo aos
dois, juntos.
Liv no respondeu, indecisa.
- Eles tm que ficar sabendo, Liv, por mais que voc no goste da idia.
- Est bem - ela concordou, com um suspiro.
- Eu pego vocs aqui as seis e mela.  E, Liv, sobre aquele outro assunto - ele tirou a carteira do bolso e pegou algumas notas --, isto aqui  para voc comprar
um vestido novo. Alguma coisa bem bonita.
- Eu tenho roupas, Ryan. - Ela ignorou as notas que o marido lhe estendia.
- Eu sei que tem - ele respondeu exasperado, colocando o dinheiro sobre a mesinha de centro - mas deixe que eu lhe d um presente. E uma forma de lhe agradecer pela
sua ajuda. Se quiser, pode pedir a Alesi para ir com voc compr-lo. Ela tem bom gosto. - Ryan deu uma olhada no relgio que levava no pulso. - Preciso ir, agora.
Tenho um encontro de negcios, dentro de vinte minutos. Vejo voc na sexta - disse, j saindo pela porta da frente.
Muito tempo depois de o barulho do Mercedes ter sumido na distancia, Liv continuava sentada no mesmo lugar, olhando para as notas em cima da mesinha de centro, incapaz
de toc-las. Seria bem feito para Ryan. Se ela resolvesse usar o dinheiro dele para comprar um vestido de extremo mau gosto. Mas no podia fazer isso consigo mesma.
E a ultima coisa de que eu seria capaz de fazer, pensou, fumegando de raiva,  pedir ajuda a Alesi. Se tiver que pedir a opinio de algum, ser a de Maria.
Liv tinha a impresso de que aquela semana se arrastaria, mas, para sua surpresa, ela voou. A loja de souvenires, onde ela trabalhava, foi muito procurada por turistas,
apesar de estarem fora de estao, e na quinta-feira Melly caiu na escola e precisou levar trs pontos em um corte no brao. No meio disso tudo, Liv conseguiu terminar
dois quadros a leo, que havia combinado fazer, antes da volta de Ryan.
Joel ligou para ela na quarta-feira, bobo com a notcia de que o irmo tinha comprado a ilha Craven. Ele e D.J. j haviam recebido um convite para o jantar que Ryan
daria no sbado.
- Ainda no consigo acreditar que ele tenha comprado a ilha - Joel comentou. - Antes de ir embora, ele falava muito em fazer um condomnio l, mas D.J, nunca lhe
deu ateno. Isso costumava deixar Ryan louco da vida e com o tempo ele parou de falar a esse respeito. Pensei que ele tivesse se esquecido completamente desses
pianos.
- Como foi que D.J. recebeu a notcia?
- At agora, com calma. A princpio ele ficou muito surpreso, mas no fez nenhum comentrio. O que me preocupa  que eu acho que ele acredita que Ryan comprou a
ilha para junt-la aos negcios da famlia. E, se eu conheo meu irmo, nada poderia estar mais longe da verdade. Ryan no  tolo, e sabe que se deixar D.J. participar
do negcio ele ser apenas mais um empreendimento D.J. Denison. Ryan comentou os planos dele com voc?
- No, pelo menos, no com detalhes. Mas ele quer que eu seja a anfitri do jantar que vai dar, e eu gostaria muito de saber por qu. Conhecendo Ryan, sei que ele
deve ter alguma razo por trs disso.
- Acho que tudo que podemos fazer  sentar e esperar para ver - Joel concluiu, sorrindo. - E vai ser interessante ver os acontecimentos se desenrolarem.
Pouco depois, Liv deixou a loja, pegou os gmeos nos Costello e foi para casa. Os dois estavam excitados com a perspectiva de jantar no iate de Ryan, e conversaram
alegremente sobre isso enquanto tomavam banho e se arrumavam para ir.
Durante aqueles dias, Liv tinha evitado pensar na hora em que ela e Ryan contariam a verdade s crianas. Apesar de Luke no ter feito mais nenhuma pergunta embaraosa
e ter mudado ligeiramente sua atitude em relao ao pai, ela ainda se preocupava com a reao que ele poderia ter, ao ficar sabendo da verdade. Quanto a Melly, Liv
sabia que no haveria problema. A menina havia se apaixonado pelo pai, quase que  primeira vista.
 - Ele chegou, mame! - Melly gritou, abrindo a porta para Ryan. - Mame j est quase pronta - comunicou, sorrindo para ele.
Nervosamente, Liv deu uma ltima escovadela nos cabelos, antes de prend-los na nuca. Depois, foi para a sala. Ryan olhou-a de alto a baixo, antes de se virar e
seguir os gmeos, que j se dirigiam para o Mercedes prateado. Em silncio, Liv foi atrs deles. Naquela noite, precisava manter a cabea fria e conservar suas emoes
sob controle. No podia deixar que os gmeos sentissem sua insegurana e a antipatia que nutria por Ryan.
-- Relaxe - Ryan murmurou ao abrir a porta do carro para ela entrar. - Eles so duas crianas inteligentes, e vo entender.
- Eu gostaria de estar me sentindo to confiante quanto voc - ela replicou, com voz tremula.
Em vez de estar atracado no cais, o iate de Ryan estava ancorado no meio da baa, e eles tiveram que ir at l numa pequena lancha. A brisa forte e o mar ligeiramente
bravo fizeram Liv olhar inquieta para o cu nebuloso.
- Pode ser que chova esta noite - Ryan comentou -, se bem que o servio de meteorologia informou que  mais provvel que isso acontea amanh de manh.
Os pensamentos de Liv voltaram-se para a ltima vez em que ela estivera a bordo do Midnigh Blue, durante uma tempestade tropical.
Pelo menos, desta vez ns no ficaremos aqui mais do que umas duas horas refletiu, estremecendo involuntariamente.
- Onde esto Alesi e Roko? - Luke perguntou, enquanto observava Ryan prender a lancha ao iate.
- Eles foram visitar uns amigos, numa ilha aqui perto - Ryan respondeu. - Nos vamos jantar sozinhos.
- Voc  quem vai preparar o nosso jantar de novo? - Melly quis saber, olhando quase com adorao para o pai.
Claro que sim. Espero que todos vocs gostem de comida chinesa - ele disse, abrindo a porta da cabine principal.
O jantar estava delicioso. Ryan j havia preparado quase tudo de antemo e, enquanto ele dava os retoques finais, os gmeos lhe falavam sobre suas atividades escolares.
Melly, naturalmente, acabou lhe mostrando o brao machucado, depois de fazer um relato detalhado e macabro do acidente. Durante o tempo todo, Liv permaneceu em silncio,
preocupadssima com as possveis reaes dos filhos ao saberem da verdade sobre Ryan.
Ryan aceitou alegremente os elogios que os gmeos fizeram  sua habilidade culinria, no final da refeio.
- E voc, Liv?   Gostou?  - ele quis saber, voltando os olhos interrogativos para a esposa.
- Muito! Estava muito gostoso - ela respondeu com sinceridade.
- Onde  que voc aprendeu a cozinhar?
- Por a - ele disse, sorrindo abertamente.
- Quando voc estava navegando pelo mundo? -- Melly perguntou, com uma expresso sonhadora nos olhos.
- Foi, -Ryan riu.
- Aposto que voc viveu um monte de aventuras - Luke comentou. - Voc nunca naufragou, como Robinson Cruso?
- No, nunca - Ryan replicou com tristeza.
- Nem uma vez? - O menino parecia desapontado. - Qual foi a sua maior aventura, ento?
- Bem, no foi exatamente uma aventura, mas posso dizer que um dos piores momentos da minha vida foi ter que aterrissar numa praia, com um aviozinho cujo motor
estava engasgando. Eu consegui pousar, mas a praia era muito pequena e tive que dar um cavalo-de-pau, para no bater de frente em umas rochas. Isso fez as rodas
quebrarem e o avio acabou enfiando o nariz na areia. Mas o pior, mesmo, foi sair da cabine, com o avio naquela posio.
- E o que aconteceu depois? Voc largou o avio na praia? - Luke perguntou.
- No. Eu mandei um mecnico arrum-lo de novo e tirei-o de l.
- Ento, voc sabe pilotar avies, tambm? - Melly exclamou. - Nossa voc deve ser capaz de fazer tudo, ento!
- Tudo, no, Melly. - Seus olhos zombeteiros voltaram-se para Liv. - Existem muitas coisas que eu no sei fazer. Por exemplo, eu no sei pintar to bem como a sua
me.
Os gmeos olharam para Liv.
- E, a mame  muito boa nisso. Ela at pintou um retrato de ns dois, para dar de presente ao vov - Luke contou, orgulhoso, - Voc quer que ela pinte um retrato
seu, tambm?
- O que acha da idia.   Lv?   - Ryan perguntou secamente, levantando uma das sobrancelhas escuras.
- Os retratos no so exatamente o meu forte - Liv desconversou.
- Eu prefiro pintar paisagens.
- Luke tambm  capaz de pintar muito bem. Ele puxou a me - Melly disse. Depois acrescentou com tristeza: - Mas eu no.
- Mas tem outras coisas que voc  capaz de fazer melhor do que eu
- Luke replicou. - O vov disse que tem coisas que algumas pessoas so capazes de fazer, e outras, que s outras pessoas conseguem fazer, e que isso  muito bom,
pois assim todos podem ter uma ocupao.
Pensativo, o menino calou-se por alguns instantes.  Depois perguntou, pegando os pais de surpresa:
- O vov Denison  seu pai, no ?
- , sim - Ryan replicou.
- Por que  que voc foi embora?  No conseguiu arruinar um emprego aqui, como o pai de Danny? O Danny costumava brincar com Dino e eu, mas teve que ir embora para
Gladstone, porque o pai dele no conseguia um emprego aqui.
- Na verdade, eu tinha um emprego, mas no era o que eu queria. Foi por isso que tive que ir embora - Ryan explicou.
Luke balanou a cabecinha, num gesto de quem entendia. Depois perguntou rapidamente, como se estivesse com medo de perder a coragem e no conseguir dizer mais nada:
- Voc  casado?
Antes de responder, Ryan olhou rapidamente para Liv, que havia corado intensamente.
- Sou, sim.
O menino pegou o garfo que estava em cima de seu prato, depois o recolocou no lugar, o rostinho srio.
- Voc  mesmo nosso pai? - perguntou baixinho.
- Luke, voc disse que no era para falarmos a esse respeito - Melly retrucou, os lbios tremendo. - Voc disse que a mame podia ficar triste, se falssemos nisso!
Agora que havia conseguido fazer a pergunta que o atormentava, toda a coragem sumiu do rostinho de Luke, que estava com aquele arzinho jovem e vulnervel que as
crianas costumam assumir quando tentam entrar no mundo dos adultos.
- Vocs ficariam tristes, se eu lhes dissesse qu sua me e eu somos casados, e que eu sou o pai de vocs? - Ryan perguntou aos dois, num tom de voz baixo e calmo.
- Acho que voc seria um timo pai - Melly declarou, fungando -Ryan sorriu para ela, voltando-se em seguida para o filho.
- E voc? O que acha, Luke?
- Acho que, se tudo estiver bem para a mame, para ns tambm est. - Ele deu uma olhada para Liv, que lutava com todas as foras para no romper no choro. - Mas
por que foi que voc nos abandonou?
- Luke... - Liv comeou, mas Ryan silenciou-a com um gesto de cabea.
- Esta  uma boa pergunta, Luke. Na poca, eu tinha boas razes para ir embora... Pelo menos, eu as considerava boas. - Ele fez uma pausa. - Os adultos tambm erram,
filho, e muitas vezes eles fazem e dizem coisas que uma criana acha difcil entender.
- Vocs brigaram? - Melly perguntou.
- Foi mais ou menos isso.
- E agora voc vai ficar morando aqui? - Luke quis saber. Ryan demorou alguns segundos para responder:
- No sei, Luke.   Mas, enquanto eu estiver aqui, gostaria que fssemos amigos e aprendssemos a nos conhecer melhor. O que  que vocs me dizem?
- Podemos, mame. - Luke voltou-se para a me.
- Claro que sim.
- Agora, ns no vamos mais ser os nicos garotos da classe sem pai -- Melly exclamou, sorrindo.
Liv olhou para a filha, surpresa e angustiada. Ela nunca suspeitara, nem de leve, que os gmeos pudessem ter esse tipo de problema.
- No foi assim to ruim... No ter pai, mame - Luke confessou, percebendo a tristeza dela. - Algumas crianas tm pais muito bravos! Alm disso, sempre tivemos
o tio Joel.
- Joel tem sido muito bom para ns - Liv contou a Ryan. - Ele  mesmo uma pessoa maravilhosa.
Ryan no fez nenhum comentrio a esse respeito e, levantando-se, comeou a tirar a mesa.
- O que vocs acham de uma sobremesa bem gostosa? Todos gostam de sorvete?
O resto da noite passou de um modo rpido e agradvel, e as crianas no chegaram a notar os poucos momentos de tenso que surgiram entre os adultos. Quando os dois
comearam a bocejar, Liv sugeriu que fossem para casa. E, exatamente nesse momento, comeou a chover. Ryan abriu a porta da cabine e fechou-a de novo, rapidamente.
- Em dois segundos vocs estariam molhados at os ossos, se sassem agora. Eu vou ter que ir cobrir a lancha, seno ela se enche de gua e afunda. - Apressadamente
ele entrou na cabine da proa e voltou logo depois, de mai.
- Quer ajuda? - Liv perguntou.
- No. Posso me arranjar sozinho, obrigado. Eu volto logo.                  Quando Ryan voltou, estava chovendo mais forte ainda, e Lv estendeu-lhe uma toalha,
para que pudesse se enxugar.
- Parece que essa chuva no vai parar logo - Ryan comentou. - Por que vocs no dormem aqui?
Liv levantou o queixo e seus olhos se encontraram com os dele. Ela no se admiraria, se ficasse sabendo que Ryan dera um jeito para que o tempo mudasse daquele modo.
- Voc e Melly podem ficar com a cabine da popa, e eu e Luke com a da proa.
- Ei! Grande! - o garoto exclamou, sorrindo.
- Mas ns no trouxemos pijamas - Melly disse, horrorizada. Ryan levantou as sobrancelhas.
- Voc pode dormir de calcinha e camiseta, e eu empresto uma das minhas camisetas para a sua me.
- Uma camiseta? - Melly riu. - Voc vai ficar engraada, mame!
- Ns vamos ter que ir embora bem cedo, amanh - Liv lembrou. - Luke tem um jogo.
- Talvez voc pudesse... - Luke hesitou - bem... Vir com a gente e ver o meu time jogarem, se no tiver nada para fazer. - Seu rostinho estava vermelho como um pimento,
quando ele olhou para o pai. - Alguns dos garotos jogam muito bem!
- Eu acho que Luke  o que joga melhor - Melly declarou, fazendo o irmo ficar ainda mais vermelho.
- s vezes, o tio Joel e o vov vo tambm - ele acrescentou.
- Eu gostaria muito de ir - Ryan respondeu, virando-se de costas para eles, antes que Liv pudesse ver se ele estava sendo sincero.
- O Dino tambm joga no meu time - Luke contou. - E a tia Maria e o tio Mike vo sempre ver o jogo.
- Parece que voc gosta de jogar - Ryan comentou, acariciando a cabecinha do filho.
- Gosto, sim - Luke confirmou, sorrindo abertamente.
-Eu vou tomar um banho de chuveiro e j volto - Ryan disse, esfregando o peito bronzeado com a toalha.
- Venha, Luke. Eu vou colocar voc na cama, antes de ir me deitar com MelIy - Liv falou, assim que o marido saiu dali.
- Voc acha que eu... - Luke abaixou mais a voz e perguntou: - Voc acha que ele vai ficar zangado, se ns o chamarmos de papai?
- No, tenho certeza que no - Liv respondeu, enfiando as beiradas do cobertor debaixo do colcho.
- Que bom! Voc acha que eu fiz mal em convidar o papai para ir me ver jogar futebol?
- Claro que no! Mas no se esquea de que o seu... Seu pai  um homem muito ocupado, e nem sempre vai poder ir ver voc jogar. - Ela se inclinou para beij-lo.
- Luke, como foi que voc descobriu que ele era seu pai? Algum lhe disse?
- Bem. No exatamente.  Dino ouviu algum falando sobre isso na escola e me perguntou. Da... Eu comecei a pensar e...
- Ah, sei.
- Voc no est zangada, est, mame?
- No. Claro que no. - Liv sorriu para o menino. - Bem, agora durma, amor. Boa noite.
Vagarosamente, ela caminhou para a cabine da popa, ouvindo o riso alegre de Melly, que j estava l.
-- O papai trouxe uma camiseta para voc - a menina disse, quando viu a me. - Tem uma casa fijiana pintada nela. No  bonita?
- Obrigada - Liv murmurou, sem olhar para o marido, pois no queria ver a expresso que deveria estar nos olhos dele.
- Por nada. Vejo vocs amanh, ento.
Ele passou ao lado de Liv, o rosto cheio de tenso.
- Papai?
Ryan parou abruptamente, e Liv teve a impresso de ver uma rpida expresso de dor nos olhos azuis, antes de ele se virar para Melly.
- Voc no vai me dar um beijo de boa-noite? - Pulando sobre a cama, a menina mergulhou entre os lenis. - A mame sempre nos beija, antes de dormir.
Ryan inclinou-se para a filha e ela envolveu-lhe o pescoo com os bracinhos, num abrao apertado.
-  bom ter um pai.
- E  bom ser um pai - ele disse com simplicidade, virando-se depois para a esposa, - E a mame? Tambm no quer um beijo de boa-noite?
- No, obrigada - Liv respondeu, tensa. A ltima coisa que queria era sentir o corpo quase nu do marido junto ao seu.
-- Mas eu fao questo -- Ryan insistiu, e seus lbios desceram sobre os da esposa num beijo breve e formal demais, que s serviu para faze-la desejar carcias mais
ntimas e demoradas. - Boa noite, Liv. - E, sem dizer mais nada, ele deixou as duas sozinhas.
Vestida com a camiseta de Ryan, que ainda conservava um pouco do cheiro de seu corpo msculo, Liv deitou-se na mesma cama que havia ocupado no passeio  ilha Craven.
Como gostaria que ele estivesse ali, a seu lado, como da outra vez!
Desde o nascimento dos gmeos, h sete anos, ela nunca tentara fugir das responsabilidades que tinha para com eles. E no havia sido fcil, para uma garota de dezoito
anos completamente desiludida da vida, tomar conta de duas crianas.
No entanto, naquela noite, Liv sentiu que boa parte do peso daquela responsabilidade tinha sido retirada de seus ombros. Era reconfortante saber que Ryan estava
l, e que podia contar com ele, em caso de necessidade. Afinal, ele era o pai dos gmeos, e a melhor pessoa para ajud-la a tomar decises referentes ao futuro dos
dois. Isso pensado, tudo o que precisava fazer era ir atrs dele e lhe dizer que queria...
Mas, e Ryan? O que  que ele queria? Havia dito que os queria com ele, mas ser que tinha conscincia do que isso significaria? Ser que no sentiria vontade de
partir novamente, ao ver o quanto era difcil criar uma famlia? Na semana anterior, ele dissera talvez fosse embora, quando a construo do condomnio comeasse.
Liv no podia deixar de pensar no efeito que essa partida teria, sobre as crianas e sobre ela mesma. Ter o  apoio  de  Ryan  durante  algum  tempo,   para  depois
perd-lo,   seria insuportvel. No, definitivamente no tinha condies emocionais para correr um risco daqueles.
Liv acordou cedo, quando o sol comeava a tingir o horizonte de vermelho. Sentindo-se cansada, pois havia dormido muito pouco durante a noite, ela saiu da cama e
caminhou descala para o banheiro. Depois de lavar o rosto e escovar os dentes, dirigiu-se em silncio para a cozinha, atrs de alguma coisa para comer.
Ela j tinha tomado um pouco de leite e estava lavando o copo que usara, quando ouviu um barulho atrs de si.  Virando-se abruptamente, deu com Ryan encostado na
porta da cozinha, vestido apenas com um short desbotado de brim, e os cabelos despenteados caindo sobre a testa,
- Eu ouvi um barulho e resolvi vir at aqui. Fiquei com medo de
Melly ter se levantado sozinha.
- No. Ela ainda est dormindo a sono solto - Liv respondeu, o corao batendo forte no peito.
- Luke tambm - ele disse, esfregando a mo no queixo barbado.
- Eu s vim tomar um copo de leite.
- Sei - Ryan murmurou, percorrendo com os olhos o corpo de Liv, mal coberto pela camiseta dele. - Decididamente, essa camiseta fica muito melhor em voc do que em
mim.
A voz de Ryan tinha um tom acariciante, e Liv sentiu aquela tenso sutil comear a crescer entre eles. Precisava escapar dali, e logo.
- Vou voltar para a cama, por mais algum tempo.
- Voc dormiu bem? - ele perguntou, aproximando-se mais.
- Dormi, sim, obrigada. Ryan...
- Voc no vai me perguntar como eu dormi?
Liv levantou os olhos para os do marido, que ostentavam duas enormes olheiras.
- Pois bem, eu no consegui dormir. - Ryan sorriu com ironia, mostrando um certo desprezo por si mesmo. - No consegui parar de pensar em voc, de imaginar voc
nessa camiseta, e sono foi a ltima coisa que senti, esta noite.
- Ryan, ontem voc disse...
Liv comeou a recuar, mas ele a seguiu, embora no chegasse a toc-la.
- Eu sei o que disse ontem.  Eu devia estar louco - murmurou, correndo uma das mos por entre os cabelos. - Meu Deus, voc  capaz de imaginar o que foi ficar deitado
l, sabendo que voc estava to perto, e desejando-a como um doido? - sua voz tinha um tom grave e baixo. - Ser que voc se importaria de mudar de opinio a respeito
da distribuio de camas? - ele perguntou, envolvendo o rosto dela com as mos.
Liv sentiu o corao se acelerar dentro do peito. Meu Deus, se Ryan soubesse o quanto ela desejava dizer que no se importaria de mudar de opinio a respeito da
distribuio das camas, ou de qualquer outra coisa que ele quisesse! Mas dizer isso seria se colocar completamente nas mos dele.
- No, Ryan no quero - disse com firmeza.
Ryan respirou fundo, e Liv pde ver o conflito nos olhos profundamente azuis, antes que ele lhe virasse abruptamente as costas.
-   melhor voc voltar para a sua cama, ento -- ele disse com voz tensa - antes que eu mude de opinio e resolva ajudar voc a mudar a sua.

CAPTULO XI
Ryan teve de ir a Brisbane novamente e ficou por l uma semana, o que para Liv foi um alvio, pois quanto mais o via mais enfraquecia sua deciso de no aceit-lo
em sua vida. Nesse meio tempo, seguindo a sugesto dele, comprou um vestido novo para usar no jantar, um modelo elegante e exclusivo, carssimo, que parecia ter
sido feito especialmente para ela. De seda negra, com um decote discreto na frente, mas que deixava as costas bronzeadas de Liv nuas at a cintura, ele delineava
seu corpo de forma atraente e sedutora, formando um lindo conjunto com seus cabelos negros e brilhantes.
O preo marcado na etiqueta fez Liv soltar uma exclamao de assombro, mas Maria a convenceu a lev-lo, lembrando-lhe que quem estava pagando era Ryan, e que, ao
que tudo indicava, ele podia perfeitamente se dar ao luxo de fazer uma despesa daquelas.
Agora, vestindo-se para o jantar, depois de ter deixado os gmeos na casa de Maria, Liv estava contente por t-lo comprado, pois sua beleza e elegncia aumentavam
a confiana dela em si mesma.
Ryan no ia busc-la. Ele havia telefonado para explicar que no poderia sair do hotel, por causa de vrios problemas que tinham surgido de ltima hora, mas que
Joel passaria para peg-la s sete e meia.
Liv deu os retoques finais na maquilagem leve que aplicara no rosto e comeou a escovar os longos cabelos. Ela havia pensado em prend-los no alto da cabea, mas
acabara se decidindo por deix-los soltos, como Ryan preferia.
No momento em que Joel tocou a campainha, ela estava nervosssima, quase desejando no ter concordado em ser a anfitri do marido.
- Nossa, Liv, voc vai deixar todo mundo de boca aberta! - Joel comentou, quando entravam no hall do hotel, em Airlie. - Nunca vi voc to atraente! Esse seu vestido
 fantstico!
- O envoltrio pode ser mais chique e bem mais caro do que o normal, mas por dentro eu continuo a mesma - Liv respondeu. - Eu s espero que este vestido seja do
tipo que Ryan tinha em mente, quando me pediu para ser a anfitri do jantar.
- Ah, esse vestido  exatamente o que todo homem tem em mente, pelo menos uma vez na vida. - Joel riu. - Muita gente vai morrer de inveja de mim quando ns entrarmos
na sala de jantar. Inclusive o meu querido irmo. Mas isso no deve lhe fazer mal. O que  que voc acha?
- Joel Denison! - Liv disse, com ar de censura.
Joel riu de novo, parando em frente s portas do salo de jantar.
- Bem, aqui vamos nos. Se Ryan depende de voc para convencer os moradores locais de que as idias dele so boas, no tem mais com o que se preocupar. - Com uma
piscada marota para Liv, ele empurrou as portas do salo.
Apesar de bem grande, o local j estava superlotado de convidados. Liv reconheceu, de imediato, o prefeito e vrios vereadores, alm de outros cidados eminentes
de Airlie. Sua entrada com Joel despertou um interesse incrvel, e eles foram detidos muitas vezes, por pessoas que queriam cumpriment-los.  claro que, no fundo,
o que todos queriam era descobrir se Liv e Ryan tinham se reconciliado, embora ningum houvesse cometido a gafe de perguntar isso abertamente.
No demorou muito para que Ryan os visse e, pedindo licena ao grupo de pessoas com quem estava, caminhasse ao encontro deles. Liv o localizara no exato momento
em que havia entrado no salo. Era como se ela possusse um sistema de radar no corpo, no que se referia a ele.
Vestido com um smoking preto, Ryan ostentava a aparncia bonita e despreocupada de sempre. No entanto, naquela noite, ele exalava tambm um ar de pessoa confivel,
capaz de assumir todas as responsabilidades que a vida lhe jogasse sobre os ombros, e Liv percebeu que a maioria dos convidados estava bem impressionada, pois j
havia sentido isso.
Enquanto todos observavam disfaradamente, Ryan cumprimentou Joel com um aperto de mo e puxou Liv para o seu lado, envolvendo-lhe a cintura com um dos braos.
- Obrigado por ter ido pegar Liv, Joel. Venha, quero que voc conhea um dos meus scios.
A piscada marota que Joel deu para Liv, enquanto caminhavam para onde estava o scio de Ryan, no ajudou em nada a melhorar o nervosismo dela. No estava gostando
do modo possessivo com que o marido a segurava, mas, no momento em que tentou se afastar, ele a prendeu junto ao corpo com mais fora.
Quando eles se aproximaram do grupo em que Ryan estava quando ela e Joel chegaram, Liv viu, surpresa, que D.J. tambm estava l, ao lado de Roko e de um senhor fijiano.
Ryan sorriu agradavelmente para eles.
-  Kim, quero que conhea o meu irmo Joel e - ele puxou Liv ainda mais para perto - Liv, a minha esposa. Querida, este e Kim Sukuna, meu scio e grande amigo.
Enquanto os homens apertavam-se as mos, Liv notou que Roko olhava para Ryan, como se achasse que o amigo havia ficado louco.
- Voc e Liv so casados? - ele perguntou.
- Somos,   mas   estivemos   separados   por  algum   tempo  -   Ryan replicou, completamente  vontade.
- Eu teria reconhecido voc com a maior facilidade, Liv, por causa da fotografia que Ryan leva com ele - Kim Sukuna comentou, sorrindo abertamente. - Na verdade,
eu me sinto como se j a conhecesse.
Liv olhou-o, com ar interrogativo.
- Ryan me falou de voc com bastante freqncia, nesses ltimos anos - o fijiano explicou. - Vocs tm dois filhos, no ?
- Temos. Eu... Temos, sim. Um menino e uma menina.
- Ah, um casalzinho, - Kim sorriu. - Como minha mulher e eu. Ns temos uma filha um pouco mais nova que o meu filho Roko, aqui. - Kim colocou uma das mos no ombro
de Roko.
Foi  vez de Liv ficar surpresa.
- Pois olhe, o senhor mais parece irmo dele - ela comentou. Roko e ele riram alegremente.
- Obrigado Liv. Minha mulher se queixa de ter envelhecido por ns dois, mas na verdade ela tambm no parece muito mais velha que nossa filha, ou que Alesi, minha
sobrinha.
Ouvindo o nome de sua rival, Liv olhou rapidamente em volta, localizando a garota fijiana num grupo de jovens, ali perto. Alesi estava realmente maravilhosa usando
um vestido branco, pintado  mo. Ser que Ryan j lhe contara que era casado com Liv, ou decidira deixar que descobrisse sozinha, como havia acontecido com Roko?
- A sua esposa tambm est aqui? - Joel perguntou a Kim.
- No. A minha filha deu  luz o seu primeiro filho, na semana passada, e minha mulher vai ficar com ela durante algum tempo. - Kim virou-se para D.J. -  uma boa
coisa ter um neto para continuar o trabalho da gente na vida, no acha, Sr. Denison?
- Acho, sim.   E tenho orgulho dos meus dois netos - D.J. respondeu, sorrindo levemente para a nora.
Ser que todo mundo est ficando louco? Liv se perguntou. Ela nunca tinha visto D.J. to complacente, to... Submisso!
Durante o jantar, que por sinal esteve delicioso, Liv sentou-se entre o prefeito e um outro senhor, que ela logo descobriu que havia sido amigo de seu pai. Depois
que a refeio terminou Ryan e Kim Sukuna falaram sobre os planos que tinham para a ilha Craven. O projeto seria totalmente financiado por Ryan. Kim Sukuna seria
o responsvel pela construo do condomnio em si, enquanto um canadense, Scott Mallory, se encarregaria da parte dedicada exclusivamente s crianas. Ryan pediu
desculpas pela ausncia de Mallory, cujo avio tinha sofrido um atraso.
Ouvindo atentamente, Liv teve de reconhecer que estava impressionado com os planos deles, to impressionada quanto o outro convidados pareciam estar. O projeto tinha
em mente a famlia, dando tanto nfase  parte dedicada s crianas quanto  dedicada aos adultos. Alm disso, muitos empregos seriam criados, e a comunidade local
s poderia se beneficiar. A maior parte dos convidados j estava a favor do projeto, antes mesmo que Ryan e Sukuna parassem de falar.
No entanto, quando Ryan se prontificou a responder s perguntas que por ventura algum quisesse fazer, um pequeno grupo comeou a levantar vrios obstculos  construo
do condomnio. Surpresa. Liv reconheceu, entre os que protestavam, Martin Wilson!
Ryan rebateu com honestidade e conhecimento de causa todos os pontos negativos que eles levantaram, e depois de algum tempo eles desistiram de seus protestos.
O prefeito estava mais do que contente com o desenvolvimento do projeto, e confessou a Liv:
- Sabe, Sra. Denison, ns precisamos mesmo de homens como o seu marido, que se preocupam com o bem-estar da famlia. E o fato de ele prprio ser um homem de famlia
 a melhor recomendao que podamos ter para o projeto.
De repente, enquanto observava Ryan conversando com um dos vereadores locais, um pensamento cruzou a mente de Liv, atingindo-a com a fora de um golpe fsico: ser
que a verdadeira razo por que Ryan queria a ela e s crianas com ele era exatamente aquela? Para poder se apresentar  comunidade como um bom pai de famlia, e
desse modo promover o desenvolvimento de seu projeto?  Ser que sua frieza e insensibilidade iam at esse ponto?
- Bem, Liv, o seu marido parece estar se saindo muito bem, esta noite!   - Um  pouco   corado   Martin   saiu   do  meio  da   multido  e aproximou-se de Liv.
- . Ele planejou esse projeto com muito cuidado - ela respondeu, tentando pensar numa desculpa para se afastar dele.
- Como se diz por a, o dinheiro compra tudo!
- O que  que voc est querendo dizer com isso, Martin? Estava comeando a suspeitar de que ele havia bebido demais.
- Bem,  Ryan est prometendo mais dinheiro para os comerciantes locais, uma vez que seu projeto vai atrair muitos turistas, mais trabalho para o pessoal daqui e,
alm de tudo, uma vida mais luxuosa para voc.
- Uma vida mais... Quer fazer o favor de se explicar melhor, Martin?
- Talvez voc no considere mais um simples professor bom o suficiente para voc. Talvez tenha resolvido pescar um peixe maior.
- No seja ridculo, Martin. Alm disso, voc sabe muito bem que eu nunca lhe prometi nada - Liv replicou, zangada.
- Algum problema, Liv? - Joel perguntou, aproximando-se.
- Ah, Joel! - Liv sentiu vontade de abraar o cunhado. - No, nenhum problema. Martin j estava indo embora.
- O que foi que aconteceu? - ele insistiu, quando Martin se afastou, pisando duro.
- Oh, nada. Ele estava sendo um pouco grosseiro e...
- E voc o mandou embora. - Sorrindo, Joel correu o olho pelo salo. - Parece que o projeto de Ryan vai ser um sucesso.
- Tambm acho. Voc tinha dvidas a esse respeito?
--Na verdade, no. A idia de Ryan  muita boa. D. J. est se portando muito bem, no acha? Ser que ele est amolecendo, com a idade? - Joel sorriu. - Talvez Ryan
tenha finalmente provado que  um adulto...
- Joel, apresente-me a esta divina criatura!
Nem Joel nem Liv tinham notado o rapaz que se aproximava, at o momento em que ele falou, olhando para Liv com franca admirao.
- Scott!  Mas que prazer!  Quando foi  que  voc  chegou? - Joel perguntou, apertando a mo do recm-chegado,
- H quinze minutos. O meu avio atrasou quase duas horas! - Scott respondeu, com um ligeiro sotaque americano. - Ainda bem que eu no sabia o que estava perdendo
aqui, seno teria ficado completamente louco! -- Sorrindo, ele virou-se para Liv.
- Voc no mudou, hein?  - Joel   comentou.   - Continua um verdadeiro conquistador!
- No fale assim! No quero que a garota mais linda que j encontrei na vida fique com m impresso de mim.
Joel levantou os olhos para o teto e pegou a mo esquerda de Liv, mostrando a aliana de ouro que ela usava.
-  Sinto ter que lhe dar essa notcia, companheiro, mas voc chegou um pouco tarde. Esta  a minha cunhada, Liv Denison. Liv, este Dom Juan  Scott Mallory. Eu e
Ryan o conhecemos em Quebec, h uns dez ou onze anos.
-- Bem,  mesmo uma pena! - Scott declarou. - Mas eu ho sabia que voc e Ryan tinham outro irmo, Joel.
- Ser que ouvi dizer meu nome? - Ryan havia se aproximado sem que eles percebessem, e agora cumprimentava com alegria o canadense.
- Ouviu, sim. Eu estava perguntando a Liv qual dos Denison tinha conseguido captur-la.
Joel riu, mas a expresso facial de Ryan no se alterou, apesar de seus olhos se tornarem um pouco mais reservados e atentos.
- Sinto, Scott, mas voc chegou atrasado - ele disse amigavelmente. - Liv  casada comigo.
- Com voc? Mas eu nem sabia que voc era casado! - Scott Mal-lory no conseguiu esconder sua surpresa. - Vocs devem ser praticamente recm-casados, ento!
- Na verdade, ns estamos casados a oito anos - Ryan informou, envolvendo a cintura de Liv com um dos braos, num gesto possessivo, que despertou nela uma onda de
raiva.
- E eu lhe garanto uma coisa -- Joel acrescentou, rindo. - Ela s se casou com ele, porque no conseguiu me pescar. No foi, Liv?
Ela riu com ele, embora sem muita alegria.
- Esse foi o meu primeiro grande erro, Joel - Liv declarou, e sentiu os dedos de Ryan se apertarem em sua cintura.
- Sinto muito, amigos, mas vou ter que levar minha mulher para longe de vocs por alguns minutos - Ryan disse. - Vejo vocs depois. - Segurando o brao de Liv com
firmeza, ele a conduziu at uma saleta isolada, pouco distante do salo de festas. - Como voc acha que vo as coisas? - perguntou, soltando-a.
- Muito bem - Liv respondeu. - Mas acho que voc no precisa que eu lhe diga, para saber disso -- acrescentou, certa de que ele no a levara at ali apenas para
fazer essa pergunta. A expresso fechada do rosto de Ryan mostrava que ele queria lhe dizer mais alguma coisa, e ela sentiu que provavelmente no ia gostar de suas
prximas palavras.
De repente, uma onda de depresso tomou conta dela. Ryan parecia to grande e atraente, ali em p, com as mos afundadas nos bolsos... Como gostaria que tudo tivesse
corrido de modo diferente entre eles, e que pudessem agora se contemplar com amor, em vez de se vigiarem daquele modo furtivo e cauteloso, como fazia o tempo todo.
- Pelo que vi, voc gostou bastante de Scott Mallory - Ryan disse, por fim.
- Gostei, sim - Liv respondeu, surpresa. - Ele  muito agradvel.
- Agradvel? - seu tom de voz mudava bastante o significado da palavra.
- . Agradvel. O que voc quer que eu diga, depois de ter conversado com ele dez minutos? No tenho base para julg-lo melhor.
- Se voc no se importar, eu prefiro que se mantenha afastada dele - Ryan disse com suavidade.
- E se eu me importar? - Liv levantou o queixo.
- Eu no preciso desse tipo de complicao entre ns, agora.
- Que tipo de complicao? Posso saber? - ela perguntou, com fingida calma.
- Voc sabe muito bem o que eu estou querendo dizer. Conheo Scott h muito tempo, e sei que ele tem uma garota em cada cidade. No quero que voc faa uma idia
errada dos elogios dele.
- Uma idia errada? - Liv repetiu, incrdula. - Pelo amor de Deus, Ryan, confie um pouco no meu bom senso! Eu sou capaz de reconhecer um lobo, quando vejo um, e
o seu amigo  um dos homens mais agradveis e inofensivos que j encontrei!
Ryan soltou um riso breve. Liv continuou, exasperada:
- Eu cuidei muito bem de mim mesma, nesses oito anos em que fiquei sozinha, e no pretendo cair nos braos dele, nem nos de qualquer outro homem. - Liv estava to
zangada, que sentiu vontade de esbofetear o rosto bonito do marido. -- Ou  esse o problema, Ryan? Est despeitado porque eu no ca facilmente em seus braos?
-- Liv, voc est indo longe demais, e eu no...
- Ah. Voc est a, Ryan? - Roko Sukuna surgiu na porta da saleta, interrompendo Ryan. - A Sra. Craven quer ver voc e Liv, antes de ir embora.
- Est bem, Roko. J vamos indo. - Dando um passo para o lado, Ryan permitiu a Liv que passasse na frente dele e seguisse atrs de Roko.
A Sra. Craven sorriu cansadamente quando eles se aproximaram, e Liv fez um esforo para aparentar calma e alegria.
- Bem, Ryan, voc conseguiu colocar todos do seu lado - ela comentou, balanando a cabea coberta de cabelos brancos -, exatamente como disse que faria, tantos anos
atrs! Voc tem um marido muito decidido Liv! J faz mais de dez anos que ele me falou da vontade que tinha de construir um condomnio do tipo familiar na ilha Craven,
e na poca eu disse que lhe venderia a ilha no dia em que tivesse dinheiro para compr-la e pudesse provar que havia se acomodado na vida. - Ela se virou novamente
para Ryan, - Voc realizou a primeira parte do seu sonho, e eu espero que logo consiga realizar o resto.
- Eu tambm. - Ryan sorriu para a velha senhora, do mesmo modo como costumava sorrir para os gmeos, e o corao de Liv se apertou dolorosamente. Houve uma poca
em que ela tambm recebia aquele tipo de sorriso.
- Bem, eu vou andando. Fiquei muito contente em ver voc e Ryan juntos novamente. Liv. Para dizer a verdade, foi o fato de vocs terem se reconciliado que me levou
a fechar o negcio com Ryan. Eu acredito firmemente que um bom casamento faz um bom homem - ela terminou rindo, ao mesmo tempo em que segurava o brao que Ryan lhe
estendia.
- Vou levar a senhora at o txi - ele disse. - Eu volto logo, Liv - falou para a esposa, sem olh-la nos olhos.
- Boa noite, minha querida.  - A Sra. Craven deu uns tapinhas amistosos no brao de Liv, sem desconfiar do caos que suas palavras haviam provocado nas emoes dela.
Incapaz de dizer alguma coisa, Liv apenas sorriu, enquanto a velha senhora se afastava com Ryan, na direo da porta. Ento foi por isso que ele a convidara para
aquele jantar! Para provar a Sra. Craven que tinha dito a verdade, e que eles estavam juntos outra vez. Ryan havia usado a ela e s crianas para fechar o negcio
que inmeras pessoas h anos tentavam realizar!
A dor dessa revelao deixou Liv completamente fora de si, e foi s com um tremendo esforo que ela conseguiu disfarar um pouco sua agitao, rezando para que ningum
notasse sua palidez. No conseguiria responder a nenhuma pergunta que lhe fizessem, naquele momento.
Apesar de dizer a si mesma que j devia estar esperando de Ryan alguma coisa desse tipo, Liv no conseguiu diminuir a dor profunda e devastadora que tomara conta
de si. Como tinha sido tola! Ryan sempre havia sido um sujeito impiedoso e insensvel, e ela fora mesmo uma boba, achando que ele tinha mudado! No era uma caracterstica
dele usar as pessoas para conseguir o que queria? Pois bem, ele havia feito isso de novo.
No podia continuar ali. Ver Ryan novamente s serviria para aumentar sua mgoa. Joel a levaria para casa. Decidida Liv saiu  procura do cunhado, mas chegou ao
outro lado do salo sem ter visto nem ele, nem D.J. J ia reiniciar a busca, quando a voz de Martin soou a seu lado:
-- Procurando algum, Liv? - No parecia mais zangado, e seu rosto corado havia readquirido a cor normal.
-  No consigo encontrar Joel. Voc o viu, por acaso?
- Ele saiu h alguns minutos. Acho que foi levar o seu sogro para casa.
- Ah, que pena! Eu ia pedir a ele para me levar embora, tambm. Estou com uma ligeira dor de cabea - Liv disse, sem mentir.
- Se voc quiser, eu posso lev-la - Martin se ofereceu.
Liv examinou-o com cuidado, mas no encontrou nada que confirmasse sua suspeita de que ele estava bbado quando conversaram, algumas horas atrs. Talvez ele estivesse
apenas zangado. No entanto, era melhor esperar pela volta de Joel.
- Obrigada,   Martin,   mas   eu   posso   esperar   Joel   voltar  -   ela agradeceu, sorrindo. - No  preciso que voc saia daqui, s para me levar.
- Mas eu j estou de sada, Liv.
-- Ento... - Liv hesitou ainda, antes de concordar: -- Est bem. Vou pedir a Kim Sukuna para avisar Joel de que j fui embora.
-  timo. Eu espero por voc na porta.
Liv levou alguns minutos para encontrar Kim, e j estava quase alcanando a porta de sada quando Ryan surgiu na soleira. Os olhos dele passaram rapidamente de Martin
para ela.
- Est pronta, Olvia? - Martin perguntou.
- Estou, sim, Martin. - Liv podia sentir os olhos de Ryan sobre si, e foi forada a parar quando chegou  porta, pois ele no se afastou para lhe dar passagem. Sentindo-se
obrigada a dar alguma explicao, ela disse:
- Decidi ir para casa agora, Ryan. Estou com uma ligeira dor de cabea, e Martin teve a gentileza de se oferecer para me levar, j que Joel foi levar o seu pai.
- , eu sei. Estava conversando com eles, l fora. Se voc esperar um pouco, eu mesmo a levo para casa.
- No, no, voc no pode abandonar os seus convidados - Liv tentou sorrir -, e Martin no se importa de me levar. No , Martin?
- Claro que no! Com licena, Denison.
Martin deu um passo para frente, e por um momento Liv pensou que o marido fosse continuar bloqueando a porta, mas ele se afastou.
- Seu projeto foi mesmo um sucesso, Denison - Martin comentou.
- Voc deve estar satisfeito. - Seu tom de voz irritou at mesmo Liv.
- Estou, sim. Bastante. - Ryan voltou o rosto tenso para a esposa.
- Vejo voc mais tarde, Liv - ele disse, num tom de voz que quase fez Liv se encolher. Era como se sua zanga a tivesse atingido fisicamente.
Quando Martin   parou   o   carro   na   frente   do   bangal,   ela  desceu apressadamente, depois de agradecer pela carona. No o convidou para entrar, e ele
tambm no disse nada nesse sentido. Apenas lhe desejou boa-noite e foi embora.
Em seu quarto Liv tirou os sapatos e deixou-se cair na cadeira em frente  penteadeira, comeando a remover a maquilagem. Seus movimentos eram extremamente lentos,
e em seu rosto plido os olhos pareciam maiores e mais brilhantes;. Sua cabea latejava de dor e ela resolveu que uma xcara de ch quente s poderia lhe fazer bem,
naquele momento. Recusando-se a deixar que o marido e os acontecimentos daquela noite tomassem conta de sua mente, foi para a cozinha.
Alguns minutos mais tarde, Liv se acomodou em sua poltrona favorita, na sala, bebericando o ch fumegante. Quando acabou, apoiou a cabea no encosto da cadeira e
fechou os olhos. Ela sabia que deveria ir para a cama descansar, pois Maria traria os gmeos logo cedo, mas no tinha foras.
O barulho da porta de um carro se fechando fez com que Liv abrisse os olhos abruptamente, j sabendo, sem precisar olhar, que era Ryan quem havia chegado. Em seu
subconsciente ela sabia, desde a hora em que o deixara, na porta do hotel, que ele viria  sua procura.No entanto, quando ele bateu  porta, Liv continuou onde estava,
em silncio. Ryan mexeu na maaneta com violncia, esmurrando a madeira.
- Liv, abra esta porta! - Seu tom de voz era to autoritrio que, quase sem perceber, Liv se levantou para obedec-lo. - Liv, se voc no abrir, eu arrombo esta
porta!
- Ryan, j  tarde. Eu estou cansada e... - sua voz tremia.
- Liv! -- ele disse com calma forada e, relutante, ela destrancou a porta, dando um passo para o lado, para deix-lo entrar.
- Quer fazer o favor de dizer logo o que quer, e depois ir embora? - Liv falou, decidida a tomar a ofensiva. No queria que Ryan visse o quanto estava amedrontado.
- Eu estou cansada, e sem nenhuma disposio para trocar insultos com voc.
Ryan parou   no  meio  da  sala,   as  mos  nos  quadris  e  as   pernas ligeiramente separadas.
- Uma coisa eu tenho que reconhecer, Liv: voc tem coragem! - ele disse, observando-a por entre as plpebras semicerradas. - Onde est Wilson? Eu estava esperando
encontr-lo aqui.
- Martin me deixou aqui e foi embora.  Ele sabia que eu estava cansada.
-Ele deve estar muito contente, agora, j que conseguiu cair nas suas boas graas de novo.
- E o que, exatamente, voc est querendo dizer com isso? -- Liv perguntou, tensa.
Dando de ombros com arrogncia, Ryan caminhou at a janela.
- Pare de se iludir, Liv. Aquele sujeito no serve para voc. Eu a conheo o suficiente para saber disso.
- Isso  um comentrio bem intencionado, ou s o seu amor-prprio ferido falando? - ela perguntou com desdm.
Ryan virou-se abruptamente para Liv, os olhos brilhando perigosamente por entre as plpebras quase fechadas. Depois, enfiou as mos nos bolsos com fora, como se
no confiasse em seus gestos, caso as deixasse soltas.
- Voc  mesmo to corajosa quanto sua palavra d a entender, Sra. Denison? Eu gostaria muito de saber...
- Voc no tem o direito de criticar Martin. Ele  uma pessoa estvel, em que a gente pode confiar - Liv replicou, tentando esconder do marido o medo que ele lhe
causava.
Um sorriso zombeteiro surgiu nos lbios de Ryan.
- Em outras palavras, ele  tudo o que eu no sou, no ? - O sorriso desapareceu de seu rosto. - Mas diga-me uma coisa, Liv: ele consegue despertar em voc as mesmas
reaes que eu? Quando vocs se olham, o mundo explode em um milho de chamas, como acontece conosco? Negue que isso acontece conosco, se tiver coragem. Foi sempre
assim entre ns, e sempre vai ser. Se eu a tocasse agora, o seu corpo me daria a resposta que quero, no daria?
Liv deu um passo para trs, e um sorriso cnico surgiu nos lbios de Ryan, desaparecendo logo em seguida.
- Voc j esteve na cama com ele?
- No, eu... - O sangue invadiu seu rosto, e Liv se sentiu chocada com o modo franco que Ryan falava. - Seu... Seu... Isso no  da sua conta. Se eu quisesse, poderia
dormir com um time inteiro de futebol, sem pedir a sua permisso.
Mal essas palavras saram de sua boca, Liv j estava se sentindo horrorizada, humilhada e moralmente suja. Plido de fria, Ryan deu um passo ameaador na direo
dela, mas conseguiu se dominar a tempo e parou, antes de toc-la.
-  O que  que voc quer, Liv? - perguntou zangado, correndo os dedos por entre os cabelos. - Juras apaixonadas de amor eterno? Frases aucaradas, que agradem a
seu corao romntico? Pois bem, eu no sou desse tipo. Sou um homem de ao, no de palavras. E talvez seja ao que voc est querendo...
- E voc  to bom nisso, no  mesmo? - Liv gritou, esquecendo-se completamente de ser cautelosa. - Para voc, s existe isso. Ao! Pegar o que quer! Pois bem,
Ryan sexo no  a nica coisa que existe no mundo.  preciso mais do que isso, para manter um relacionamento vivo. E se a nica coisa que voc tem em mente  o quarto
de dormir, eu sinto pena de voc.
- Ah, eu tenho isso em mente tambm, pode acreditar. Isso nunca saiu da minha cabea, quando voc est por perto. - Com um nico passo ele a alcanou e, agarrando-a
com fora pelos braos, puxou-a de encontro ao peito.
- Ryan! Largue-me! Liv gritou, desviando os lbios dos dele. - Voc est me deixando louca.
- E o que voc acha que est fazendo comigo? - Sua mo forte fechou-se em tomo do queixo dela, forando-a a voltar os olhos amedrontados para ele. - Voc  como
um vrus em meu sangue, Liv. Quando eu penso que a eliminei de meu organismo, voc aparece de novo, provocando uma recada em mim, - Ele deslizou a mo at a nuca
de Liv, os olhos fixos na curva sensual de seus lbios. - Meu Deus, como voc  linda... Liv... .
Sua boca desceu sobre a dela, com uma nsia que ele parecia incapaz de controlar. Seus braos esmagaram-na de encontro ao peito, forando-a a aceitar seu domnio.
As tentativas de Liv para se libertai' em nada o afetavam, e aos poucos a resposta que ele exigia comeou a despertar no ntimo dela. Com facilidade, as mos msculas
encontraram o zper do vestido preto e o abriram de alto a baixo, fazendo-o deslizar para o cho, sem o menor respeito pelo preo e pela exclusividade do modelo.
- Ryan. Por favor! Pare com isso! - Liv fez um esforo desesperado para abafar a paixo que ele havia despertado, e que ameaava consumi-la, - Pare, Ryan, antes
que eu tenha mais razes para desprez-lo.
- Sabe de uma coisa? - Ryan riu asperamente, fazendo pouco de si mesmo. - Voc no pode me desprezar mais do que eu j me desprezo, - Suas mos moveram-se sobre
o corpo de Liv quase com desespero, ao mesmo tempo em que seus lbios colavam-se ao pescoo dela. - Eu no conseguiria parar agora, nem que o cu casse sobre a
minha cabea - ele murmurou roucamente, levantando-a  nos  braos  com  facilidade  e carregando-a para o quarto.
Com cuidado, Ryan a colocou na cama, onde ela ficou completamente imvel, observando-o. Liv sabia que deveria fazer um esforo para escapar enquanto ele se despia,
mas continuou onde estava, fascinada, hipnotizada, presa pelos flamejantes olhos azuis, que o desejo havia escurecido, tornando-os quase cinzentos.
O corpo rijo e msculo moveu-se sobre o dela, e Liv sentiu que estava perdida. Logo, todo seu desejo de escapar havia desaparecido, e seu corpo ardia com um desejo
igual ao dele.  noite que estavam vivendo e aquela noite na praia, tantos anos atrs, tornou-se a nica realidade de suas vidas, e sua unio era to certa agora
quanto tinha sido naquele momento, antes que o mundo exterior invadisse seu mundo cheio de amor e os despertasse para a infelicidade.

CAPTULO X

Liv mexeu-se, tentando estirar os msculos doloridos, estranhando o peso que a mantinha de encontro ao colcho, so despertando totalmente ao ver o ombro bronzeado
to perto do seu, naquela cama estreita. Seus olhos procuraram o rosto moreno, encontrando-se com os olhos profundamente azuis de Ryan que a contemplavam com uma
expresso ligeiramente reservada. Durante longos momentos, os dois se olharam fixamente, e o sangue invadiu o rosto de Liv quando algumas lembranas da noite anterior
surgiram em sua mente.
Como pude ser to fraca? Como pude permitir que isso acontecesse? Liv se perguntou e, quando Ryan comeou a pux-la para mais perto  de si, ela pulou abruptamente
para fora da cama e vestiu um penhoar, amarrando o cinto com fora em torno da cintura, ela continuou deitado onde estava, sem fazer nenhum gesto para cobrir o corpo
slido e musculoso.
- Acho melhor voc ir embora, Ryan -ela disse, afastando os olhos daquele corpo que a fazia estremecer por dentro, com as lembranas que despertava.
- O qu? Sem nem um cafezinho? At mesmo um condenado tem direito ao caf da manh.
- Eu s quero que voc se vista e v embora. - Sua voz se elevou, e ela inspirou profundamente, tentando dominar-se. - No quero ver voc de novo, nunca mais!
- Ah, no diga!   - ele exclamou, num tom de voz baixo e controlado, completamente diferente do dela. - E suponho que esteja dizendo isso porque eu fiz amor com
voc. Certo?
- Fazer amor!   esse o nome que d ao que fizemos? - ela perguntou, zangada.
- Voc pode dar ao que fizemos o nome que quiser, mas no pode negar que foi algo mtuo.   Eu no precisei me esforar muito para convenc-la. Seja honesta com voc
mesma, Liv! Voc me desejava tanto quanto eu a desejava. Ento, por que fazer essa ceninha hipcrita, como se estivesse ofendida? - Ryan falou com brutalidade.
- Voc  odioso! - ela gritou. - E, pelo amor de Deus, ponha as suas roupas.
Ele se levantou e a contemplou com desprezo durante alguns segundos, antes de pegar suas roupas e se vestir.
- Voc no fez nenhuma objeo  minha nudez ontem  noite, Sra. Denison.
- Quer fazer o favor de parar de falar na noite de ontem? No quero mais ouvir uma palavra a esse respeito.   - Num gesto infantil de desespero, Liv cobriu as orelhas
com as mos.
Em trs passadas, Ryan estava ao lado dela, segurando-lhe a mo e abaixando-as com brutalidade. Seus olhos percorreram-na de alto a baixo, e por um momento Liv chegou
a pensar que ele fosse arrancar-lhe o penhoar, mas Ryan apenas sorriu com fria zombaria, dizendo com arrogncia:
- No existe uma pea de roupa, em toda a Austrlia, capaz de me impedir de toc-la, se eu a quiser. Por isso, pare com esse comportamento infantil e vamos conversar
como dois adultos civilizados.
- Voc acha que  irresistvel, no ? O grande Ryan Denison! Todos tm que fazer o que voc quer.
- Ns dois queremos a mesma coisa - Ryan replicou, abraando-a e beijndo-a nos lbios, de leve.
No demorou muito para que os lbios de Liv comeassem a tremer e ela se encostasse mais no marido. Nesse momento, ele a soltou, sorrindo com cinismo. Foi a ltima
gota! Levantando rapidamente a mo, ela o atingiu com fora no rosto, o som de seu tapa ecoando pelo quarto.
Ryan apertou os dentes, tenso, a marca dos dedos de Liv claramente visvel em sua pele bronzeada.
- Eu deveria lhe dar uma surra por causa disso, mas estou comeando a achar que voc no vale o esforo, - Virando-se abruptamente, ele abriu com violncia a porta
do quarto, fazendo-a se chocar com estrondo de encontro  parede. - Pode me procurar no iate quando voltar a si.
- A sua espera vai ser longa, Ryan, pois se eu o vir s daqui a cem anos, ainda vou achar que foi cedo demais. - Sua voz foi adquirindo um tom cada vez mais alto,
 medida que Liv o acompanhava em direo ao hall.
- Talvez voc tenha razo - Ryan disse asperamente, abrindo a porta da rua. - J  tempo de eu ir embora deste lugar de uma vez por todas... E no me espere de volta.
Os dois pararam repentinamente quando viram os gmeos em p na varanda, com uma expresso horrorizada nos rostinhos infantis. Era bvia que eles tinham ouvido boa
pane da discusso.
- Eu vejo vocs depois, meus filhos - Ryan disse. Sua voz soou um pouco mais calma quando ele passou pelos filhos, a caminho do Mercedes prateado. Antes que qualquer
um deles fizesse um movimento, Ryan j havia arrancado cantando os pneus e desaparecido na estrada.
Os soluos de Melly trouxeram Liv de volta  realidade.
- Liv, desculpe - disse Maria, que havia se aproximado correndo -, mas os gmeos desceram do carro assim que eu parei... No tive tempo de segur-los...
- Voc no tem culpa de nada, Maria. Ns... Eu no percebi que j era to tarde. - Liv abraou Melly com fora. - No chore, querida. Est tudo bem.
- Por que  que voc e papai estavam gritando daquele jeito? Luke e eu pensamos que vocs gostassem um do outro, e que fssemos ficar juntos, como uma famlia de
verdade.
- Sabe, Melly, s vezes os adultos no concordam sobre alguma coisa e discutem, como voc e Luke fazem de vez em quando.
- Mas, mame, voc estava to zangada! Acho que o papai no vai voltar mais - a menina disse, a voz entrecortada pelos soluos.
- O fato de seu pai e eu termos tido uma discusso no significa que ele esteja zangado com vocs - Liv garantiu aos filhos. - Vamos, pare com esse choro.  No h
razo para isso, querida.  O que acham de agradecer  tia Maria, por ter tomado conta de vocs esta noite? - perguntou, tentando aparentar alegria.
- Obrigada tia Maria - os dois disseram, embora Melly continuasse agarrada na me e Luke a olhasse com ar preocupado.
- Obrigada Maria - Liv repetiu animadamente. - a noite foi um sucesso para Ryan.
- Que bom! Bem, eu vou andando, ento. Mike est de folga hoje, e vamos almoar todos juntos.
Totalmente deprimidos, os gmeos sentaram-se para tomar o caf da manh. Depois de alguns minutos, Liv no agentou mais seu silncio e falou, olhando-os com seriedade:
- Luke... Melly... Eu sinto muito que vocs tenham ouvido a minha discusso com o seu pai, esta manh, mas no quero que se preocupem com isso. Quando duas pessoas
ficam separadas por muito tempo, elas demoram um pouco para se acostumar uma com a outra, de novo. E, muitas vezes, discutem por coisas sobre as quais no concordam.
Os dois levantaram os olhinhos solenes para ela.
- Mas a nossa discusso no teve nada a ver com vocs, e no modificou nem um pouco o amor que sentimos por vocs dois.
- Mas vocs no se amam, no ? - Luke perguntou.
- No  bem isso. Ns so no combinamos - Liv replicou, sentindo o corao se apertar.
- Quer dizer que o papai no vem mais morar com a gente? - Melly quis saber.
- Acho que no - Liv respondeu, com vontade de poder chorar como a filha estava fazendo.
Liv acordou aos poucos, e olhou em volta,  procura dos filhos. Eles estavam brincando na praia, enquanto ela os vigiava sentada nos degraus da cozinha, mas a noite
exaustiva havia cobrado seu preo, e ela adormecera sem sentir,
- Luke...   Melly...   - chamou, sem obter resposta.   Dando uma olhada no relgio, ela viu, surpresa, que havia dormido por mais de uma hora. Levantando-se, Liv
foi para a praia.
Cinco minutos depois, j estava ficando rouca de tanto gritar pelos gmeos. E se eles tiverem se afogado. Pensou, aterrorizada. Mas no, eles nunca entravam na gua
sozinha. Talvez tivessem sado em suas bicicletas...
Liv voou para a garagem, e viu que realmente as bicicletas no estavam!, mas seu alvio momentneo foi logo substitudo pelo medo, novamente. Luke e Mel!y nunca
saam sem lhe dizer para onde iam!
Forando-se a se acalmar, ele tentou pensar para onde eles poderiam ter ido. Os Costello! Correndo para dentro, Liv discou para Maria, mas o telefone tocou vrias
vezes, sem que ningum atendesse. Eles deviam ter ido almoar fora.
Vinte minutos depois, Liv estava quase em pnico. J havia telefonado
Para todos os conhecidos de que conseguira se lembrar, e nenhum deles tinham visto os gmeos.
Joel!  claro, eles tinham que estar l Com dedos trmulos, ela discou o nmero da casa do sogro.
- Residncia do Sr. Denison - Thomas atendeu.
- Thomas, aqui  Liv. Joel est a?
- No, senhora, no tem ningum em casa. O Sr. Joel levou o Sr. Denison e o Sr. Mallory para um passeio de barco.
- E os gmeos? Voc viu os gmeos, Thomas?
- No, senhora. Eles no estiveram aqui.
Liv desligou, totalmente em pnico. O que devia fazer? O que podia fazer? Ryan! Telefonaria para ele. Talvez ele ainda no tivesse ido embora. Inconsciente das lgrimas
que lhe corriam pelas faces, ela ligou para a casa do rapaz que tomava conta do cais.
- Jim? Aqui  Liv Denison. O iate de Ryan ainda est ancorado na baa? - perguntou, ofegante.
- Est aqui no cais. Ele o trouxe hoje de manh.
- Ryan est a bordo, Jim?
- No, ele saiu agora h pouco. Quer deixar algum recado?
- No, obrigada. Jim - Liv respondeu, desligando.
Desesperada, ela cobriu o rosto com as mos. Precisava fazer alguma coisa. E se pegasse o carro e sasse pela cidade,  procura dos dois? Imaginando as piores coisas,
Liv abriu a porta da frente e saiu correndo, dando de frente com Ryan, que acabara de descer do Mercedes. Nesse momento, ela perdeu completamente o pouco controle
que ainda tinha sobre si mesma e jogou-se nos braos dele,  beira de um ataque histrico.
- Liv, acalme-se e me diga o que aconteceu - ela ouviu o marido dizer.
- Eu no consigo achar os gmeos. Eles foram embora! J telefonei para todos os meus conhecidos, e ningum os viu. No sei mais o que fazer!
-  Acalme-se! Mike e Maria no os viram?
- Eu telefonei para l, mas eles no estavam em casa.
- Qual  o numero deles? Eu vou tentar de novo.
Liv j ia lhe dizer, quando o telefone tocou, l dentro. Plida, ela correu para l, mas Ryan foi mais rpido.
- Ryan Denlson falando - ele atendeu.
- Aqui  Jim Ferguson, do cais. Olhe, um dos rapazes que trabalha para mim viu duas crianas entrando no seu barco, e eu encontrei as bicicletas dos seus filhos
escondidas atrs de uns caixotes. Eu achei que era melhor avisar vocs.
- Obrigado Jim. Eu j vou para a. Se eles resolverem sair do barco, segure-os para mim, sim?
- Ele os encontrou? Eles esto bem?
- Eles esto no meu barco.
- No barco? Oh, Ryan! - Tremula de alvio, Liv deixou-se cair numa poltrona. - Eles esto sozinhos?
- Parece que sim. Vou para l. Voc vem comigo?
- Claro! - ela respondeu, pondo-se em p de um salto.
No havia sinal de vida no iate quando eles subiram a bordo. Rapidamente Ryan percorreu o convs, sem achar ningum.
- Eu vou olhar l embaixo - ele disse, dirigindo-se para a cabine principal, com Liv nos calcanhares. - Espere aqui.
Ryan foi at a cabine da proa, mas voltou logo depois, sacudindo a cabea num gesto negativo. Sem se deter, ele se dirigiu para a cabine de popa, surgindo em poucos
minutos com os gmeos firmemente seguros pelos braos.
- Graas a Deus! - Liv deixou-se cair de joelhos no cho, abraando os filhos. - Luke, Melly, eu j estava quase louca de preocupao! - Lgrimas de alvio comearam
a lhe correr pelo rosto, e as crianas puseram-se a soluar.
- Ns estvamos com medo, mame - Melly contou. - Pensamos que o papai ia voltar logo, mas ele no voltou.
- Por que vocs no disseram a sua me que vinham para c? - Ryan perguntou com voz gentil, porm firme.
- A mame estava dormindo - Luke respondeu-, e ns... Bem, ns pensamos que, se nos escondssemos no barco e voc partisse conosco, teria que voltar para nos devolver
e acabaria fazendo as pazes com a mame. Ns no queramos assustar voc mame - o menino terminou, soluando sentido.
Indo at o banheiro, Ryan voltou com uma toalha na mo.
- Ser que essa toalha  grande o suficiente para enxugar todas essas lgrimas? - perguntou, e Melly riu, enquanto Ryan enxugava primeiro o rostinho dela, depois
o de Luke. - E a mame? J parou de chorar? - Colocando uma das mos na nuca de Liv, Ryan enxugou-lhe delicadamente o rosto.
Seus olhares se encontraram, e a expresso do dele era to intensa que ela sentiu os joelhos moles, e no ofereceu a menor resistncia quando Ryan a puxou de encontro
ao peito, abraando-a com fora por alguns momentos, antes de se levantar.
- Aposto que vocs esto morrendo de fome - ele disse para os gmeos. - Querem comer alguma coisa aqui, ou preferem ir para casa?
- Se ns formos para casa, voc vai conosco? - Melly perguntou, olhando para o pai.
Nem Liv nem Ryan responderam.
- Voc vai? -Luke insistiu.
Ryan levantou os olhos azuis para Liv, com aquela mesma expresso devastadora em suas profundezas.
- Eu vou, Liv? - ele perguntou, num tom de voz que ela nunca ouvira antes.
- Ns gostaramos muito que voc fosse - Liv disse finalmente, sentindo que um grande peso fora tirado de seu corao.
Foi s bem mais tarde, quando os gmeos j estavam na cama, que eles se sentaram na sala, sozinhos. Um pouco embaraada Liv lanou um olhar para o marido, que a
observava com ateno.
- Por que foi que voc voltou, esta tarde? - ela perguntou, tentando disfarar o embarao que sentia.
Ryan sorriu.
- Eu me esqueci da desculpa que ia dar, no momento em que voc se atirou em meus braos.   Pensei que estava recebendo todos os meus presentes de Natal, de uma s
vez.
- Ryan, fale srio! - Liv pediu, rindo.
- Eu estou falando. Nunca falei mais srio, em toda a minha vida! - Aproximando-se dela, ele a abraou e disse com simplicidade: -Para mim, nada tem valor sem voc.
Ontem  noite, eu falei que no era homem de palavras, mas neste momento bem que eu gostaria de ser, para lhe dizer tudo o que eu sinto. Eu a amo, Liv... Sempre
amei, e sempre vou amar.
- Oh, Ryan, eu tambm o amo!  - Com lgrimas brilhando nos olhos, Liv abraou o marido, encostando-se em seu corpo forte.
Durante mais alguns momentos, eles continuaram abraados; depois Ryan se sentou numa poltrona, com ela no colo.
- Voc me fez passar um mau pedao, Sra. Denison.  Espero que esteja envergonhada de seu comportamento.
- Eu o fiz passar um mau pedao?! Voc  que vem fazendo isso comigo, desde o dia em que me apaixonei por voc, quando tinha seis anos de idade!
- Pois olhe, voc escondeu isso muito bem, nessas ltimas semanas.
- H um div no meu estdio. Voc pode dormir la...
-  mesmo? - ele perguntou, mordiscando a orelha dela. - Voc  uma mulher difcil, Liv Denison, mas acho que vou conseguir convenc-la a me fazer companhia nesse
div...


                                              FIM
